Serviços 
O conteúdo desse portal pode ser acessível em Libras usando o VLibras
Início do conteúdo

07/02/2019

Fiocruz investe em campanha pelo reconhecimento das diferenças


Por: Erika Farias (CCS/Fiocruz)


O ano é 2018. O ser humano já viajou ao espaço, já pode se comunicar com qualquer lugar do mundo em tempo real, fabrica robôs, produz vacinas, desvendou o genoma humano, erradicou doenças. Fez o inimaginável, aprendeu o incompreensível. O ano é 2018. O homem voou alto, mas ainda precisa pôr em prática um dos mais básicos princípios da humanidade: o respeito à diversidade. 

A ideia de igualdade universal é muito recente: a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada pela Organização das Nações Unidas em 1948. Para reforçar esse conceito, a Fiocruz, por meio do comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fundação, com colaboração da Coordenação de Comunicação Social da Presidência da Fiocruz (CCS), iniciou, no final do ano passado, a campanha Respeito à diversidade. A proposta é alertar sobre a importância de se reconhecer e respeitar a diversidade, seja ela de gênero, raça ou religião, e promover a acessibilidade e a inclusão de pessoas com deficiência. 

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, lembra que tais valores fazem parte da Tese 11, aprovada no último Congresso Interno da Fundação. “A Fiocruz reforça seu compromisso institucional com a defesa da inclusão dos grupos mais vulneráveis socialmente, a redução das desigualdades, o respeito à diversidade e contra a violência”, afirma.

Para Andréa da Luz, coordenadora-geral de Gestão de Pessoas da Fundação e uma das coordenadoras do Comitê Pró-Equidade, é um momento de combate a qualquer forma de preconceito. “Estas ações serão constantes, porque temos lidado com denúncias internas e temos um compromisso de reforçar cada vez mais nossos valores institucionais, mostrando que a Fiocruz não só é intolerante a qualquer forma de violência e preconceito, mas está organizada para acolher e tratar as reclamações”, explica.

Cores do Brasil

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da população brasileira (54%) é de pretos ou pardos. Apesar de serem maioria, negros vivem uma realidade distinta, resultado de três séculos de escravidão, seguidos pela falta de políticas públicas pós-abolição que os inserissem na sociedade e no mercado de trabalho. Um cenário que serviu de base para o racismo estrutural existente no Brasil. 

O preconceito enraizado na cultura do brasileiro não é sutil. “Lembro que eu era pequena, estava andando na rua com a minha mãe e passei perto de uma senhora branca. Ela imediatamente abraçou a própria bolsa e ficou protegendo-a, me olhando. Apesar de ser criança, entendi ali o que tinha acontecido e fiquei me perguntando ‘o que ela acha que eu poderia ter feito contra ela?’”, relata Mychelle Alves, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc-SN).

Perspectiva sócio-histórica

“As pessoas pensam que essas discussões são novas, mas na verdade existem desde sempre”, explica Roseli Rocha, assistente social do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e outra coordenadora do Comitê. “Este mito de democracia racial fez com que a desigualdade não fosse discutida e que o racismo não fosse tratado como um problema de injustiça social”, afirma. “Sabemos que não existe ‘diferença de raças’, no sentido biológico da palavra. Mas não podemos ignorar essa definição, porque o racismo deriva dela. Se não falarmos de raça, ignoramos a existência do racismo”, completa.

Sem acesso à terra, sem qualquer tipo de indenização pelos trabalhos forçados e geralmente analfabeta, a “população negra livre” do Brasil pós Lei Áurea, em 1888, precisou sobreviver com subempregos por décadas. A primeira escola pública no Brasil surgiu apenas na década de 1930. Apesar dos avanços, somente 12,8% dos estudantes de ensino superior são negros. 

Recentemente, a Fiocruz fez os primeiros concursos públicos com cotas para negros. “As cotas são uma reparação. Não acho que elas devem existir para sempre, mas o ciclo básico do ensino público precisa ter qualidade, para que haja igualdade de oportunidades”, afirma a vice-presidente da Asfoc-SN. Mychelle entrou para o serviço público na Fiocruz em vaga de ampla concorrência, mas chegou a ouvir de um colega: ‘ainda bem que você não entrou por cota’. “Há muito preconceito ainda, mesmo aqui dentro”, complementa.

