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INI adapta atendimento a pacientes com tuberculose em tempos de Covid-19


03/05/2021

Por: Antonio Fuchs (INI/Fiocruz)*

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O Laboratório de Pesquisa Clínica em Micobacterioses do Instituo Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz) vem se adequando ao denominado 'novo normal' provocado pela pandemia de Covid-19. A equipe, coordenada pela pesquisadora Valeria Rolla, adaptou a agenda para oferecer o atendimento remoto para seus pacientes através de telefone, whatsapp ou redes sociais e adotou novas rotinas como o home office e reuniões virtuais para dar continuidade às pesquisas em andamento, por exemplo. “Conseguimos manter os serviços em funcionamento mesmo com todas as adversidades decorrentes do novo coronavírus. O atendimento e a testagem aos pacientes com a doença nunca deixaram de ocorrer. Em determinado momento tivemos que interromper apenas o atendimento dos contactantes, que são aquelas pessoas que convivem com um doente de TB, por entendermos que o risco não compensaria o benefício nesse tipo de estratégia que visava prevenir a ocorrência de tuberculose. Mas, aos poucos, fomos voltando a viver nessa realidade. Se o paciente tiver Covid-19, por exemplo, nós fazemos a consulta de forma remota, através do meio tecnológico possível, encaminhamos para testagem e acompanhamos o caso”, explicou Valeria.

A tuberculose é um grave problema de saúde pública no Brasil, com 4.500 mortes registadas em 2019, e de, aproximadamente, 1,4 milhão no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Em 2020 houve uma diminuição de 9,5% no registro de novos casos no país, mas para os especialistas isso pode ser consequência da diminuição dos diagnósticos realizados por conta do novo coronavírus. Valéria Rolla ressalta ser fundamental que as pessoas continuem seus tratamentos ou procurem realizar os testes para fechar diagnósticos, uma vez que a doença é insidiosa e, algumas vezes, os sintomas são inespecíficos. Muitos não procuram o atendimento médico por medo de contrair Covid-19 nas clínicas ou hospitais. “Nosso ambulatório recebe também pessoas com suspeita de tuberculose multirresistente (TBMR) e atualmente, devido à baixa testagem, estamos admitindo pouquíssimos casos, o que significa que eles continuam em disseminação pela sociedade”, saliento a pesquisadora.

No boletim epidemiológico 2021 do Ministério da Saúde sobre a doença é possível observar uma constante tendência de queda entre os anos de 2011 e 2016. Entretanto, o coeficiente de incidência de TB no país aumentou de 2017 a 2019. Em 2020, o Brasil teve 66.819 casos de tuberculose, com um coeficiente de incidência de 31,6 casos por 100 mil habitantes. Em 2019, foram diagnosticadas 73.864 casos da doença, sendo 35 casos por cada 100 mil habitantes. Os estados com maior incidência da doença no ano passado foram Amazonas (64,8 por 100 mil habitantes), Rio de Janeiro (60 casos por 100 mil habitantes) e Acre (52,9 por 100 mil habitantes). “Os números revelam uma piora nos indicadores, tais como aumento do abandono de tratamento e queda das notificações em nível nacional decorrentes, principalmente, da redução da testagem de pacientes para novos casos em função do Covid-19”, concluiu a pesquisadora.

Tratamento e prevenção

A médica infectologista explicou que no atual momento o risco de que o paciente de TB venha a ser infectado pela Covid-19 é extremamente preocupante. Muitos casos de pacientes internados no Centro Hospitalar para a Pandemia de Covid-19 do INI são de pessoas com TB ou TBMR associadas ao novo coronavírus, com quadros de lesões pulmonares muito graves, o que dificulta ainda mais o tratamento. “No caso de pessoas que já saíram da fase intensiva de tratamento para TB, ao final de dois meses, essa concomitância parece menos mortal. Mas tudo depende se elas padecem de diabetes, hipertensão, doença cardíaca ou alguma outra comorbidade”, ponderou.

Ainda sobre tratamento, Valeria Rolla informou que realizá-lo de forma irregular é mais prejudicial do que parar com ele. “A interrupção leva à falha e, às vezes, ao acúmulo de novas resistências aos medicamentos usados, caso o tratamento tenha sido feito de forma irregular. É até pior fazer o tratamento irregular do que parar todos os medicamentos de uma vez. O tratamento da TB é longo. Leva cerca de seis meses de forma geral e precisamos evoluir e usar fármacos mais potentes para podermos tratar por um período mais curto, aumentando assim a chance se sucesso na cura”, afirmou.

No caso da tuberculose multirresistente, a pesquisadora informou que alguns pacientes atendidos pelo INI foram perdidos durante a pandemia de Covid-19. O tratamento dura de 18 a 24 meses e os medicamentos usados ainda são antigos, pouco eficazes e incluem a amicacina, uma injeção, e por isso muitas pessoas não querem se tratar. “Somente 50% das pessoas são curadas com esses tratamentos. Podemos dizer que, nesse aspecto, o Brasil ainda aguarda a Bedaquilina e a Delamanida, que são fármacos novos. Outros países de alta carga de TBMR, como a África do Sul, já os utilizam para substituir o medicamento injetável. Essa mudança pode reduzir o tempo total de tratamento e melhorar a aderência, mas ainda não conseguimos implementar isso no SUS. Aguardamos que o Ministério da Saúde possa efetuar a compra e a importação desses medicamentos, porque já foram incorporados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O Brasil está para trás nesse momento”, afirmou.

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