Serviços 
O conteúdo desse portal pode ser acessível em Libras usando o VLibras

Fiocruz

Fundação Oswaldo Cruz uma instituição a serviço da vida

Início do conteúdo

Encontro reúne comunidade, representantes SasiSUS local e parceiros para apresentar devolutiva do Projeto Medicina Sagrada do Povo Xukuru


06/10/2022

VPAAPS/Fiocruz

Compartilhar:

A comunidade indígena, lideranças religiosas e políticas do povo Xukuru do Ororubá, equipe de saúde do território, representante do Distrito Sanitário Especial Indígena de Pernambuco (DSEI) e parceiros, se reuniram, nos dias 22 e 23 de setembro de 2022, para realizar a devolutiva do I Projeto Medicina Sagrada do Povo Xukuru (2021-2022) e planejar coletivamente o curso sobre Plantas Medicinais do II Projeto da Medicina Sagrada, Intermedicalidade e Atenção Diferenciada (2022-2023). O encontro aconteceu na Casa das Sementes Mãe Zenilda, no Centro de Agricultura Xukuru do Ororubá (CAXO), localizada na aldeia Couro Dantas, em Pernambuco.

Os projetos são frutos do edital do Programa Inova, chamada realizada pela Presidência da Fiocruz, por meio das Vice-Presidências de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), e de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS), que visa o aprimoramento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS). 

O primeiro projeto teve por objetivo identificar sábios e sábias e suas práticas de cura/cuidado, que resultou na elaboração de uma “colmeia” com breve história de vida de cada sábio(a) e de material pedagógico com as principais plantas citadas. O segundo, buscou aprofundar saberes e práticas já identificadas para planejar e ofertar um curso voltado para comunidade e agentes de saúde do SasiSUS Xukuru, tendo como eixos as políticas de saúde, a intermedicalidade e a atenção diferenciada. 

Participantes do encontro na Casa de Sementes Mãe Zenilda, localizada no CAXO.

O encontro contou com a participação de Dona Zenilda, liderança política-espiritual, que possui uma importante trajetória de vida marcada pela luta de retomada e demarcação do território. Seu companheiro, o cacique Xicão, foi assassinado pelos posseiros. Dona Zenilda conta que o corpo do marido, considerado como semente de guerreiro, foi entregue por ela à Mãe Terra para gerar novos frutos. Desta semente deitada em solo sagrado segue o filho, cacique Marcos, que cuida junto com a mãe do povo Xukuru. A participação de Dona Zenilda foi fundamental para a construção de uma proposta de curso que espelhe a alma deste povo e seu espírito guerreiro. 

Durante o encontro, Dona Zenilda entoou uma canção para o seu povo que fala de força e coragem: “São Jorge me disse que eu não tenha medo, eu sou índia, sou guerreira, porque é que eu vou ter medo…”. Na canção ela também ressalta a parceria com os profissionais de saúde, as conquistas e os desafios a serem realizados: “(...) há profissionais de saúde que trabalham conosco (que) não são indígenas, mas eles têm que se habituar com nosso jeito de ser. (...) Aqui nós estamos construindo uma coisa nossa com ajuda deles que vieram de fora”. 

Dona Zenilda durante as atividades realizadas no Casa de Sementes.

Junto com Dona Zenilda, Ângela Neves Pereira, liderança religiosa reconhecida como Bela e demais mestres presentes, realizaram uma pajelança de boas-vindas, trazendo seus saberes sobre a sacralidade das plantas medicinais e das espécies utilizadas nas curas via garrafadas, benzeções, defumações, pomadas e em óleos vegetais. Também participaram parteiras, rezadeiras e benzedeiras de diversas aldeias, que por meio das orientações dos encantados cuidam da saúde do povo Xukuru.

      

Bela em frente à exposição da “colmeia dos sábios e sábias” como parte da devolutiva do primeiro projeto

Mandala de boas-vindas e abertura do encontro.

Iran Xukuru, agrônomo do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e coordenador do projeto no território, participou do encontro e destacou a importância da cosmovisão indígena sobre processos de saúde-doença e, sobretudo, nos cuidados com o ambiente como parte indispensável para a promoção de saúde. Ressaltou não somente as matas, espaço de força e poder espiritual; também os lajedos e as águas como parte do sagrado da Mãe Natureza, considerados espaços da cosmonucleação. 

