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21/06/2018

Violência contra movimentos sociais é tema da sessão pública “Marielle Vive!”

Nisia e Boaventura

Por: Luiza Gomes (Cooperação Social da Fiocruz)

Para os que militam pelos direitos humanos o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março deste ano, mais que uma fatalidade, foi um recado. Com objetivo de lançar luzes sobre o contexto de recrudescimento do autoritarismo e da violência em suas diversas expressões no Rio de Janeiro e em todo o país, a Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS), em parceria Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), Museu da Maré e Fiocruz, com apoio do sindicato dos trabalhadores da Fiocruz (Asfoc-SN), organizou a sessão pública “Marielle Vive!”, ocorrida sábado passado (16) na Tenda da Ciência, no campus Manguinhos da Fiocruz.

Representações de movimentos sociais e organizações da sociedade civil da Bahia, de São Paulo, Minas Gerais, e Rio de Janeiro, educadores populares, professores, pesquisadores e diretores de Unidades da Fundação Oswaldo Cruz lotaram o auditório da Tenda. A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, e o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, falaram ao público sobre a urgência da construção de alianças para o enfrentamento da conjuntura adversa por que atravessa o país.

O encontro foi a culminância de dois dias de oficina (14 e 15 de junho), realizada na Maré, com o objetivo de reunir ativistas sociais e acadêmicos para construção de propostas e alternativas democráticas frente às múltiplas faces da violência, sejam as de natureza institucional; aquelas refletidas na questão da terra e moradia, da saúde, da comunicação, de etnia, gênero e orientação sexual, entre outras.

Foi a apresentação do grupo de hip hop do Museu da Maré que abriu o espaço de reflexão. Composto por jovens moradores do maior complexo de favelas da cidade do Rio de Janeiro, o cativante grupo chegou a envolver nos passos de dança até mesmo Boaventura, sociólogo veterano da Universidade de Coimbra. Maria Gabriela Duarte Alves, uma das integrantes, falou sobre a importância de a juventude ocupar todos os espaços e reafirmar, na prática, que “o lugar do favelado é onde ele quiser”. Atualmente, a jovem, de 16 anos, é aluna bolsista do Programa de Vocação Científica (Provoc), na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio.

Um vídeo do cortejo feito em homenagem à Marielle no dia 14 de junho – quando seu assassinato e de Anderson Gomes completou 90 dias – foi exibido no telão da Tenda da Ciência. Produzido por comunicadores populares do Museu da Maré, o registro mostrou cenas do trajeto solene feito por amigos, familiares e companheiros de luta caminhando até a casa onde a vereadora morou. O vídeo emocionou os participantes.

Conhecimento acadêmico articulado com o conhecimento nascido nas lutas

Em sua fala, Boaventura de Sousa Santos ressaltou a repercussão internacional dessas mortes. Ele caracterizou o momento atual da história do país como um período de enfraquecimento da democracia e que, lembrar e dar continuidade às lutas das quais participava a vereadora homenageada, era, ao seu ver, lutar pelo “aprofundamento democrático, e restauração da democracia no Brasil”.


Boaventura caracterizou o momento atual da história do país como um período de enfraquecimento da democracia (Foto: Bruna Arakaki)

Tratando dos impasses e contradições do campo ideológico da esquerda, o sociólogo chamou atenção para o fenômeno de fragmentação das lutas populares nos países em que o capitalismo neoliberal é o sistema dominante. “O neoliberalismo tem uma grande armadilha. Extraordinária, e cada vez mais eficaz. É a de colocar vítima contra vitima, camponês sem terra contra indígena, na África do Sul, negro Sul Africano contra negro Moçambicano ou Zimbabuano, no Brasil, sindicato petroleiro contra Ilha da Maré, na Bahia. Ao mesmo tempo em que lidamos com as lutas micro, precisamos lidar com as questões macro: que é esse modelo de desenvolvimento. É preciso criar alianças”, afirmou.

Para isso, o professor reafirmou como estratégica a aproximação cada vez maior entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular, por meio de oficinas como a realizada pela UPMS, pesquisas colaborativas, e outras modalidades de articulação, para resistir aos retrocessos desencadeados pelo que chamou de “golpe institucional”, vivenciado no Brasil. Boaventura é membro do Conselho Superior da Fiocruz e o Centro de Estudos Sociais de Coimbra, que dirige em Portugal, possui um convênio com a Fundação.  

Ele também enfatizou o processo de perseguição sofrida por pesquisadores nos últimos anos no Brasil, e as ameaças à livre produção do conhecimento, cerceada pelo interesse de multinacionais e conglomerados econômicos. Nesse contexto, saudou o fato de a Fiocruz ter vindo publicamente em defesa de pesquisadores vinculados à instituição e ameaçados criminalmente em virtude de sua produção científica. Boaventura citou o caso do pesquisador Fernando Carneiro, da Fiocruz Ceará, que vem enfrentando um processo judicial por empregar o termo “veneno” para referir-se aos agrotóxicos em publicação editada pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde.

Em consonância com a exposição do professor, Nísia Trindade, também socióloga, apontou a necessidade de construção de uma agenda de trabalho conjunta entre movimentos sociais e academia, convidando os presentes a participarem da construção de uma proposta de cooperação entre Fiocruz e o Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra, na linha da Universidade Popular dos Movimentos Sociais. “Temos que unir nossas falas, em uma direção muito clara, afirmativa, mais forte no sentido de não nos isolarmos”, declarou.

Como exemplo da convergência possível de interesses entre pesquisa e movimento social, Nísia citou a possibilidade de apropriação – por parte dos movimentos sociais - de dados como os apresentados pelo Atlas da Violência 2018, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) dias antes da sessão pública, e que aponta para índices de homicídios trinta vezes maiores no Brasil que em países europeus.

“Como trabalhar essas informações? Considerando que dentro desse índice, os pretos e pobres são maioria...”, provocou. A gestora também versou sobre o papel das instituições de pesquisa em fazer uma construção política acerca dos resultados produzidos em estudos (o termo em inglês é advocacy) como forma de trazer a devolutiva à sociedade do investimento público em produção científica.

“A Fiocruz tem buscado fazer com que a pesquisa alimente essa construção. No dia 8 de março, dia Internacional da Mulher, pautamos as condições de vida das mulheres na prisão na abertura do ano letivo da Fiocruz. A pesquisa “Nascer nas Prisões”, liderada pela pesquisadora Maria do Carmo Leal, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz)), embasou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de conceder habeas corpus coletivo para gestantes que se encontram em prisão preventiva, impedindo que as mulheres em trabalho de parto sejam algemadas para ter seus filhos”, narrou a presidente.

Acolhimento e visibilidade entre as lutas

Cláudia Rose Ribeiro da Silva, diretora do Museu da Maré, abriu a sessão pública para apresentação dos resultados. Michelle Alves, vice-presidente da Asfoc, Janete Ribeiro, professora da educação básica da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, Eliete Paraguassu, pescadora e quilombola da Ilha de Maré, na Bahia, e Luiza Curty, do Levante Popular da Juventude, da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, apresentaram a síntese sobre a oficina que antecedeu a sessão pública.

A necessidade de visibilidade e reconhecimento recíproco entre as diversas frentes de lutas de grupos sociais minorizados nos estados e territórios brasileiros foi um dos pontos comuns em suas falas. Como encaminhamentos, apontou-se a constituição de fóruns estaduais permanentes para unir movimentos sociais populares, de favelas, academia, e educação básica e a criação de uma agenda permanente de oficinas da Universidade Popular dos Movimentos Sociais.

Uma carta desenvolvida como fruto da oficina foi lida durante o evento.

 

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