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Covid-19: que vírus é esse?


30/03/2020

Por: Bruno Dominguez (Radis/Ensp/Fiocruz)

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Inicialmente chamada de 2019-n-CoV, a infecção provocada pelo novo coronavírus recebeu o nome oficial de covid-19, em 11 de fevereiro: um acrônimo do termo “doença por corona vírus” em inglês (corona virus deceased 2019). “Estamos assistindo à ciência em formação. As coisas mudam a cada dia: não só os números da epidemia, mas todos os aspectos. Tudo é muito novo para todos nós”, observa o infectologista Estevão Portela, vice-diretor de Serviços Clínicos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), que recebeu caso suspeito de ebola em 2015 e receberá casos do novo coronavírus, se o vírus chegar ao país

Os coronavírus, diz ele, são uma causa conhecida de infecção respiratória. Em geral, provocam um resfriado leve; até as últimas décadas, raramente geravam doenças mais graves em humanos. “O que vem acontecendo desde o início deste milênio é um ‘salto de espécies’, ou seja, o vírus salta de uma espécie animal em que é parasita habitual para a espécie humana”, explica Estevão. A partir de 2002, conta, surgiram três novos coronavírus — Sars (que causa síndrome respiratória aguda grave) em 2002, Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio) em 2012 e covid em 2019.

A suspeita é de que o morcego esteja na base de todos esses saltos, normalmente ligado a outro animal intermediário — no caso da Sars, o pangolim (semelhante a um tatu), no da Mers, o dromedário. Ainda se busca entender se houve um hospedeiro intermediário no covid. Tudo leva ao mercado de peixes e animais exóticos de Wuhan, já que grande parte dos primeiros infectados esteve no local. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, foram coletadas 33 amostras na zona oeste do mercado, principalmente onde ficam as barracas de animais selvagens, e 31 testaram positivo para o coronavírus.

Os sintomas mais comuns são febre, tosse e dificuldade de respirar. Já há diversos trabalhos científicos publicados desde o início da epidemia, mostrando a velocidade da resposta da ciência. Os principais destacam que o covid predomina na faixa etária de 45 anos a 60 anos, e quase não aparece na população abaixo dos 20 anos. “Provavelmente, isso se deve aos casos mais graves, aqueles que procuram o sistema”.

Quanto à transmissão, presume-se que acontece apenas por gotícula — ou seja, uma pessoa tosse, fala ou expectora e em contato próximo com outra passa o vírus. As máscaras descartáveis viraram símbolo da epidemia. Em muitos lugares, mesmo alguns que sequer registraram casos, o produto se esgotou. Estevão, no entanto, não recomenda a máscara como item de proteção individual. “Em geral, ela é mal usada. Há quem a tire para tossir, por exemplo, ou use por um tempo longo demais, quando já está molhada e sem capacidade de proteger”. Segundo o infectologista, a melhor maneira de se prevenir de qualquer tipo de resfriado é lavar as mãos. “A lavagem das mãos é fundamental em qualquer epidemia e em qualquer época”, aponta. “O álcool gel pode ser usado, mas lavar as mãos com água e sabão já é excelente”.

Risco de pandemia

“A ameaça de pandemia não se concretizou, mas também não está descartada, porque ainda desconhecemos o padrão de transmissão do novo coronavírus”, avalia. Estevão explica que em toda epidemia os casos fatais são a ponta da pirâmide, os que mais aparecem, mas o vírus se dissemina pela base da pirâmide, pelos que tem infecção leve e sequer procuram o sistema de saúde. “Nos casos severos, os pacientes vão aos serviços e podem ser diagnosticados, isolados e ter seus contatos rastreados. Os casos médios ou assintomáticos não chegam até a rede e não recebem o diagnóstico, podendo espalhar o vírus para seus contatos”.

A preparação, para ele, é chave. “Um paciente com coronavírus que chegue a um hospital despreparado para atendê-lo causa um estrago, infectando profissionais e outros pacientes”, diz, a partir de relatos da China. Daí a importância de haver protocolos, treinamento, unidades especializadas atuando no início de uma epidemia — caso do INI. “Já temos experiência em relação ao ebola, em que nossa unidade era hospital de referência para todo o Brasil, em que seguimos normas ainda mais rígidas de proteção individual e precisamos de equipamentos mais caros”.

No Brasil, cada estado tem ao menos uma unidade de referência do SUS preparada para receber casos; e, na circunstância de a epidemia se espalhar, outras também terão que atuar. A contenção caberá ao INI; ou seja, o papel de identificar, isolar e controlar a mortalidade dos primeiros casos. “Passamos por treinamento constante para saber onde o paciente vai ser recebido, a máscara que será usada, a equipe que vai atendê-lo, qual o caminho que fará dentro do hospital. Tudo isso tem que estar escrito e treinado, ou se perde um tempo preciso ‘batendo cabeça’”.

* Matéria publicada originalmente na revista Radis em 1 de março de 2020. Acesse o especial elaborado pela Ensp e saiba mais sobre a doença.

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