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Casa de Oswaldo Cruz completa 35 anos

Entrada do prédio da Casa de Oswaldo Cruz

03/02/2021

Por: Karine Rodrigues (COC/Fiocruz)

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Nas memórias de Oswaldo Cruz, existiam muitas casas: a construção térrea com paredes internas de pau-a-pique, em São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, onde nasceu e viveu até os cinco anos de idade; a primeira residência no Rio de Janeiro, no então subúrbio da Gávea; o endereço no Jardim Botânico; o número 26 da rua Marbeuf, 26, durante a temporada no Instituto Pasteur, em Paris; o 128 da Voluntários da Pátria; o 406 da praia de Botafogo; o solar na rua Montecaseros, em Petrópolis, serra fluminense, onde morreu, em 1917.

Ele nem imaginava que o Pavilhão do Relógio, onde se produzia soro contra a peste bubônica, nos idos de 1904, entraria em sua longa lista de casas, ainda que metaforicamente. Aquela construção tão simbólica, onde foram dados os primeiros passos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), acolheu o sonho de um grupo de sanitaristas, na década de 1980: tornou-se um espaço dedicado à história da saúde e da ciência ali produzida e à valorização do patrimônio cultural da instituição. O pensamento histórico seria um guia para a compreensão do país, que havia pouco saíra de 21 anos de ditadura.

O nome escolhido não poderia ser mais apropriado: Casa de Oswaldo Cruz.  Criada em 1986 e reconhecida como unidade técnico-científica da Fiocruz no ano seguinte, a instituição, de fato, nos remete ao imaginário de casa: é lugar de memória, identidade, acolhida. Lar de Oswaldo Cruz e também de Carlos Chagas, Adolpho Lutz, Leônidas e Maria Deane, Herman Lent, Oracy Nogueira, Virgínia Portocarrero, entre tantos outros nomes presentes no que se transformou no maior acervo de História das Ciências e da Saúde da América Latina.  

Há 35 anos, ao abrir as portas no Pavilhão do Relógio, a Casa de Oswaldo Cruz já nascia entranhada de histórias, sediada em um espaço onde se materializou uma espécie de grito de independência da ciência nacional. Para garantir soro contra a peste bubônica que assolava o mundo, produzido no exterior, foram criados no país: o Instituto Soroterápico Federal, embrião da Fiocruz, em 1900, no Rio; e, em 1901, o Instituto Serumtherapico, depois Butantan, em São Paulo.

'História não se repete, mas pode dar uma boa lição'

A importância daquele momento para a história do país está documentada na Casa de Oswaldo Cruz e estampada nas manchetes do presente, numa espécie de déjà-vu. Como outrora na batalha contra a peste, Fiocruz e Instituto Butantan são hoje as duas mais importantes instituições brasileiras no combate à pandemia de Covid-19. E assim como em 1904, quando o Rio virou de cabeça para baixo por causa do movimento conhecido como a Revolta da Vacina, o Brasil enfrenta uma onda de negacionismo científico que põe em risco a campanha de imunização contra o vírus Sars-CoV-2, essencial para o país reduzir a curva da doença, que já matou mais de 2,1 milhões de pessoas no mundo, sendo 220 mil no Brasil.

“A história não se repete, mas pode dar uma boa lição. História também não é remédio de bula fácil. Os trabalhos realizados pela Casa de Oswaldo Cruz mostram como a história é feita da mudança, mas também da reiteração. Ou seja, que existem certas estruturas que se repetem teimosamente e enfrentam séculos. Por isso estudar história significa investir na nossa cidadania e numa visão mais ampliada do nosso passado. Significa, por fim, ter certeza que nosso presente está cheio de passado. Nos debruçarmos sobre ele é uma forma de investir num futuro melhor e mais democrático”, observa a historiadora Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo (USP) e Global Scholar da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Segundo ela, a relevância de instituições como a Casa de Oswaldo Cruz fica mais visível em situações de emergência sanitária. Em A bailarina da morte: a gripe espanhola no Brasil, escrito com a historiadora Heloisa Starling e lançado no ano passado, ela revisita o país no período em que a doença, que chegou por aqui em 1918, matou milhões de pessoas no mundo. As autoras fazem paralelos com a pandemia atual, detalhando o cenário da época, com as medidas de isolamento social, remédios supostamente milagrosos e falta de uma política de saúde consistente. Há quase um século, ficou evidente que apenas a ciência poderia tirar o país da crise, destaca Schwarcz.

