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Revista 'Cadernos de Saúde Pública' de junho está online


12/06/2020

Fonte: Ensp/Fiocruz

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O Cadernos de Saúde Pública de junho relembra a vida do cientista francês Louis Pasteur, cujas experiências deram fundamento à teoria microbiológica da doença, ou “teoria dos germes”, que levou a medidas preventivas muito bem-sucedidas, desde o lavar as mãos até a vacinação. As editoras Marilia Sá Carvalho, Luciana Dias de Lima e Cláudia Medina Coeli destacam, no editorial da revista, a relação saúde pública, ciência e arte. “Precisamos de arte. Que nos faça ver com alegria nosso dia a dia. E que nos anime a enfrentar o descrédito da ciência e de cientistas.”

O editorial refere-se ao filme The Story of Louis Pasteur (Warner Bros., 1936). Para as editoras, alguns pontos trazem o filme para os dias atuais, em especial a enorme resistência às novas recomendações por parte da comunidade médica. “Como exemplos, podemos citar a recusa de conselhos de medicina em aceitar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto à conduta na assistência ao parto, ou o apoio à liberação do uso de anorexígenos apesar de evidências contrárias, apontando os efeitos adversos do uso. Esse último exemplo, possivelmente, influenciado pelo lobby da indústria farmacêutica.”

No editorial, elas consideram que a rejeição das evidências científicas é construída a cada dia. “São os falsos especialistas, as teorias da conspiração, a citação de exemplos selecionados a dedo para “demonstrar” que os cientistas não merecem a confiança da população. A negação das mudanças climáticas é um exemplo paradigmático da negação da ciência. Destaca-se que um dos elementos da construção da ignorância científica, objeto de estudo da agnotologia, é a produção da desconfiança relacionada aos cientistas.” E acrescentam: “cientistas são acusados de manipularem dados e esconderem evidências por interesses escusos, inclusive financeiros. As origens desse comportamento vêm sendo exaustivamente debatidas, indicando a importância da atuação dos cientistas no combate à ignorância científica por meio de uma maior aproximação com o público e comunicação com a sociedade.”

Mas por que a admiração por Pasteur (1822-1895), presente no filme e tão bem relatada no artigo Uma manhã com Louis Pasteur: uma breve história das “mãos limpas”, de Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro e Marli Maria Lima? Como cientistas da área da Saúde Coletiva, dizem as editoras, envolve-se em grandes batalhas em prol da saúde das populações. Entre outros, o papel na defesa do direito à saúde é função social dos cientistas. “O pensamento científico, em todas essas questões (e muitas mais), ameaça interesses econômicos bem estabelecidos.”

De acordo com o editorial, o elogio a Pasteur, como cientista dedicado e incansável, que supera crenças arraigadas, hostilidade das sociedades de medicina, um verdadeiro herói. Mas, os cientistas no Século XXI sabem que a ciência não é fruto do trabalho isolado de gênios, mas uma construção coletiva do conhecimento. Precisamos de heróis? Para as editoras, a resposta é não. “Precisamos de ARTE. Que nos anime a enfrentar o descrédito da ciência e de cientistas. São dezenas de recomendações para cientistas se tornarem ativos na divulgação científica. A arte é um caminho essencial. Que venham mais filmes, peças de teatro, livros, poemas, pinturas, cartoons, charges, memes.”

O artigo Uma manhã com Louis Pasteur: uma breve história das “mãos limpas examina a história de Louis Pasteur do ponto de vista de um filme clássico que foi projetado durante os Seminários Semanais do Instituto Oswaldo Cruz no final das atividades de 2017. Embora bastante antigo, o filme The Story of Louis Pasteur (Warner Bros., 1936) inspirou os espectadores e deu lugar a um debate animado que levou os autores a decidir publicar os comentários da Coordenadora dos Seminários, do debatedor convidado e do público. O filme incorpora personagens reais e fictícios para comunicar ao público o legado de um dos maiores precursores da história da saúde pública. Também destaca os episódios reais da biografia de Pasteur e também os ficcionais, sem desmerecer o trabalho dos criadores cinematográficos.

O principal mérito do filme, um dos primeiros passos de uma política de divulgação científica, é de revelar a importância das vacinas e da higiene das mãos na prevenção das doenças infecciosas. Os autores argumentam que o cineasta retratou primorosamente a tenacidade do grande cientista na busca incansável por descobertas, além de sua ideia de que somente o trabalho persistente pode levar a resultados recompensadores, lembrando que o contexto criado por pesquisadores anteriores permitiu que Pasteur estabelecesse paradigmas novos.

Finalmente, os autores citam trechos do filme que ilustram realidades que persistem até os dias de hoje: a tendência da ciência de resistir, por inércia, aos paradigmas novos, exemplificada pela oposição da comunidade de ciência médica à proposição de práticas simples como a lavagem de mãos e a fervura de instrumentos; e a confiança excessiva, e até arrogância, de alguns especialistas, em vez da serenidade e da humildade que nascem da pesquisa dedicada e do conhecimento acumulado.

