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27/06/2018

Preparatório Abrascão 2018: "é preciso criar uma nova utopia construtiva"


Por: Ricardo Valverde (Agência Fiocruz de Notícias)

Coordenador de Ações de Prospecção da Fiocruz, Carlos Gadelha aponta em entrevista a importância, para o desenvolvimento nacional, de eventos como o seminário Direito ao desenvolvimento, à saúde e à ciência, tecnologia e inovação, que será realizado nesta sexta-feira (29/6), das 9h às 17h, no campus de Manguinhos da Fundação. O evento marca os 118 anos da Fiocruz e os 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e é preparatório para o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Abrascão, que será realizado em julho, também na Fiocruz. Para Gadelha, é fundamental “propor estratégias para uma utopia construtiva que leve a um novo projeto de desenvolvimento, com a participação da sociedade. O desencanto não pode nos dominar”. Segundo o coordenador, a luta pela saúde, ciência e tecnologia não pode estar dissociada daquela pela democracia e os direitos humanos.

AFN: Qual a importância do evento para a SBPC, a Abrasco e a Fiocruz?

Carlos Gadelha: Há uma imensa importância simbólica. É um encontro que reúne a Fiocruz e SBPC comemorando, respectivamente, seus 118 e 70 anos, e a Abrasco. As propostas serão encaminhadas à Presidência da República e aos candidatos a presidente nas eleições deste ano. E essas três instituições que estão à frente do evento são as principais em suas áreas de atuação. As discussões serão todas focadas para o desenvolvimento, a inovação e a saúde, como parte de uma estratégia direcionada a promover a igualdade entre os povos. Existe uma assimetria entre os países que não pode se acentuar. O evento será aberto pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor-titular do Instituto de Economia da Unicamp e que é uma referência internacional em estudos sobre o desenvolvimento. Depois virão Reinaldo Guimarães, que abordará as relações entre a pesquisa em saúde e o campo da saúde coletiva, sublinhando o papel dessa última na formulação de uma política de pesquisa em saúde, e também Ligia Bahia e Luiz Eugênio, que são pesquisadores igualmente importantes para o pensamento e as relações entre saúde, desenvolvimento e igualdade. Vamos reafirmar a perspectiva política de que a CT&I e a saúde devem fazer parte de uma estratégia nacional que seja dinâmica, soberana e democrática e voltada para a inclusão social. Este debate e estas propostas são urgentes para o Brasil.

AFN: Entre as muitas propostas que serão debatidas, quais as mais relevantes?

Gadelha: Serão os grandes desafios nacionais. Pensar e elaborar um projeto diferenciado de país que reúna saúde, bem-estar social e econômico, combate às desigualdades e democracia. Precisamos reafirmar e apresentar a CT&I como uma das prioridades nacionais e esta construção coletiva, evidentemente, precisa estar a serviço do SUS. Também, sobretudo no que diz respeito à Fiocruz, é imperioso enfatizar a necessidade da inclusão democrática na região onde está sediada a Fundação. Saúde e direitos humanos, esta discussão tão contemporânea e fundamental no momento em que vemos tantas agressões aos direitos básicos das pessoas, é vital. A Fiocruz é uma instituição comprometida com a democracia e a cidadania. E muitas vezes o que vemos na área da segurança fere o estado democrático de direito. Portanto, as propostas juntarão as agendas econômica, social, da saúde e dos direitos humanos, o que mostra que o escopo do debate, muito por causa do momento que o país vive, cresceu, se diversificou e ampliou sua temática. O Brasil não pode retroceder e nem dar espaço à barbárie. E essa discussão aquece os motores para o Abrascão.

AFN: E a sua expectativa em relação ao Abrascão?

Gadelha: O Abrascão é uma marca forte e que significa bastante para todos os que pensam e atuam no setor da Saúde. Para a Fiocruz, que é uma instituição essencial para a formulação de políticas públicas pelo Estado, receber o Congresso da Abrasco, seus delegados, ideias e propostas, é um momento especial. Existe uma base produtiva de inovação e de bem-estar que precisa ser articulada, e o Abrascão terá uma participação relevante nesse processo. Estamos em um momento de crise e de ataque aos três pilares de um novo projeto de desenvolvimento, o da produção, o da inovação e o do bem-estar. Os modelos de desenvolvimento que vimos no passado precisam ser repensados, assim como a própria democracia e as formas de participação precisam têm que ser repensadas. Um projeto de desenvolvimento inclusivo para a sociedade se faz com esta sociedade. Não é uma elite intelectual trancada em um gabinete que vai fazer o projeto de desenvolvimento colado às demandas sociais. Diante disso, das demandas do Brasil de hoje, das lutas que precisamos enfrentar e da inclusão que temos que promover, o Abrascão vem à Fiocruz no momento certo. E como disse a presidente da Fiocruz, Nisia Trindade, o evento é para agregar.

AFN: Como tem atuado o seu setor, a Coordenação de Ações de Prospecção?

Gadelha: Prospecção é fundamental para a Fiocruz, que lida com inovação, ciência, saúde e tecnologia. Não se trata de “adivinhar” o futuro, mas pensar e viabilizar ações que levem a pesquisas que permitam reduzir a desigualdade não apenas dentro do país mas também no cenário internacional, no âmbito centro-periferia. São ações que buscam a inclusão em um mundo em que o conhecimento e a Revolução Industrial 4.0 determinam a vida das populações. Estamos diante de desafios como o Big Data, a hiperconectividade, a internet das coisas, a medicina personalizada e outros. Se ficarmos para trás aumentará o fosso entre os que podem e os que não podem. No tratamento do câncer, entre outros, ou damos ao SUS as condições de avançar e incorporar novas tecnologias ou a situação atual, em que alguns têm acesso e outros não, vai se ampliar. O SUS tem que estar a serviço da sociedade. E o Estado precisa recuperar seu papel regulador diante do mercado.

O país passa por um momento difícil. Mas não podemos desanimar. Temos que propor estratégias para uma utopia construtiva que leve a um novo projeto de desenvolvimento, com a participação da sociedade. O desencanto não pode nos dominar. E fazemos um chamado à comunidade científica para que venha conosco nessa construção coletiva.

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