Discutiram ainda propostas de manejo para que espécies medicinais, como o mulungu, que se tornou raro no território, possam ser comumente encontradas nas matas quando necessário. Segundo Iran Xucuru, esta seria uma missão de todo povo Xukuru nos cuidados. “Aqui falaram em partilha, em comunidade, em envolvimento, compartilhar, conservar... isso é saúde”.

Iran Xukuru, coordenador local do projeto, explica a necessidade da partilha e do cuidado com as pessoas e com o território.

O encontro contou com a presença da representante do DSEI-PE, Valda Inês de Assis Santana, chefe do Serviço de Edificações e Saneamento Ambiental Indígena (SESANI), que destacou a importância do fortalecimento das ações educativas e das articulações futuras a serem desenvolvidas a partir do curso de plantas medicinais.

Foram levantados problemas de saúde no território e da Atenção Básica indígena no Território Indígena (TI) Xukuru do Ororubá, além de debater estratégias para fomentar a integração dos cuidados de saúde, considerando a importância da medicina do sagrado, que cuida do corpo e da alma Xukuru. 

Durante os dois dias de vivência, foram identificados os eixos centrais do curso (Eixo 1: Saúde Indígena Xukuru – Políticas e Práticas de Cuidados; Eixo 2: Plantas Medicinais, Fitoterápicos e remédios; Eixo 3: Intermedicalidade e Atenção Diferenciada); os temas geradores e, parte da metodologia, que terá parte presencial e remota. Outro momento importante foi a devolutiva do material produzido, em especial a colmeia dos sábios e sábias, inspirada no ponto que diz que os sábios(as) são como abelhas, trabalham e ninguém vê.

No centro está a Dona Socorro, uma das sábias do território, ladeada por Mônica Dias e Paulo Leda.

Os coordenadores do projeto, o farmacêutico e etnobotânico, Paulo Leda, e a antropóloga Mônica Dias, apresentaram uma prévia das inscrições, relatando o perfil dos inscritos, motivações e saberes pré-existentes do uso das plantas medicinais. A pré-inscrição alcançou 80% do total de profissionais das três equipes que atuam no TI Xukuru. Os participantes propuseram a participação dos mestres e mestras do saber e de jovens indicados por eles para promover a transmissão e ampliação do conhecimento tradicional. Israel Cavalcante Soares, enfermeiro e coordenador do pólo base, também corroborou com seus conhecimentos, reforçando a necessidade de um curso que aborde o tema plantas medicinais para as equipes de saúde do território.

Apresentação do perfil dos pré-inscritos no curso das equipes do SasiSUS Xukuru.

O planejamento coletivo, que reforçou a importância da Educação Popular na Saúde e do protagonismo indígena, teve o apoio da pesquisadora e educadora da Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Grasiele Nespoli. 

Durante o encontro, a representante da Vice-Presidência de Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), Sandra Magalhães Fraga, destacou este envolvimento como significante para as mudanças necessárias ao subsistema em sua territorialidade. Também ressaltou a presença de Dona Zenilda e demais sábios e sábias do território, que junto aos agentes de saúde (AISAN e AIS), enfermeiras, nutricionistas e demais representantes do corpo técnico do pólo de saúde demonstraram a força da integração nos cuidados. “A saúde para o povo Xukuru está na relação com o ambiente, com o território, com a Mãe Natureza”. 

Importante ressaltar que a equipe do projeto conta com a participação de cinco indígenas Xukurus: Bela, Raianire, Giselda, Edgar (professor da rede de ensino) e Inaldo (AISAN, Pólo São José). A equipe também dispõe da farmacêutica e mestranda, Itana Suzart Scher (EPSJV/Fiocruz); e conta com a coordenação pedagógica de Mônica Dias e a coordenação-geral de Paulo Leda e Iran Xukuru. 

O Projeto Medicina Sagrada, Intermedicalidade e Atenção Diferenciada tem ações articuladas com o Projeto “Memorial de Medicina Tradicional Lica Xukuru: Valorização dos Saberes e Práticas em Saúde Indígena”, coordenado pelos professores René Duarte Martins e Rafael Matos Ximenes, ambos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com a pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, Islândia Maria Carvalho de Sousa.

Voltar ao topoVoltar