“Hoje vivemos uma situação semelhante, com a diferença que temos um governo obscurantista, negacionista, que diminui a importância da Covid-19 e da vacina. O exemplo de ética dado pela Fiocruz, e também pelo Instituto Butantan em São Paulo, e a segurança dos profissionais treinados na instituição carioca têm mostrado, mais uma vez, como só sairemos dessa nova crise com informação de qualidade e com o abraço da ciência. A Casa nos seus 35 anos é um caso emblemático de atuação cidadã e em prol de um país menos desigual e mais inclusivo”, reitera.

Ao iniciar suas atividades, em 22 de janeiro de 1986, a Casa abria as portas para a possibilidade de novas temáticas no campo da historiografia. Enquanto na Fiocruz se discutia a 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada naquele mesmo ano, historiadores, em sintonia, realizavam um dos primeiros projetos da Casa: Memória da Assistência Médica na Previdência Social, uma reconstituição histórica fundamental para se pensar a reforma sanitária e consolidar a ideia de que a saúde poderia ser um direito universal no país. Pesquisas e documentos importantes do processo que levou à criação do Sistema Único de Saúde (SUS), quando a Constituição de 1988 determinou que é dever do Estado garantir saúde à população brasileira, integram os acervos da Casa, um valioso conjunto bibliográfico, arquivístico e museológico à disposição do público.

Programa de pós-graduação é referência dentro e fora do país

Em 2000, a Casa criou o Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS). Integrado à área de História da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) e avaliado com conceito 5, possui cursos de mestrado e doutorado e é reconhecido como centro de referência nacional e internacional no campo da História das Ciências, em particular das Ciências Biomédicas, e da Saúde. Mantém parcerias com instituições de diversos países.

Integrante da primeira turma de doutorado do programa, o historiador Nelson Sanjad é hoje Pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Pará (UFPA). Duas décadas depois da obtenção do título, sua presença permanece constante na vida acadêmica e científica da Casa: desde 2015, é editor adjunto da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, publicação lançada pela Casa em 1994, que foi “fundamental para a institucionalização da História da Ciência” no Brasil, avalia Sanjad.


Estudantes do PPGHCS na Biblioteca de Obras Raras. Foto: Jeferson Mendonça.

“Alguns especialistas consideram que uma área ou disciplina científica demonstra maturidade quando surgem cursos de pós-graduação e periódicos dedicados àquela área. Quando isso acontece, delineia-se o que chamam de uma ’comunidade’, ou seja, um grupo de pessoas que atua para a expansão da pesquisa, da formação e da comunicação naquela área, compartilhando abordagens, conceitos e metodologias de pesquisa”, afirma o pesquisador, que também é membro do Conselho Consultivo da Casa. “Olhando para trás, nesses 35 anos, vemos o quão entrelaçados estão a Casa, o Programa de Pós-Graduação e a [revista] HCSM, todos contribuindo para consolidar, de maneira integrada, a História da Ciência no Brasil e na América Latina”, complementa.

Lançada em julho de 1994, História, Ciências, Saúde – Manguinhos divulga pesquisas de ponta sobre a história das ciências e da saúde. Publicada trimestralmente, está disponível há 20 anos, na versão online, no Portal SciELO, a principal biblioteca digital da América Latina,  

“É uma contribuição inestimável da Casa”, diz Silvia Figuerôa sobre a revista. Professora da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp), com ampla trajetória em História das Ciências e das Geociências, ela destaca o pioneirismo da publicação, uma das primeiras a entrar no Portal SciELO. Integrante do seu Conselho Consultivo, quando requisitada, ela participa emitindo pareceres e publicando, por livre iniciativa e também a convite.

Criação da revista HCSM venceu resistências

Se hoje a revista é celebrada, no passado, enfrentou resistências. Só saiu do papel por causa do empenho de um grupo de pesquisadores, segundo o sociólogo Luiz Antônio de Castro Santos, referência para gerações de cientistas sociais brasileiros e ativo participante do movimento que resultou na criação da Casa de Oswaldo Cruz. Recorda o embate que testemunhou em uma reunião na Fiocruz.

