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Antártica: Fiocruz divulga relato da primeira expedição

Pesquisadores da Fiocruz caminhando na Antártica

24/01/2020

Por: Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias)

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Na Antártica, a primeira oportunidade pode ser a última. A frase, ouvida de veteranos, foi repetida pelos pesquisadores da Fiocruz que retornaram após sua primeira expedição ao continente gelado. Para fazer pesquisas na Antártica, é necessário muita preparação e planejamento. O grupo passou por uma preparação de um ano, que incluiu a definição de metodologia, logística, pontos de coletas e até mesmo um treinamento de oito dias conduzido pela Marinha na restinga da Marambaia. Ainda assim, é importante estar disposto e preparado para se enfrentar os imprevistos, além das condições adversas de um ambiente inóspito e instável. A lição foi aprendida na prática pelo grupo de cientistas que compôs a terceira fase da 38º Operação Antártica Brasileira (Operantar), que incluiu seis pesquisadores e dois profissionais de comunicação da Fiocruz.

A fase ficou marcada pela queda do avião da Força Aérea Chilena Hércules C-130, que desapareceu no dia 9 de dezembro no mar entre o Chile e Antártica. O navio polar Almirante Maximiano foi acionado para auxiliar na operação de busca e salvamento da aeronave e desviou sua rota para a região do acidente com todos a bordo na madrugada do dia 10 de dezembro, interrompendo os trabalhos de coleta. Em casos assim, a solidariedade é norma internacional.

Com isso, o grupo teve apenas uma descida do navio para coleta em solo, em Rip Point, na Ilha Nelson. A oportunidade foi bem aproveitada e serviu para colocar em prática a metodologia desenvolvida pela equipe. Foram coletadas amostras de solo, líquens, fezes e carcaças de animais, que serão analisados nos laboratórios da Fiocruz e no laboratório da Fundação na Estação Antártica Comandante Ferraz para identificação de microrganismos. A ideia é identificar ameaças e oportunidades entre vírus, bactérias, fungos e helmintos que circulam no continente antártico.

“Nós fomos brindados com um dia antártico fantástico, com sol, com uma temperatura agradável, com um vento que não estava atrapalhando”, conta o virologista do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Fernando do Couto Motta.

O dia bonito, no entanto, não acabou com as dificuldades do terreno, mesmo para um grupo acostumado com o trabalho de campo. “A coleta foi bem difícil. A gente ficou andando o dia todo com a neve até a altura do joelho, carregando mochila pesada. Foi bastante cansativo”, lembra Túlio Machado Fumian, pesquisador do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC/Fiocruz.

Mesmo com o desvio de rota e a interrupção da pesquisa de campo, o grupo não se abateu, nem parou de trabalhar. “A gente continuou discutindo e trabalhando em diferentes aspectos do projeto e tendo uma boa convivência. Acho que isso é um trampolim para próximas etapas que poderão buscar padrões mais elevados em próximas operações”, relata Fernando.

Um novo grupo de Fundação, composto por quatro pesquisadoras e dois profissionais de comunicação, já está novamente na Antártica, colocando na prática os ensinamentos passados por pelo primeiro grupo após reuniões de avaliação.

Cooperação em pesquisa

No contexto antártico, a cooperação é o cotidiano da pesquisa. Diferentes grupos dividem o espaço do navio e precisam negociar seu trajeto e logística. O convívio, que inclui refeições conjuntas, jogos e sessões de filmes, permite a troca de experiências e auxílio mútuo entre as equipes. “Essa é a vantagem de estar no navio, você convive com áreas novas, você aprende coisas diferentes”, comenta Túlio.

Ao desembarcar com um grupo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) que estuda solos, o grupo da Fiocruz aprendeu um pouco mais sobre a formação geológica do continente. Em contrapartida, alguns pesquisadores tiveram que ajudar a carregar as baterias de cerca de 30kg que alimentam os sensores instalados para monitorar como as mudanças climáticas impactam no permafrost, camada do solo permanentemente congelada.

“É interessante ouvir os diferentes grupos testemunharem como eles tentam medir, as mudanças climáticas e quais são os impactos. A gente vê que a natureza lá é muito flexível. Em duas semanas, foi possível observar o degelo do entorno da Estação, que acontece todo verão, e imediatamente os musgos que estão embaixo começam a aparecer e fica tudo verde”, relatou Wim, que passou cerca de um mês na Estação Antártica Comandante Ferraz montando o laboratório de biossegurança que a Fiocruz ocupará permanentemente, o Fiolab.

