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Cristiani Machado Vieira: ‘‘A presença feminina aumentou nos últimos anos e é muito forte''


26/06/2020

Por: Maria Martha Bruno (diretora de conteúdo da Gênero e Número)

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Margareth Dalcomo, Nisia Trindade, Cristiana Meirelles, Emanuelle Góes… Desde março, pesquisadoras, infectologistas, pneumologistas, epidemiologistas e várias outras profissionais da Fiocruz passaram a fazer parte do noticiário diário, tirando dúvidas, compartilhando achados de pesquisas e analisando dados relacionados ao novo coronavírus. No ano em que completa 120 anos, a instituição enfrenta um de seu maiores desafios: “É simbólico que isso esteja acontecendo em 2020. O que está havendo está muito relacionado à missão e à vocação da Fiocruz, e também com enfrentamentos anteriores, como a febre amarela e a peste bubônica. Isso está na nossa história institucional”, diz a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação, Cristiani Machado. 

Pela primeira vez em sua história, a Fiocruz é comandada por uma mulher, a socióloga Nisia Trindade, na presidência desde 2017. Mulheres são 56% dos quase 5 mil servidores da instituição. A maioria delas é branca (70%). Negras compõem 20,5% (558 servidoras). Entre os 354 cargos e funções comissionados, mulheres também são maioria: 53% contra 47% de homens. Nos cargos e funções comissionados de gerência intermediária, elas também prevalecem: 54% contra 46% de homens. Mas nos cargos de nível estratégico, eles são maioria: 61%. “Embora na Ciência a presença das mulheres seja cada vez mais expressiva, nos cargos de gestão a proporção de homens é maior. Isso acontece nas empresas também. Ainda há sub-representação nos altos cargos de gestão na ciência. É uma tendência histórica, que precisa de muita política pró-ativa para se transformar”, diz a vice-presidente. 

Com duas filhas adolescentes em casa, Cristiani Machado tem dormido cinco horas por dia, divide o ambiente de trabalho entre sua casa e a sede da Fiocruz no Rio de Janeiro, e valoriza o espírito corporativo de uma instituição pública de excelência para enfrentar o cenário que já deixou mais de 50 mil mortos e 1 milhão de casos confirmados no Brasil.    

Confira a entrevista:

O país chega ao quarto mês de pandemia como segundo no ranking mundial de casos e óbitos. O que preocupa mais você?
As dificuldades estão mais relacionadas ao desafios do país e do Sistema Único de Saúde (SUS). Felizmente temos o SUS, que foi uma conquista importante, mas que já vinha com dificuldades de financiamento e de pessoal há muito tempo. E na área de insumos estratégicos, nossa dependência do mercado internacional está muito evidente. Isso tem a ver com o grau de independência que nosso sistema de saúde deveria ter no abastecimento.

É preciso destacar que não existe antagonismo entre economia e saúde. A saúde é uma área que gera muitos empregos qualificados. Gera medicamentos, gera universidades produzindo pesquisa e institutos produzindo inovações. A gente incorpora tudo isso no sistema de saúde.

Como está a sua rotina? E quais são os principais desafios do seu dia a dia?
Minha carga de trabalho aumentou bastante. Fico nas atividades até umas 20h e depois paro para ver dados e notícias. Tento fazer exercícios em casa. E tenho que conciliar com o serviço doméstico. Vou dormir mais ou menos às 2h e acordo às 7h. Trabalho em casa e na sede. Tem muita interação virtual, é cansativo. São muitas reuniões e a maioria à distância, porque, mesmo quando estou lá, evitamos reuniões presenciais. Quem está em hospitais, unidades e laboratórios de referência também está trabalhando bastante. Temos profissionais que eventualmente adoecem. Mas o mais difícil é lidar com a gravidade da crise humanitária. Ver os casos e as mortes aumentando, e observar como as desigualdades são escancaradas com os indicadores. 

Quais são os principais trabalhos da Fiocruz durante a pandemia?
A Fiocruz tem trabalhando em algumas grandes frentes: diagnóstico e testes (não só na sede do Rio de Janeiro, como em outros estados); saúde, pesquisa básica e aplicada, buscando parceria com outras instituições sobre a vacina; Observatório Covid-19, na parte de informação, dados e comunicação. 

Também estamos com uma estratégia muito forte de comunicação não só com a mídia, mas com a população. Fizemos a campanha de prevenção “Se liga no corona”, em parceria com lideranças comunitárias de Manguinhos [bairro da Zona Norte do Rio, onde está a sede da instituição]. Nela, a comunidade também pode produzir materiais que serão avaliados e podem receber um selo da Fiocruz. Também lançamos uma chamada pública para projetos de organizações da sociedade civil com ênfase nas populações vulneráveis. Foram mais de 500 propostas apresentadas.