Violência

Dados do Atlas da Violência 2018 mostram que 71,5% dos brasileiros assassinados em 2016 eram pretos ou pardos. As maiores taxas de homicídios de negros estão em Sergipe (79 por 100 mil habitantes) e no Rio Grande do Norte (70,5 habitantes por 100 mil). Entre 2006 e 2016, enquanto a taxa de homicídios de negros aumentou 23,1%, a de não negros diminuiu 6,8%. Outro ponto crucial se refere ao feminicídio - assassinato de mulheres por sua condição de gênero. Os números também são alarmantes entre a população preta. As estatísticas são do Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais: entre 2003 e 2013, o percentual de mulheres negras assassinadas cresceu 54%. Já o de mulheres brancas, caiu 10% no mesmo período. 

O medo tem razão de ser e é também uma das principais preocupações de familiares de jovens negros, como conta Mychelle. “Meu afilhado estava indo para a minha casa, mas esqueceu a identidade. No meio do caminho percebeu e voltou em casa para buscar. Quando chegou, me explicou com naturalidade ‘Sabe como é, né, tia? Jovem preto não pode ficar sem documento, senão os policiais já acham que é bandido’”.

E quanto mais características fenotípicas de uma pessoa negra, ou seja, mais características físicas, menos oportunidades a pessoa tem de exercer sua cidadania e acessar espaços de poder. “Dia desses fui visitar uma amiga, branca, e na hora de ir embora, ela me levou até o táxi. No meio do caminho o motorista perguntou se eu pagaria no cartão de crédito da minha patroa. Fiquei sem fala. Decidi que foi a última vez que perdi a voz por racismo. Não vão mais me calar”, declara.

De braços abertos, mas nem tanto

O Brasil é o país que mais mata Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) no mundo. A cada 19 horas, uma pessoa é vítima de homofobia. E vale lembrar: a Constituição de 1988 não garante direitos aos homossexuais. “Ainda há uma confusão das pessoas quando dizem ‘ah, mas também morrem heterossexuais’. Sim, mas eles não morrem por isso. Os LGBTs estão morrendo por serem quem são, pelo ódio e pela intolerância dos outros”, afirma R.V., de 33 anos, trabalhador de Fiocruz que preferiu não se identificar.

O preconceito não é de hoje. Ao longo da história, já contou com “embasamento científico”. A homossexualidade foi considerada patologia até a década de 1970, e doença mental – listada internacionalmente até 1990. Já a transexualidade foi considerada doença mental até junho deste ano, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) reverteu o conceito. Esta concepção inadequada, somada ao desconhecimento, tem o preconceito como consequência. E, como já se sabe, o preconceito é o berço da intolerância.

Apesar de não haver uma estatística oficial dos números da violência motivados por LGBTfobia, causando uma subnotificação destes casos, um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB) mostra que nos anos 2000 foram notificados 130 homicídios deste tipo. Já em 2017, o Brasil registrou 445 homicídios. “Eu e meu namorado não fazemos demonstrações públicas de amor. Temos medo de como vão reagir e muito medo da violência”, conta Flavio Marques, líder de setor no Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB).

O termo orientação sexual é utilizado justamente por não ser uma opção do indivíduo. “O LGBT nasceu assim e, apesar disso, todos os dias precisa passar por situações constrangedoras de preconceito - seja num olhar para um casal homoafetivo, que às vezes dói mais do que palavras, seja nas piadinhas pejorativas no trabalho ou nos comentários da família, que teoricamente são aqueles que mais deveriam nos aceitar”, relata R.V. Flavio Marques teve experiência diferente. “Minha mãe não aceitou desde o começo. Ela faleceu há dois anos, sem aceitar. Mas tenho uma filha de, 24 anos, que não só aceitou super bem, como me dá o maior apoio. Inclusive, o namorado dela me chama de sogrão”, conta.

A educação sexual é apontada por especialistas como uma das principais formas de diminuir os crimes de ódio. Ensinar crianças e adolescentes a reconhecer e respeitar a diversidade reduz a prática de bullying e resulta, a longo prazo, em adultos conscientes e empáticos às diferenças. “Eu gostaria que as pessoas percebessem que somos normais. Nosso caráter não muda por sermos gays ou lésbicas”, alerta Flavio. “A gente não precisa que aceitem ou entendam nossa orientação sexual. A gente precisa de respeito”, finaliza R.V.

Continue a leitura da reportagem no Jornal Linha Direta

Mais em outros sítios da Fiocruz

Voltar ao topoVoltar