Em outro momento, a equipe do Fioantar viu no desembarque de outro grupo a oportunidade de conseguir mais amostras de solo. O grupo da Universidade Federal Fluminense (UFF), liderado pela veterana de operações na Antártica Rosemary Vieira, coletou amostras em uma geleira próxima a estação polonesa Henryk Arctowski, uma área especialmente protegida.

“A gente sabe que o sedimento que a gente consegue coletar é difícil, ele é caro. E para que vamos manter esse tipo de material congelado e estocado só para o nosso uso, a partir do momento que ele serve também como fonte de pesquisa para outros grupos? Então, o compartilhamento é uma coisa protocolar, é o óbvio”, conta Rosemary, que participa em operações antárticas desde 2003. Ela garante que na Antártica o imprevisto é sempre a regra. “Tem que estar pronto para isso. E não voltar frustrado nunca”.

A professora da UFF explica que, mais do que amostras, as pesquisas também compartilham dados em escala internacional; mas a cooperação internacional vai além. Para chegar à Antártica, as expedições brasileiras precisam passar pela cidade chilena de Punta Arenas, onde os pesquisadores aguardam a “janela metereólogica”, como é chamado o intervalo entre frentes frias, para fazer a travessia entre os dois continentes por avião ou navio. Os voos de apoio, operados pela Força Áerea Brasileira (FAB), têm como destino a Base Chilena Presidente Frei Montalva, a única da ilha Rei George com pista de pouso. Outra cooperação comum, como foi possível observar, é a ajuda com a locomoção no continente. Durante a 3ª fase da 38ª Operantar, um grupo de poloneses pegou carona no “Tio Max” para ir da base chilena para a estação polonesa, vizinha à brasileira. 


Pesquisadores coletaram amostras de solo, líquens, fezes e carcaças de animais (Foto: Paulo Lara)

Continente nem tão isolado

A proximidade da América do Sul e do Brasil do continente antártico, com grande fluxo de aves migratórias e correntes marítimas, o derretimento do gelo causado pelas mudanças climáticas, a presença de pesquisadores e o aumento do turismo justifica a relevância da detecção de possíveis ameaças à saúde humana no continente antártico. A cada ano, estima-se que cerca 5 mil pesquisadores passem pelo continente no verão e, para a temporada de 2019/2020, eram esperados 80 mil turistas na região.

“A Antártica parece intocado, mas quando você vê a movimentação dos países, a quantidade de estações, principalmente na área da ilha Rei George, não é tão isolada assim. E já tem realmente uma atividade crescente de turismo na região, o que é bastante preocupante”, observa o coordenador do projeto Wim Degrave, que como muito cientistas teme que a atividade saia do controle. 

O continente é gerido pelo Tratado Antártico, que garante a não militarização, a liberdade de pesquisa científica, a proteção do meio ambiente e o congelamento de qualquer reivindicação territorial por países. O Brasil aderiu ao Tratado em 1975 e é um dos 29 membros com poder de voto em seu Conselho Consultivo. Desde 1982, o país desenvolve atividades científicas na Antártica, um requisito para os signatários do documento. Complementar a esse tratado, um protocolo de proteção ambiental foi assinado em 1991 em Madrid, que deu a Antártica o estatuto de” Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz". O protocolo proíbe a mineração e a exploração de petróleo no continente e ainda prevê a proteção da flora e da fauna e o controle do turismo.

Vigilância em saúde

A proposta de levar a expertise da Fiocruz para a Antártica reúne uma equipe multidisciplinar de dez laboratórios da instituição e busca munir o Sistema Único de Saúde (SUS) com informações que podem auxiliar em uma vigilância sanitária de ponta. “Estima-se que cerca de 60% das doenças que atingem o ser humano têm origem em animais”, afirma Fernando do Couto Motta.

Além disso, os microrganismos identificados na Antártica podem ter potencial biotecnológico. Por estarem há muito tempo isolados em um ambiente extremos, esses organismos – chamados de extremófilos - desenvolveram características próprias que podem ser utilizadas para a produção de insumos para a saúde.

Outra preocupação dos cientistas são os possíveis efeitos das mudanças climáticas. “As mudanças climáticas têm um impacto muito grande. Com o degelo do permafrost, temos novos lagos e ecossistemas se formando. Alguns microrganismos que estavam congelados podem ser descongelados e isso pode ser um risco. Já vimos isto acontecer no Ártico, com o Bacillus anthracis. Além disso, outra questão importante é como estes microrganismos estão reagindo à exposição aos raios UV.”, conta Wim.

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