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Expedições científicas


25/04/2005

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FIOCRUZ, 105 ANOS

As expedições científicas

Em 1905, Oswaldo Cruz fez sua primeira viagem ao Norte, onde inspecionou 23 portos. A partir daí, a equipe de Manguinhos começou a desbravar o interior do país com o objetivo de estudar e debelar moléstias que dificultavam a expansão do capitalismo brasileiro.

Em 1906, Carlos Chagas esteve em Itatinga, no interior de São Paulo. Lá, a Companhia Docas de Santos construía uma hidrelétrica e a malária atingia os operários. Ele, então, realizou a primeira campanha bem-sucedida do Brasil contra a malária. No ano seguinte, junto com Arthur Neiva, Chagas foi chamado para fazer a profilaxia da doença em Xerém, na Baixada Fluminense, onde a Inspetoria Geral de Obras Públicas construía um aqueduto. Meses depois, Chagas, agora com Belisário Penna, seguiu para Minas Gerais, porque a malária dificultava o prolongamento dos trilhos da Central do Brasil. Os dois montaram um laboratório em Lassance, onde Chagas descobriria a tripanossomíase americana, em 1909.

No ano seguinte à descoberta da doença de Chagas, Cruz e Penna foram à Amazônia a convite da empresa norte-americana que construía a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Esta tinha a fama de consumir a vida de um operário para cada dormente assentado na selva. A culpa era principalmente da malária, que derrubava os trabalhadores e exigia o recrutamento constante de mais homens. Para a construção dos primeiros 90 Km da ferrovia, foi necessário um total de 8 mil operários, entre imigrantes e nordestinos atraídos pela ascensão dos seringais.

A malária atingia de 80% a 90% da população local, segundo os cálculos de Cruz e Penna. Para piorar a situação, o combate à doença requeria doses tão altas de medicamento que ele podia ser tóxico. Livrar a região do mosquito transmissor da malária demandaria tantas obras de saneamento que o custo poderia ser superior ao da construção da ferrovia. Então, a única solução viável parecia ser o uso do remédio e o recolhimento obrigatório dos operários em locais protegidos dos mosquitos desde o pôr-do-sol.

Essa campanha contra a malária não deu certo. Mas a construção da Madeira-Mamoré continuou, assim como as mortes de milhares de operários. O último trecho da ferrovia foi inaugurado em 1912, mas ela já não parecia tão útil, porque a borracha estava em crise. O governo, em uma tentativa de salvar o produto, criou a Superintendência da Defesa da Borracha. Esta entrou em contato com Cruz porque julgava que um estudo das condições de salubridade da Amazônia era fundamental a seus propósitos.

Então, entre outubro de 1912 e março de 1913, Chagas, do IOC, Pacheco Leão, da Escola de Medicina do Rio de Janeiro, e João Pedro de Albuquerque, da DGSP, percorreram os rios que atravessavam os seringais. “Incontestavelmente é no rio Negro que se encontra a condição mais primitiva de trabalho e a condição mais precária de vida humana”, escreveram no relatório da viagem. Com uma postura etnocêntrica, os cientistas consideravam os índios “primitivos e inferiores”. E criticavam os brancos que, em vez de civilizarem e integrarem os gentios, os escravizavam. Ao longo de todo o percurso, pouquíssimos vilarejos tinham atividade agrícola desenvolvida ou contavam com um serviço médico. Mas os casos de malária estavam por toda a parte.

Nas expedições do IOC realizadas entre 1911 e 1913, o objetivo central era a investigação científica, e não a intervenção médico-sanitária de curto prazo. Há mais de 900 registros fotográficos dessas expedições, que foram pioneiras ao revelar hábitos e mentalidades das populações e ao destacar o estado de abandono, miséria e insalubridade em que viviam os brasileiros longe da capital da República.

Em 1911, Astrogildo Machado e Antônio Martins estiveram no vale do rio Tocantins, onde havia obras de ampliação da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lá reuniram uma coleção de insetos hematófagos e de parasitas encontrados em pássaros e macacos. Também registraram casos de doença de Chagas e de bócio endêmico. Mas as impressões de Machado e Martins sobre as condições de saúde da população foram bem menos nefastas que as de Penna e Neiva, que passaram pelo mesmo local entre março e outubro de 1912.

Na mais demorada e extensa expedição científica do IOC, que cruzou Bahia, Piauí e Goiás, Penna e Neiva fizeram muitas observações de caráter antropológico e sociológico. Constataram que as populações interioranas não tinham noção de que seus vilarejos eram parte integrante de algo maior, o Brasil. Não havia consciência de pertencer à nação.

Em Juazeiro, cidade então com 6 mil habitantes, os cientistas encontraram três médicos, um hospital com 12 leitos e muitos, muitos casos de malária. Ao longo de todo o percurso da expedição quase não havia assistência médica tradicional, mas não faltavam práticas curandeiras. Pessoas mordidas por cachorros raivosos recebiam uma mistura de alho, sal e urina, e a chave do sacrário da igreja era introduzida na boca do paciente.

No caminho para Paranaguá, Penna e Neiva sofreram na pele os tormentos da seca. A dieta da população não incluía verduras, legumes nem frutas. A economia da região consistia basicamente na criação de gado, mas a cada ano mais da metade dos bezerros morria devido ao carbúnculo sintomático – os criadores e as autoridades locais não sabiam, mas o IOC produzia a vacina contra a doença há mais de cinco anos! Também se praticava à extração do látex da maniçoba com mão-de-obra quase escrava, de modo semelhante ao que ocorria nos seringais da Amazônia. Os trabalhadores adquiriam com o patrão alimentos, remédios e outros produtos por preços muito altos. Contraíam dívidas enormes e trabalhavam para pagá-las. Ficavam, então, presos ao emprego, porque as dívidas só aumentavam e jamais poderiam ser totalmente saldadas.

Durante toda a viagem, Penna e Neiva identificaram, além de alto índice de mortalidade infantil, elevada incidência de asma, doenças dos olhos, tuberculose, difteria, varíola e sífilis. Já em Goiás, na cidade de Porto Nacional, chamou a atenção o grande número de habitantes vítimas da doença de Chagas.

Os registros de Penna e Neiva foram entregues à Inspetoria das Obras contra a Seca, que patrocinou outras duas expedições científicas do IOC em 1912. De março a julho, Albuquerque e José Gomes de Faria atravessaram o Ceará e o Piauí, mas nenhum relatório da viagem foi publicado. Já Lutz e Machado estiveram no vale do rio São Francisco entre abril e julho. Concluíram que a principal causa das doenças na região não era a hostilidade do meio ambiente, e sim a pobreza e o atraso. Mais tarde, a partir de meados dos anos 1930, Leônidas Deane também percorreria o Brasil, especialmente a Amazônia, realizando campanhas contra a malária e fazendo estudos inéditos sobre outras endemias rurais.

As expedições científicas do IOC ajudaram Monteiro Lobato a repensar seu personagem Jeca Tatu, que passou de caipira preguiçoso a vítima das mazelas do interior. Também contribuíram para fundamentar um movimento em prol da modernização dos serviços sanitários não só na capital da República, mas em todo o país.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias

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