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Reforço para o conhecimento das leishmanioses nas Américas


07/10/2020

Por: Lucas Rocha (IOC/Fiocruz)

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No continente americano, as leishmanioses são causadas por várias espécies de parasitos do gênero Leishmania. Quando infectados, os seres humanos apresentam um conjunto de manifestações clínicas que podem comprometer a pele, mucosas e vísceras. As diferentes apresentações da leishmaniose são confundidas clinicamente com diversas doenças, o que torna o diagnóstico um desafio para profissionais de saúde. O espectro clínico variado da doença depende ainda da interação de vários fatores relacionados ao parasito, ao vetor e ao hospedeiro.

Considerando a complexidade desse cenário, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) publicou um material inédito voltado para gestores e profissionais dos serviços de saúde. O ‘Atlas Interativo de Leishmaniose nas Américas: aspectos clínicos e diagnósticos diferenciais’ aborda de forma prática questões como situação epidemiológica, manifestações clínicas, diagnóstico diferencial, parasitos, vetores e animais reservatórios. Com fotografias e ilustrações que refletem o cotidiano de trabalho nos serviços de saúde, a publicação oferece aos profissionais a possibilidade de pesquisar, conhecer e analisar o conteúdo de forma interativa. A obra considera, ainda, as diferenças clínicas encontradas com frequência entre os países endêmicos. O documento, elaborado pela Opas em parceria com os Ministérios da Saúde dos países da região e especialistas, conta com a participação de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

“O atlas é de extrema relevância para o manejo dos casos de leishmanioses. É uma obra inovadora que discute conceitos e conhecimentos acerca da doença nos países do continente americano, reunindo especificidades das suas distintas formas clínicas e de mais de 50 outras enfermidades que fazem diagnóstico diferencial com as leishmanioses”, afirma Elizabeth Ferreira Rangel, vice-diretora de de Laboratórios de Referência e Coleções Biológicas do IOC, pesquisadora do Laboratório Interdisciplinar de Vigilância Entomológica em Díptera e Hemíptera e coordenadora do Laboratório de Referência Nacional para o Ministério da Saúde e Regional para a Organização Pan-Americana da Saúde em Vigilância Entomológica: Taxonomia e Ecologia de Vetores das Leishmanioses. A especialista também é coordenadora da Rede Fiocruz de Laboratórios de Leishmanioses.

Conhecendo os parasitos

"O documento faz parte de uma demanda dos profissionais que atuam na linha de frente do serviço em leishmanioses. É uma importante atualização para todos os países onde a Opas atua, que se torna uma referência principalmente por trazer informações de grande qualidade e de uma forma bastante objetiva", aponta Elisa Cupolillo, curadora da Coleção de Leishmania do IOC, chefe do Laboratório de Pesquisa em Leishmaniose e coordenadora do Laboratório de Referência em Identificação e Genotipagem de Leishmania para o Ministério da Saúde e a Opas.

Autora do capítulo sobre os parasitos causadores das leishmanioses humanas nas Américas, a pesquisadora do IOC ressalta que o conhecimento dos diferentes aspectos relacionados às espécies é fundamental para o enfrentamento do agravo. "Os parasitos podem trazer impactos variados que vão desde a resposta terapêutica até a questão do desenvolvimento clínico. Algumas espécies estão relacionadas a quadros mais brandos da doença, outras provocam formas mais agressivas, como a Leishmania braziliensis. Ou seja, a identificação permite direcionar de forma mais adequada a atenção ao paciente, por exemplo", explica.


A espécie Lutzomyia longipalpis é o vetor principal da leishmaniose visceral humana no Brasil (Foto: Josué Damacena)

Entre os destaques do capítulo estão a descrição de novas espécies, revisões taxonômicas e atualizações sobre a situação epidemiológica e a presença dos parasitos em diferentes países do continente. Para a pesquisadora, o atlas estabelece uma aproximação entre a pesquisa científica e uma ampla gama de profissionais de saúde pública envolvidos com as leishmanioses, incluindo os responsáveis pelos cuidados com os pacientes, pela realização do diagnóstico e pela coleta dos flebotomíneos, insetos vetores, no campo. "A associação entre a pesquisa e o serviço é importante, pois dessa integração surgem questões e demandas que podem contribuir para um melhor diagnóstico ou para a definição de esquemas terapêuticos mais eficazes", acrescenta.

Reservatórios e a manutenção dos parasitos na natureza

Grupos de espécies responsáveis pela manutenção de um parasito na natureza são chamados de reservatórios. No Atlas, os pesquisadores Ana Maria Jansen e André Roque, do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos do IOC, descreveram os principais aspectos sobre os reservatórios das leishmanioses.

Roque destaca que as espécies de Leishmania estão dispersas por diferentes habitats e biomas americanos e infectam uma grande diversidade de espécies de mamíferos silvestres, além do homem e do cão. Segundo o pesquisador, à exceção da espécie Leishmania infantum, os parasitos circulam há milhões de anos na fauna silvestre, antes mesmo da chegada do homem às Américas.

O capítulo destaca espécies apontadas como potenciais reservatórios, como os gambás (Didelphis sp.), os cachorros-do-mato (Cerdocyon thous), tatus (Dasypus novemcinctus), cães, preguiças e roedores com diferentes espécies de Leishmania. "As peculiaridades da interação parasito-hospedeiro, em especial no que diz respeito à potencialidade desse hospedeiro em ser fonte de infecção ao vetor, é que definirão seu papel como reservatório. Esse papel não é um atributo fixo de um dado hospedeiro e, uma vez que depende da interação parasito-hospedeiro, ele também varia no tempo e no espaço", explica Roque.

Para os autores, além de contribuir para a conduta clínica e diagnóstico diferencial dos pacientes, o conteúdo do altas mostra a complexidade da parasitose e a importância da avaliação das variáveis relacionadas à doença de forma conjunta. "As leishmanioses são zoonoses dispersas no ambiente selvagem. O homem é apenas mais um hospedeiro de seu ciclo de transmissão e normalmente é o que chamamos de hospedeiro fim de linha no ciclo de transmissão. Para propor medidas de controle e prevenção de uma parasitose tão complexa, é essencial que avancemos no conhecimento de todos os atores envolvidos na transmissão: parasitos, vetores, reservatórios e o ambiente onde estão incluídos", concluiu Jansen.

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