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O primeiro ‘mata-mosquitos’ do país


05/08/2022

IOC/Fiocruz

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Há 150 anos, na época do nascimento de Oswaldo Cruz, em 1872, a febre amarela era um dos principais desafios de saúde pública do Brasil. Uma situação que permaneceu até a campanha inovadora liderada pelo cientista já no começo do século 20.

Charges alusivas às ações do sanitarista no combate a febre amarela, varíola e peste bubônica (acervo: COC/Fiocruz)

 

No verão de 1873, o Rio de Janeiro registrou uma das maiores epidemias da sua história, com 3.659 mortes. Considerando a população de 270 mil pessoas, apurada no Censo Geral do Império, a febre amarela dizimou mais de 1% dos habitantes da então capital imperial.

Desde a primeira grande epidemia na cidade, em 1850, a doença era atribuída aos miasmas, impurezas que pairavam no ar, associadas às más condições sanitárias de acordo com os paradigmas em vigor na época.

“Não se sabia qual era natureza do veneno, mas havia consenso de que os pântanos, as águas paradas, os cortiços e as estalagens onde se aglomeravam pessoas eram fontes de emanações pestilentas que assolavam a cidade”, comenta o historiador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Jaime Benchimol.

Nos anos 1880, quando a ‘revolução pasteuriana’ começou a ganhar adeptos no país, médicos brasileiros buscaram identificar o possível germe da febre amarela, e alguns acreditaram ter conseguido. Em outras partes do mundo, diferentes bactérias também foram apontadas como causadoras da moléstia, medidas preventivas e tratamentos foram propostos, mas sem sucesso.

Em 1903, aos 30 anos, Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública do Brasil e apresentou um plano para erradicar a febre amarela do Rio de Janeiro. Em lugar de atacar as supostas bactérias que seriam causadoras do agravo, o cientista defendia mirar nos mosquitos, identificados como responsáveis pela transmissão da infecção.


Documento de nomeação de Oswaldo Cruz para o cargo de diretor geral de Saúde Pública, assinado por J. J. Seabra (acervo: COC/Fiocruz)
 
 

A ideia de que a doença era disseminada por insetos era vista com ceticismo. A teoria partia do médico cubano Juan Carlos Finlay e havia sido recentemente apoiada por uma comissão de médicos militares norte-americanos que estivera testes em Cuba.

“A maioria dos especialistas já não acreditava nos miasmas, mas se recusava a abandonar a ideia de que a doença era causada por uma das bactérias que tinham sido identificadas. Oswaldo Cruz travou uma guerra para implantar a estratégia de combate ao mosquito”, afirma Jaime.

As brigadas sanitárias de Oswaldo Cruz, chamadas de ‘mata-mosquitos’ pela população, foram recebidas com desconfiança tanto por especialistas, quanto pelo público. Escrita pelo médico Clementino Fraga, a biografia Vida e obra de Oswaldo Cruz apresenta diversos textos publicados na imprensa com duras críticas ao cientista e seu método de combate à doença.

"O que aqui está fazendo uma autoridade sanitária, obsedada por convicção pessoal que está longe de ter tido o assentimento geral, nunca se fêz em parte alguma do mundo. Por mais respeito que mereça o talento do Dr. Osvaldo Cruz, o govêrno não pode perfilhar de modo algum a sua obstinação sectária, da qual podem resultar no próximo verão as conseqüências mais calamitosas", dizia uma publicação.


Brigadas de mata-mosquitos da Diretoria Geral de Saúde Pública (acervo: COC/Fiocruz)
 
 

"O diretor de Higiene não é má pessoa e a população lhe deve ser grata, a idéia do mosquito é que é irrisória. Quando se quer amesquinhar alguém basta dizer: não vale um mosquito... Pinta-se a morte, em geral, como uma velha, de terrível catadura, armada de foice. Pintá-la como um mosquito seria cômico...”, ironizava outra.

Apesar das críticas, em 1904, o número de mortes pela doença caiu significativamente e, em 1907, considerou-se que a febre amarela não era mais epidêmica no Rio de Janeiro. No mesmo ano, a campanha contra a febre amarela foi um dos destaques da exposição brasileira no 16º Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em Berlim, onde o Brasil conquistou o primeiro lugar.

Atualmente, sabe-se que a febre amarela não é causada por uma bactéria, mas sim por um vírus, que foi isolado, pela primeira vez, em 1927. A vacinação é a principal forma de prevenir a infecção. Desde os anos 1940, o Brasil não registra casos de febre amarela urbana, mas a doença circula no ciclo silvestre e tem se espalhado para áreas cada vez mais amplas do país nas últimas décadas.

O IOC/Fiocruz permanece alerta e inovador no enfrentamento da febre amarela. A unidade abriga laboratórios de referência que atuam no diagnóstico e na vigilância entomológica da doença. Também mantém a Coleção de Febre Amarela, que reúne amostras coletadas entre as décadas 1930 e 1970, referentes a quase 500 mil casos do agravo.

Equipe de laboratório do IOC enfrentando mata fechada e íngreme para instalar armadilhas e capturar mosquitos Haemagogus e Sabethes, vetores da febre amarela, com o objetivo de entender os aspectos de transmissão do vírus em recente surto da doença no Rio de Janeiro (foto: Vinicius Ferreira)
 

 

Na pesquisa científica, o Instituto desenvolve estudos sobre o vírus e os vetores da infecção, unindo pesquisa de campo e análises em laboratório, com metodologias de ponta. Entre 2017 e 2019, quando o Brasil registrou uma epidemia de febre amarela silvestre de proporções inéditas, pesquisadores do IOC/Fiocruz conseguiram caracterizar o genoma do vírus, apontar as rotas de dispersão do patógeno, identificar os principais vetores na Mata Atlântica e traçar o raio de infecção dos casos, entre outros achados.

Combatido por Oswaldo Cruz, o Aedes aegypti não está associado aos casos recentes de febre amarela no país, que envolvem mosquitos silvestres. Porém, o inseto é vetor de arboviroses com grande impacto na saúde pública, como dengue, zika e chikungunya. O controle do mosquito permanece como a medida mais importante contra essas doenças e o IOC desenvolve diversas ações de educação em saúde e conscientização, além de pesquisas sobre o vetor.

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