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03/06/2019

Livro ‘O Massacre de Manguinhos’ é relançado


Fonte: COC/Fiocruz

A cassação e a suspensão dos direitos políticos de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz em 1970 pela ditadura militar, episódio marcante da história da ciência brasileira que ficou conhecido como Massacre de Manguinhos, foi relembrado durante as comemorações dos 119 anos da instituição. Em evento realizado na última terça-feira (28/05), foi lançada uma nova edição do livro          O massacre de Manguinhos, de Herman Lent, um dos mais importantes entomologistas brasileiros, cassado na ocasião.

“O Massacre de Manguinhos evidencia não somente uma perseguição dirigida ao grupo de cientistas; ele foi um ataque ao pensamento livre”, afirmou Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz, durante o lançamento. “É fundamental que deixemos viva essa memória para as novas gerações, pois esta publicação é o símbolo de uma época que não pode voltar, é uma referência dos problemas pelos quais a instituição passou, de tradições de pesquisa que, em grande parte, foram descontinuadas”, completou. 

Referência para os estudos sobre o impacto da ditadura militar na atividade científica realizada no Brasil, O Massacre de Manguinhos, publicado em 1978 pela Avenir Editora, registra o testemunho de Herman Lent a partir de documentos pessoais e de família, inquéritos, punições, indagações, cartas, e traduz a mobilização e a resistência dos cientistas. Filho de Herman Lent e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Lent, lembrou de sua infância quando, trazido pelo pai, visitava os laboratórios da Fiocruz, e destacou a importância do relançamento da publicação. 

“Eu sofri muito com a cassação, não só pela questão pessoal, pelo meu pai, mas também por todas essas circunstâncias de ter vivido e convivido aqui com amigos e num ambiente tão afetuoso, tão rico de conhecimento”, disse Roberto Lent. “Este o relançamento tem um valor simbólico nos dias atuais. Vivemos dias obscuros, de cortes, uma cinzenta atualidade de desprezo a ciência e a educação e, de certa forma, um retorno aqueles dias, um retorno perturbador”, ressaltou. 

Cassados mantinham visão de ciência que não teve espaço na ditadura

Autora do posfácio Ciência, saúde e política no regime militar: ‘O Massacre de Manguinhos’, a pesquisadora da COC Wanda Hamilton destacou que a reedição da publicação é oportuna para a reflexão sobre a democracia brasileira. 

“Como essa questão da liberdade de expressão e de pensamento, da liberdade de duvidar, questionar, criticar, foi cerceada durante a ditadura militar e implicou na cassação dos dez cientistas de Manguinhos?”, questionou Wanda. “Para além das questões pessoais, políticas e partidárias, percebo que o que reunia e identificava esse grupo era justamente uma visão de instituição e uma visão de ciência que não teve lugar na ditadura militar. Por isso, esses pesquisadores foram cassados”, completou. 

Para o pesquisador do IOC Renato Cordeiro, que escreveu o posfácio Momentos sombrios para não serem esquecidos pelas novas gerações, a obra de Herman Lent captou a atmosfera do período de resistência vivida pelos cientistas de Manguinhos no momento de maior truculência e agressividade da ditadura militar. 

“A cassação criou fraturas profundas nos laboratórios dos cientistas atingidos. Projetos de cooperações nacionais e internacionais foram subitamente descontinuados, vários pesquisadores e técnicos do IOC foram distribuídos para outras instituições do Ministério da Saúde. O Brasil sentiu o impacto de ver o Instituto Oswaldo Cruz, templo da ciência nacional, esfacelado”, lembrou Renato Cordeiro. 

Quais foram os motivos para a cassação?

Na ocasião, Roberto Lent relacionou a cassação dos cientistas ao movimento para a criação do Ministério da Ciência e da Tecnologia, liderada pelos pesquisadores cassados. “Quando houve a cassação, nos perguntávamos quais eram as causas, por isso, gostaria de lembrar de uma que foi muito combatida na época. Pelo ponto de vista do meu pai – Herman Lent – a luta pela criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, iniciada por essa geração de cientistas de Manguinhos, passa por esse ato”, afirmou. 

Para Renato Cordeiro, a história completa do Massacre ainda precisa ser revelada. “Em respeito à tradição do Castelo de Manguinhos, é fundamental que esse trabalho seja realizado em homenagem aos 11 cientistas da instituição que foram cassados. E essa história só virá à tona quando as caixas-pretas dos ministros da saúde da época, Francisco de Paula Rocha Lagoa, do governo Médici, e Raimundo de Brito, do governo Castelo Branco, e dos diretores do Instituto Oswaldo Cruz no período dos Anos de Chumbo, até hoje desconhecidas, forem abertas pelo Arquivo Nacional, por historiadores e por comissões independentes, comissões da verdade localizadas na instituição”, defendeu. 

Coleção Memória Viva

Lançada pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), em parceria com a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), a Editora Fiocruz e o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), O massacre de Manguinhos é o primeiro livro da coleção Memória Viva, que busca tornar acessíveis ao público obras de grande relevância acadêmica e institucional para a Fiocruz. 

“Este projeto visa identificar, recuperar e reeditar obras consideradas de difícil acesso. São livros com relevância acadêmica e institucional para a Fiocruz, editadas por editoras que não existem mais, ou seja, que não mais nenhum interesse econômico e comercial, portanto, são livros fadados a virar poeira e que serão recuperados e relançados”, explicou Rodrigo Murtinho, diretor do Icict e responsável pela reedição do livro. 

Durante o lançamento do livro, também foi exibido o trailer do documentário O Massacre de Manguinhos , de Lauro Escorel Filho, restaurado pela VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz, vinculada ao Icict. O reproduz trechos da cerimônia de reintegração dos cientistas cassados, em agosto de 1986. 

 

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