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Pandemia pode mascarar casos de arboviroses, indica seminário

Pandemia pode mascarar arboviroses, diz seminário do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz)

27/09/2021

Cristina Azevedo (Agência Fiocruz de Notícias)

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Doenças muito conhecidas dos brasileiros, como dengue, zika e chikungunya, estão sofrendo um impacto direto da pandemia, seja com a transferência de recursos humanos e materiais para o combate à Covid-19, seja com possíveis subnotificações. Mas lições podem ser tiradas, como mostrou o 20º Seminário Avançado em Saúde Global e Diplomacia da Saúde, do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz), na última quinta-feira (23/9). E como o webinário Desafios e oportunidades para o controle das arboviroses em tempos de Covid-19 indicou, esse não é só um problema do Brasil ou da América Latina. 

Com a pandemia, muitos municípios tiveram que suspender as visitas casa a casa no combate aos vetores, enquanto outros viram os casos de dengue despencarem. “As arboviroses são afetadas por muitos fatores”, pontuou a mediadora Maria Glória Teixeira, professora de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia). Em relação às arboviroses urbanas, não basta se concentrar nas casas, pois “o mosquito vai atrás de alimento”, acrescentou. 

Os dois lados do isolamento

Embora essas doenças registrem picos a cada três ou cinco anos, outros motivos podem estar por trás da suposta queda de incidência. Se no Brasil em 2019 foram registrados cerca de dois milhões casos de dengue, em 2020 foram 1,3 milhão; enquanto a chikungunya caiu de 159 mil para 87 mil; e a zika, de 26 mil para 16 mil. “O Brasil é um país grande, populoso e com um grande sistema de vigilância. Mas vimos a vigilância das arboviroses caírem não só no Brasil, mas também em outros países, com os trabalhadores de saúde sendo deslocados para o combate à Covid”, observou Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis e Análise de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

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Principal autoridade sobre o assunto na região, Espinal disse que a pandemia expôs a fragilidade do sistema de saúde, interrompeu voos que transportavam suprimentos e atrasou programas sanitários. “Quarenta e seis por cento dos países interromperam serviços essenciais de saúde de forma leve ou moderada. A América Latina e Caribe foram as regiões mais afetadas, com índice 49%”, comentou. Um panorama que não atingiu apenas as arboviroses, mas também doenças como tuberculose e Aids.  

Por outro lado, a pandemia criou a oportunidade para estudar o impacto do distanciamento social sobre as arboviroses, assinalou Annelies Wilder-Smith, professora de Doenças Infecciosas Emergentes na London School of Hygiene and Tropical Medicine. Os casos de dengue, por exemplo, caíram em Cingapura, Peru e Equador, mas subiram em Taiwan, Butão e Sri Lanka. “Há uma dificuldade metodológica, porque o lockdown ocorreu em momentos diferentes, e nem sempre coincidiu com a sazonalidade da doença”, destacou. “Mas vimos que o fator mais forte para esse declínio foi o fechamento de escolas e a redução da mobilidade das pessoas”.

Novas estratégias e hot spots

Professor de Ciências Ambientais na Emory University, nos Estados Unidos, o argentino Gonzalo Vasquez Prokopec disse que as transmissões da doença nas casas poderiam mesmo aumentar com o lockdown. Citando uma pesquisa feita em Iquitos, Peru, lembrou que ela se dá não apenas na moradia (54% dos casos) como em espaços próximos (elevando o índice 66%). Diante da dificuldade de acesso ao interior das residências, e com o resultado limitado da ação dos fumacês, é preciso inovar, desenhar estratégias e envolver a comunidade. 

“No estado mexicano de Yucatán, vimos que 80% dos casos se concentravam em Mérida, e que lá 50% deles estavam em uma área correspondente a 30% do município. Usando essa informação, em colaboração com a Opas, geramos um novo paradigma para o combate: atuar nos hot spots de transmissão”, contou. “Com base em informações prévias, podemos melhorar a vigilância e prever áreas de maior risco”.

Os agentes podem orientar a população, por exemplo, onde aplicar inseticida (o Aedes aegypt fica em geral a até 1,5 metro do solo), usar inseticidas de rápida aplicação e longa duração. Telas em janelas e portas podem reduzir em mais de 60% os casos de zika. “A Covid não vai desaparecer. Precisamos incrementar recursos e estratégias, e envolver também a comunidade”, afirmou.

Drones contra criadouros

Envolver líderes comunitários foi uma das apostas de Belo Horizonte, contou Fabiano Pimenta, subsecretário de Promoção e Vigilância à Saúde da cidade. Com a pandemia, as pessoas passaram a ter receio de deixar os agentes entrarem em suas casas. Uma das saídas foi a doação de máscaras aos moradores. Os agentes passaram a trabalhar mais com as áreas no entorno das residências e evitaram o acesso às habitações de moradores de grupos de risco. Mesmo assim, em 2020 as visitas caíram um milhão em relação ao ano anterior. 

Drones foram usados para localizar possíveis criadouros de vetores e aspergir herbicidas onde os agentes não conseguem entrar. “O treinamento de pessoal é um caminho sem volta, é fundamental para o Brasil e a América Latina reduzirem as arboviroses”, diz.

O seminário teve ainda o pesquisador Sérgio Luz, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), como debatedor. Foi de Sérgio quem partiu a ideia do seminário, contou Paulo Buss, coordenador do Cris/Fiocruz.

Seminários e Cadernos

Os Seminários Avançados em Diplomacia da Saúde são um dos produtos do Cris/Fiocruz, e que faz parte de sua função de observatório. Além de assessorar a Presidência da Fiocruz em acordos internacionais, o Cris/Fiocruz publica também a cada 15 dias seus Cadernos de Informe sobre Saúde Global e Diplomacia da Saúde com análises sobre o tema, divididas por áreas geográficas. 

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