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Doenças negligenciadas e os desafios da conquista de espaço na imprensa


28/07/2018

Por Daniela Lessa (Portal Fiocruz)

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Doenças negligenciadas afetam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo e apenas 4% dos medicamentos desenvolvidos entre 2000 e 2011 pela indústria farmacêutica internacional foi dedicado a essas doenças. A estatística foi apresentada pela coordenadora de comunicação da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi – América Latina), Marcela Victoria Dobarro, durante a mesa-redonda 'Comunicação, determinação social, invisibilidade e negligenciamento em saúde – o que a Comunicação tem a ver com isso?,  realizada no dia 27 de julho, durante o 12° Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Abrascão 2018.

Coordenada pela pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz (Icict/Fiocruz) Inesita Soares de Araújo, a mesa abordou os desafios de entidades dedicadas ao tema das doenças negligenciadas para alcançar visibilidade na imprensa e analisou algumas razões dessas dificuldades. Além de Marcela Dobarro, a mesa reuniu as coordenadoras de comunicação Raquel Boechat, do Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas; e Raquel Aguiar, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Para Marcela, a DNDi encontra dificuldades para chegar ao grande público tanto pela temática da entidade, que é fundamentalmente científica, quanto pela disputa por espaços na mídia com outras entidades. As estratégias de divulgação da organização envolvem publicações e eventos científicos, material institucional, redes sociais, website e a imprensa, esta, porém, com   restrições. ”Conseguimos uma ou duas menções por ano na imprensa”, revela, referindo-se à chamada grande imprensa (os veículos de grande circulação nacional) e comenta: “é muito difícil colocar essas questões na agenda pública”.

Raquel Boechat também sofre dificuldades em propor a temática das doenças negligenciadas à imprensa e critica os comprometimentos políticos e comerciais dessa imprensa com os interesses daqueles com quem o Fórum está em enfrentamento, especialmente a indústria farmacêutica internacional. O desafio, afirma ela, é como falar ao grande público que doenças negligenciadas não são apenas uma lista que a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulga e que estão longe do nosso dia a dia, mas que elas estão aí e atingem uma população imensa no mundo. As principais estratégias do Fórum tem sido a imprensa alternativa e as redes sociais, muitas com apoio de personalidades públicas.

Diferentemente das outras componentes da mesa, Raquel Aguiar, que também atua no Observatório da Saúde da Mídia, do Laboratório de Comunicação e Saúde do Icict/Fiocruz,  trouxe uma reflexão sobre a visibilidade e invisibilidade discursiva das doenças negligenciadas na mídia. Para a pesquisadora, a Comunicação é um processo social no qual as desigualdades da sociedade também se manifestam, especialmente na forma de desigualdades discursivas. 

Segundo sua análise, as doenças negligenciadas, bem como os determinantes sociais da saúde, sofrem uma espécie de apagamento e de silenciamento na imprensa, que privilegia dar voz à lógica da causalidade biomédica e as soluções medicamentosas para os problemas de saúde em suas veiculações, raras vezes se tratando das condições de vida das populações e sua relação com a prevalência de determinadas doenças, muitas delas listadas entre as negligenciadas pela OMS.

Como contra-ponto ao silenciamento que sofrem as doenças negligenciadas na mídia em geral, Raquel Aguiar trouxe o caso do vírus zika, que ganhou as manchetes dos noticiários no período da epidemina nacional e internacional de 2015/2016. De acordo com suas observações, a incertezas em relação à doença, o caráter hediondo da síndrome (incidindo sobre os bebês ainda no útero das mães), as grandes ondas de boatos, o caráter epidêmico entre outros fatores contribuíram para que a Zika alcançasse visibilidade midiática, ainda que fosse uma doença que acometesse mais significativamente os mesmos grupos sociais que costumam sofrer com as doenças negligenciadas. 

Entre as muitas reflexões possíveis sobre a temáticas, algumas apresentadas por Raquel Aguiar são: A invisibilidade dos determinantes sociais da saúde é exclusiva dos noticiários? Os profissionais de imprensa estão preparados desde sua formação para tratar dos temas das saúde?  

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