“Enquanto algumas pessoas diziam que não havia espaço para a revista porque a Fiocruz era lugar de pesquisa biomédica, e não de pesquisa histórica, Paulo Gadelha e Jaime Benchimol, entre outras pessoas que desapareceram da minha memória, defendiam a criação da revista com unhas e dentes. Por um tempo, houve núcleos de resistência à revista, em geral, gente mergulhada até o fundo na pesquisa biomédica e que não via a pesquisa histórica com bons olhos”.

Então professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ele demonstrou ser favorável à criação da revista, observando que, grandes laboratórios de ciências biomédicas na Europa, haviam aberto espaço para a história, como o Instituto Pasteur, em Paris.

Figueirôa também recorda de batalhas travadas em nome da História das Ciências, no contexto da América Latina, nas quais a Casa contribuiu ativamente desde o começo: “Foi um momento em que a Sociedade Latino-Americana de História das Ciências e da Tecnologia estava se institucionalizando. As pessoas esquecem um pouco de todo esse esforço nos anos 1980 e 1990. A batalha era, inclusive, para sermos ouvidos em outros fóruns, para conseguirmos que as nossas publicações fossem aceitas, para entrarmos nos congressos internacionais”, revela, acrescentando que a situação começou a mudar a partir de 1997.

A trajetória acadêmica de Figueirôa cruzou várias vezes com a da Casa, na produção de pesquisas, publicações e em bancas do programa de pós-graduação. “São muitos momentos. E com muitos pesquisadores. Espero que esse encontro siga assim. A historiografia que a Casa vem produzindo é absolutamente respeitável, inovadora, reconhecida no Brasil e fora daqui, inclusive com premiações de teses, menções honrosas de trabalhos”.

Nelson também avalia que as contribuições da Casa se fazem sentir em outros países da América Latina, onde se tornou referência para a área de História das Ciências e da Saúde: “É o nosso principal centro de pesquisa, formação e divulgação científica nessa área, não apenas pelo tamanho do seu corpo de pesquisadores e pelo seu acervo documental e museológico, mas pela qualidade do que produz. Isso inclui uma das principais revistas do mundo na área”.

No Museu da Vida, ciência é cultura, diversão e educação

Em 1999, período em que a atual presidente da Fiocruz, a socióloga Nísia Trindade Lima, dirigia a Casa, foi inaugurado o Museu da Vida. O espaço parte da premissa de que ciência é cultura, diversão, saúde e educação para realizar uma série de atividades para públicos de todas as idades e divulgar a ciência. Diversas de suas iniciativas buscam aproximar a Fiocruz dos territórios em que está inserida.

“A Casa dá contribuição enorme para a história da ciência, as áreas de arquivologia e de museologia, no caso, com o Museu da Vida, onde eles trabalham a divulgação científica e as redes internacionais dos museus de ciência”, afirma Maria Margaret Lopes, pesquisadora do Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Évora, em Portugal, e do Programa de Ciências da Informação da Universidade de Brasília (UnB). “Isso é fundamental porque, em geral, os museus de ciência são pouco contemplados na museologia como um todo, então, o papel que a Casa tem na divulgação científica, é muito importante”, observa Lopes, que esteve próxima da Casa em vários momentos ao longo de sua carreira acadêmica.

A pesquisadora destaca ainda os esforços do instituto na oferta de cursos de pós-graduação nessa área: o mestrado em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde e a especialização em Divulgação e Popularização da Ciência.

Orientadora do Programa Interunidades em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, ela chama atenção ainda para a importância da área de humanidades para a ciência. “Os problemas científicos, como os relacionados às questões climáticas e aos oceanos, por exemplo, requer uma articulação entre as áreas técnicas de ponta e as áreas da história, das ciências socias. Na época em que inexistiam os sismógrafos para medir a duração dos terremos, a história nos contou quanto tempo durou um terremoto, através de culto religioso ou de uma oração”, diz, considerando que valorizar as ciências e valorizar as suas histórias é caminho para que a população seja mais questionadora e participe mais efetivamente dos processos de decisão democrática no país.

Castro Santos também enfatiza a relevância da educação em ciência e da percepção pública na área, caminhos para a construção da cidadania e por uma sociedade menos desigual. “Nós, sociólogos e historiadores da saúde, precisamos compartilhar esse conhecimento com o público, de maneira geral”, diz, citando, em especial, as crianças e os adolescentes estudantes de escolas públicas. Ele entende ser necessário que a Casa, que traz a divulgação da ciência e da saúde desde a constituição, atue mais fortemente nas redes públicas de ensino.