Temos ainda ações na área de educação e a formação de profissionais para o SUS, que é quem está na gestão. Produzimos bastante material e cursos. Também produzimos material para pessoas que trabalham com saúde indígena e para agentes comunitários de saúde, pessoas que estão na ponta — e que, em geral, são mulheres.  

Pode destacar trabalhos que tenham mulheres na linha de frente?
A diretora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas [uma das principais unidades da instituição, que atua com pesquisa clínica, ensino, serviços de referência e assistência em doenças infecciosas] é a Valdiléa Gonçalves Veloso dos Santos. Ela está no terceiro mandato. Atualmente, algumas unidades científicas da Fiocruz em vários estados são dirigidas por mulheres muito atuantes.

Na atenção à saúde, há predominância de mulheres nas várias profissões. No apoio e diagnóstico, para a produção de testes e realização de exames, podemos destacar a Marilda Siqueira, diretora do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde para região das Américas. Na produção dos kits diagnósticos, em Bio-Manguinhos [unidade de pesquisa, inovação, desenvolvimento tecnológico e responsável pela produção de vacinas], também há muitas mulheres participando. 

Quais são os resultados mais importantes do Projeto Mulheres e Meninas na Ciência, lançado em 2018?
Lançamos um edital em 2019 para todas as unidades da Fiocruz fazerem ações voltadas para meninas. Em fevereiro deste ano, 50 jovens foram recebidas por mais de 60 pesquisadoras na Fiocruz do Rio. Todas conversaram sobre machismo, discriminação e sobre como reforçar a representatividade. Recentemente lançamos com a Revista Saúde em Debate, do Cebes [Centro Brasileiro de Estudos de Saúde], uma chamada pública para artigos que relacionam gênero, ciência e saúde.  

O projeto é importante para dizer que as jovens podem ser cientistas, podem ser o que elas quiserem. Para isso elas têm que ser respeitadas, ter o espaço delas. 


O que a Fiocruz faz para reduzir as diferenças gênero em seus quadros?
Mulheres são 56% dos servidores da Fiocruz, estão à frente de muitas linhas de pesquisa — são cerca de 58% entre as pesquisadoras —, mas estão menos na gestão. A presença feminina aumentou nos últimos anos e é muito forte. Nos cargos de gestão, há uma maioria masculina. Eu sou a única vice-presidente mulher. 

Embora na Ciência a presença das mulheres seja cada vez mais expressiva, nos cargos de gestão a proporção de homens é maior. Isso acontece nas empresas também. É uma tendência histórica, que precisa de muita política pró-ativa para se transformar. Na Fiocruz, este esforço está nas diretrizes institucionais e no Congresso Interno, que se reúne a cada quatro anos. Desde 2009, a instituição conta com um Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça, que é uma diretriz muito forte para a gente, e possui também a Comissão de Prevenção e Enfrentamento do Assédio Moral e Violência no Trabalho.

Qual a sua trajetória até chegar à Fiocruz?
Sou formada pela em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com mestrado e doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Meu primeiro contato com a Fiocruz foi com uma bolsa de iniciação científica, nos anos 1990. Trabalhei na Prefeitura, no Governo do Estado do Rio e no Ministério da Saúde, no início dos anos 2000. Cheguei à Fiocruz como pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, onde coordenei o programa de pós-graduação. É o momento mais desafiador da minha carreira. Estar à frente da Fiocruz numa pandemia é um marco.

O que dá mais orgulho na instituição agora?
A Fiocruz está fazendo o trabalho da melhor forma possível. É muito simbólico que isso esteja acontecendo nos 120 anos da instituição, que agora mobiliza todas as suas energias para este enfrentamento. O que está acontecendo tem muito a ver com a missão e a vocação da Fiocruz, e também com enfrentamentos anteriores, como a febre amarela e a peste bubônica. Isso está na história institucional. 

A Fiocruz tem um espírito coletivo e orientação institucional muito fortes. Vejo isso entre servidores, celetistas, bolsistas e alunos. Há um espírito de comunidade e compromisso com o SUS.

Que legado pretende deixar deste trabalho?
Não tenho muita projeção pessoal. Estamos aqui pra trabalhar coletivamente. Todo mundo depende de todo mundo. Quero cooperar para que a Fiocruz desempenhe seu papel neste momento institucional tão crítico. Se puder contribuir no fortalecimento do SUS e do sistema de ciência e tecnologia, estarei satisfeita. Nosso lema agora tem sido: em defesa da vida.

Espero que a gente saia com algumas lições. A pandemia evidencia a necessidade contundente de fortalecer um sistema universal de saúde. E também de valorizar o papel da pesquisa nacional, que é quem pode dar respostas, diminuindo nossa dependência do mercado internacional. A terceira lição é o fortalecimento nosso sistema de proteção social.

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