No Espaço Temático, o artigo Ocorrência simultânea de Covid-19 e dengue: o que os dados revelam?, de Márcio Dênis Medeiros Mascarenhas, Francisca Miriane de Araújo Batista, Malvina Thais Pacheco Rodrigues, Ocimar de Alencar Alves Barbosa e Veruska Cavalcanti Barros, trata das epidemias de dengue desde 1986, sazonalmente de março a junho. “A elevação no nível pluviométrico e as falhas nas ações de controle do mosquito vetor (Aedes aegypti) contribuem para o aumento de casos de dengue nesse período. Situação semelhante é observada com doenças respiratórias como a influenza, que apresenta surtos sazonais, principalmente no outono e no inverno.”

Segundo o artigo, a Covid-19, doença emergente causada pelo novo coronavírus denominado SARS-CoV-2, tem provocado impactos em todos os setores da sociedade, principalmente nos sistemas de saúde, devido à sua rápida disseminação por todos os continentes, sua capacidade de provocar mortes em populações vulneráveis, além do insuficiente conhecimento científico sobre o vírus, patogenia e tratamento. Em 14 de maio de 2020, o número de casos confirmados em nível global era de 4.307.287 com 295.101 mortes.

No Brasil, conforme o artigo, as condições precárias de habitação e saneamento caracterizadas por aglomeração e ausência de acesso constante à água tratada, os desfavoráveis indicadores socioeconômicos que refletem a qualidade de vida da maioria da população, juntamente com a alta prevalência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, que são fatores de risco para a Covid-19, ampliam os impactos e dificultam as estratégias de enfrentamento da doença, com a possibilidade iminente de colapso dos serviços de saúde em diversos estados.

O artigo segue observando que os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), que já apresentavam deficiências no atendimento para dengue e outras doenças, tiveram de se adaptar bruscamente para ampliar sua estrutura física, adquirir equipamentos e insumos, construir hospitais de campanhas, capacitar os profissionais e aumentar a capacidade de testagem para Covid-19. Porém, seu impacto no sistema público de saúde é perceptível pela elevada demanda por internação hospitalar, levando ao esgotamento da oferta de leitos de terapia intensiva e ventiladores pulmonares em algumas regiões do país.

O número de notificações de dengue no Brasil até a semana epidemiológica (SE) 17 de 2020 ultrapassava o número de casos observados na SE 7 de 2015 e na SE 11 de 2019. Entretanto, prossegue o artigo, a partir da SE 10 percebeu-se um declínio do número de notificações de dengue, coincidentemente no período em que as ações de saúde do país foram intensificadas para o combate da Covid-19, sugerindo uma possível subnotificação num período em que é esperado o aumento sazonal de casos de dengue no Brasil.

Em relação à incidência de casos de dengue no país, de acordo com o artigo, a Região Nordeste apresentava a segunda menor incidência da doença quando comparada com as demais regiões do país (82,5/100 mil habitantes) até a SE 17 de 2020. No Estado do Piauí, a incidência acumulada de dengue foi de 20,2/100 mil habitantes até a SE 17 de 2020, demonstrando redução de 74,5% em relação ao mesmo período de 2019. Observando a série histórica recente de dengue no estado, os autores dizem que percebe-se que a incidência da doença em 2020 estava próxima do padrão de ocorrência demonstrado pela média do coeficiente para os anos de 2016 a 2019. “No entanto, a partir da semana em que foram registrados os primeiros casos confirmados de Covid-19 no Piauí (SE 12), verificou-se o aumento exponencial de sua incidência simultaneamente à queda da incidência de dengue.”

Essa mudança abrupta no comportamento dos dados epidemiológicos da dengue reforça, segundo os autores, a hipótese de subnotificação dos casos no Piauí. “Observando apenas os coeficientes de incidência atualmente disponíveis, estima-se que o risco de Covid-19 (incidência de 12,6 casos/100 mil habitantes) na população piauiense seria 25 vezes maior que o risco de dengue (incidência de 0,5 casos/100 mil habitantes) na mesma população na SE 18.”

O artigo reforça a necessidade de sensibilização dos profissionais para a suspeição e notificação dos casos. Além disso, “apresenta-se o desafio de compreensão do desenvolvimento da epidemia “subdimensionada” de dengue simultaneamente à ocorrência de casos de Covid-19, em função dos sistemas de saúde mostrarem falhas assistenciais e certo desconhecimento a respeito dos efeitos da coinfecção em um mesmo indivíduo, o que pode resultar em sobrecarga ainda maior.”

Por ser concebida como acesso preferencial no atendimento de pessoas com suspeita de dengue e Covid-19, “a atenção primária à saúde é um componente fundamental do sistema de saúde, devendo ser fortalecida e estar preparada para o atendimento oportuno, manejo clínico adequado e referenciamento dos casos graves, bem como atenção integral às condições sensíveis neste nível de atendimento”, defendem os autores.

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