Ampliação do uso cultural do núcleo arquitetônico de Manguinhos

Desde 2018, a Casa de Oswaldo Cruz ocupa uma nova sede, o Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), edifício de quatro andares no campus da Fiocruz em Manguinhos, no Rio. Uma mudança necessária para preservar mais adequadamente os acervos sob sua guarda. O Pavilhão do Relógio, sua sede anterior, porém, não saiu de cena. Tão cedo quanto a pandemia permitir, há de abrir as portas para, integrado ao circuito de visitação do Museu da Vida, sediar atividades essenciais para a valorização e a divulgação da ciência nacional.

A mudança faz parte de mais uma iniciativa coordenada pela Casa, o Plano de Requalificação do Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos (Nahm). A motivação é ampliar o uso cultural do Castelo Mourisco e demais edifícios centenários da Fiocruz. Os prédios localizados no campus de Manguinhos são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).


Cavalariça: tapumes receberão arte sobre mostra a ser instalada no espaço. Foto: Divulgação/COC

“Ótima iniciativa”, avalia o arquiteto restaurador Cyro Corrêa Lyra, que tem experiência de sobra no assunto acumulada durante a trajetória no Iphan: “Primeiro, porque é um conjunto que está imerso em uma área densamente habitada, mas desprovida de entes públicos culturais. E, em segundo lugar, pelo valor cultural do conjunto, onde se destaca o Pavilhão Mourisco, exemplar único no Brasil do ecletismo de vocabulário arquitetônico inspirado na arte de origem árabe”.

Também encantada pela beleza dos destalhes do Pavilhão Mourisco, a arquiteta Regina Mattos, que já esteve à frente do Inepac, enfatiza a peculiaridade de quem circula diariamente pelo local. “É um grande privilégio ter o Núcleo Histórico e Arquitetônico de Manguinhos como seu local de trabalho e estudos. Poder circular por belos prédios ecléticos, do início do século 20, construídos e projetados pelo engenheiro e arquiteto Luiz Moraes Junior, ou por importantes construções modernistas do arquiteto Jorge Ferreira, com azulejarias de Roberto Burle Marx e Paulo Rossi Osir”

Também faz coro a Lyra ao destacar a importância do Plano de Requalificação. “É imprescindível. Do ponto de vista da proteção daquele patrimônio edificado e também da pesquisa do conhecimento, da educação e da assistência social às comunidades carentes que habitam o entorno do campus. Tenho conhecimento de que a Casa de Oswaldo Cruz vem realizando cursos e oficinas para formação de mão-de-obra especializada em diferentes áreas, como da restauração, e que a maior parte dos alunos são dessas comunidades vizinhas”.

A Casa oferece o curso Formação Profissional em Técnicas de Conservação e Restauração de Edifícios Históricos e mestrado profissional em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde, resultado do olhar atento da instituição à relação entre patrimônio, arquitetura, urbanismo e saúde.

Olhar dos historiadores sobre a Covid-19

Ao mesmo tempo que a ciência brasileira busca meios de reduzir a curva de contaminação da Covid-19 no país, os historiadores da área voltam ao passado para ajudar na compreensão da atual pandemia.

Na Fiocruz, ações relacionadas à vacina contra o Sars-CoV-2, pesquisa, diagnóstico, assistência hospitalar, produção de vacina, somam-se a atividades como a série Covid-19 – O Olhar dos Historiadores da Fiocruz, realizada pela Casa. Destinado à promoção e à divulgação da ciência produzida dentro e fora da instituição, a série deu origem ao livro Diário da Pandemia. A obra inclui reflexões que versam sobre múltiplas questões relacionadas à pandemia e contribuem com informação embasada e clara, essencial em uma situação de crise sanitária, ainda mais em tempos de negacionismo da ciência e fake news.

Em outra frente, a Casa tem atuado para documentar esse momento histórico, com um projeto que visa constituir um acervo a partir de contribuições da comunidade Fiocruz e de moradores do território em que a instituição está inserida sobre suas vivências durante a pandemia.

Diretor da Casa de Oswaldo Cruz desde 2013, o historiador Paulo Elian destacava há cinco anos, quando a unidade comemorava seus 30 anos, a necessidade de se provocar, buscar novos desafios. Enquanto comemora as conquistas já obtidas e define novas metas para o futuro, a Casa dá a sua contribuição para os desafios decorrentes da pandemia de Covid-19.

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