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Covid-19: Fiocruz lança documento sobre saúde da criança e do adolescente


08/09/2020

Mayra Malavé (IFF/Fiocruz)

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Diante da pandemia pelo novo coronavírus, causador da Covid-19, especialistas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) produziram um documento intitulado Covid-19 e Saúde da Criança e do Adolescente, com o intuito de fortalecer a capacidade de atenção à saúde das crianças e adolescentes no Brasil, na conjuntura atual. O documento lançado, aborda aspectos clínicos e epidemiológicos da Covid-19 na infância e adolescência, suas repercussões na saúde mental, as desigualdades sociais e o papel das políticas públicas nesse contexto; aspectos nutricionais, de atividade física; e os desafios para a cobertura vacinal e para a atenção no período neonatal em tempos de coronavírus.

O material “traz um olhar sobre como são significativos os diferentes problemas enfrentados pela população pediátrica diretamente e indiretamente pelo vírus. Sua criação surgiu no contexto da disseminação de conhecimento sobre os efeitos agudos e tardios da Covid-19 no Portal de Boas Práticas do IFF/Fiocruz”, comenta o pediatra do IFF/Fiocruz Márcio Nehab, organizador do documento.

Sobre o contágio de Covid-19 nos recém-nascidos, a gestora da Área de Atenção Clínica ao Recém-Nascido do IFF/Fiocruz, enfermeira Karla Pontes, e o neonatologista do Instituto José Roberto de Moraes Ramos, coautores do documento, afirmam que “os dados produzidos são muito dinâmicos, tendo em vista que estamos a cada dia aprendendo com a evolução dessa nova doença. No entanto, as evidências da ciência têm sugerido que a via principal de transmissão da Covid-19 para o recém-nascido é através de gotículas dos cuidadores infectados ou por material biológico contaminado. Parece que a transmissão mãe-bebê é possível, mais ainda não existem evidências sólidas que a comprovem e não parece ser frequente”.

A recomendação geral para os envolvidos nos cuidados de recém-nascidos é seguir as normas de responsabilidade de todos diante da pandemia. “Em casa, os cuidados devem ser focados em relação a evitar visitas e saídas desnecessárias, e higienizar sempre as mãos antes e após manuseio do recém-nascido. Caso necessitem sair, os pais devem sempre usar máscara e higienizar as mãos ao retornar para casa”, orientam Karla Pontes e José Roberto de Moraes. No documento também se encontram algumas orientações importantes para os cuidados nas maternidades.

Vale lembrar que se proteger não constitui apenas em um ato de ajuda individual ou apenas da família, mas sim um ato de solidariedade. “No documento, ressaltamos que as desigualdades sociais do nosso país foram fatores muito evidentes em relação à morbidade e mortalidade materna. Por exemplo, no nosso território a mortalidade tem sido observada significativamente mais evidente em classe social mais desfavorável. Nesse sentido, proteger-se é também ajudar o próximo”, enfatiza Karla.

O impacto da pandemia atual na saúde infantil é abordado no documento, conforme análise dos seus efeitos diretos — aqueles causados diretamente pela infecção do novo coronavírus — e os seus efeitos indiretos — que são aqueles decorrentes das medidas de distanciamento social adotadas para o controle da pandemia. As manifestações mais graves são a Síndrome Respiratória Angústia Grave (SRAG) e a Síndrome Inflamatória Multissistêmica da Criança (MIS-C), as quais requerem internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e acompanhamento multiprofissional, e também são tratadas no documento.

Com relação às diferenças entre o perfil clínico das crianças e dos adultos internados com Covid-19, a gestora da Unidade de Pacientes Internados (UPI) do IFF/Fiocruz e coautora do documento, a pediatra Lívia Menezes informa que “felizmente, as crianças com Covid-19 necessitam de internação em UTIs de forma bem menor que os adultos. Essas crianças internadas também desenvolvem menos complicações, como a insuficiência renal aguda com necessidade de diálise e eventos trombóticos graves, diferentemente dos adultos. Podemos considerar que, para essa infecção viral, os idosos com condições crônicas de saúde associadas estão em um ponto extremo da gravidade, enquanto as crianças ocupam o outro extremo desse cenário — apresentando-se assintomáticas ou com sintomas leves na maioria dos casos”.

Entretanto, algumas crianças podem desenvolver as manifestações graves, “principalmente aquelas que tem menos de um ano ou possuem condições crônicas e complexas de saúde - especialmente as de origem neurológica, genética, metabólica ou cardiológica – que justificam a internação em UTIs para oxigenioterapia, outro suporte respiratório, como uso de ventiladores, ou medicamentos para pressão arterial, por exemplo. Mesmo nesses casos, o óbito também é raro”, afirma Lívia.

A conjuntura da pandemia pelo novo coronavírus também trouxe atenção especial para as questões relacionadas ao cuidado com a saúde mental, como um dos aspectos relevantes da prevenção e do cuidado nestes tempos, por isso a abordagem do tema no material lançado. Para o pediatra e psiquiatra da Infância e Adolescência do IFF/Fiocruz, e também coautor do documento, Orli Carvalho, “é interessante vermos como a dimensão mental tem recebido crescente destaque quando pensamos na saúde infantojuvenil no decorrer da atual pandemia. Interessante, pois muitas vezes a saúde mental é esquecida ou considerada, equivocadamente, como um elemento de menor importância na avaliação de crianças e adolescentes. Assim, um aprendizado que tem sido reconhecido por toda sociedade é o cuidado que precisamos destinar às questões emocionais”.

Entendendo que saúde mental também é a capacidade emocional de adaptação diante dos desafios cotidianos, na procura de ter e manter um bom funcionamento psicossocial e um estado de bem-estar, “fica evidente, neste momento, o quanto essa capacidade de se adaptar é essencial para nossa sobrevivência, uma vez que essa pandemia deve ser entendida como uma catástrofe global, com repercussões individuais e coletivas. Sendo assim, não só podemos como devemos falar do impacto da pandemia na saúde mental de crianças e adolescentes. Nosso questionamento deve ser, então, quais a intensidade e a dimensão desse impacto; e isso é algo que ainda estamos tentando entender e discriminar, pois sabemos que dependem de muitas variáveis e vulnerabilidades biológicas, relacionais e sociais”, aponta Orli Carvalho.

Para finalizar, Márcio Nehab adiantou que o documento Covid-19 e Saúde da Criança e do Adolescente poderá ser utilizado como uma das referências na construção de um documento em conjunto com profissionais de outras unidades da Fiocruz, sobre o retorno escolar. “Estamos muito felizes em poder contribuir e com certeza partir para revisão, melhorias e aumento no número de capítulos em uma próxima versão”

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