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Abrascão 2022: Fiocruz debate desafios da Covid longa para o SUS


23/11/2022

Danielle Monteiro (Informe Ensp)

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Metade das pessoas diagnosticadas com Covid-19 apresentam sequelas que podem perdurar por mais de um ano, de acordo com alguns estudos. Essa condição é chamada de Covid longa. A doença e seus desafios para o Sistema Único de Saúde (SUS) e a proteção social foi o tema de uma das diversas mesas redondas realizadas na tarde dessa terça-feira (22/11) no 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão 2022), em Salvador (Bahia). A atividade foi coordenada pela integrante do GT Saúde & Ambiente da Abrasco, Karen Friedrich.

Pesquisadores debatem a doença e seus desafios para o SUS em evento (foto: Informe Ensp)

 

O debate começou com a apresentação do médico do Instituto do Coração do Hospital das Clínicos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Ubiratan Santos. Após fazer um breve panorama da Covid longa no Brasil, ele citou, como principais desafios gerados pela doença para o SUS, a necessidade de melhorias no diagnóstico do tratamento da doença em fase aguda, ou seja, a capacidade de fazer testes nas pessoas e testá-las novamente. “Se a pessoa está negativa hoje, mas continua com sintomas, é preciso repetir o teste. Algumas pessoas testam positivo logo no segundo dia de sintomas, já outras demoram um pouco mais. Isso varia de acordo com a carga viral a que ela foi exposta”, explicou.

Outra questão, segundo Ubiratan, é que alguns sintomas afetam o corpo inteiro, o que exige um tratamento múltiplo por várias expertises. É preciso também, conforme defendido pelo médico, um olhar atento ao prejuízo físico, mental, social e econômico do paciente, pois, em alguns casos, ele perde o trabalho ou tem sua capacidade laboral reduzida, por apresentar limitações. Além disso, como o risco está associado ao maior número de contatos, ele defendeu que é preciso, ainda, que o sistema de saúde esteja atento ao fato de existir maior probabilidade de contágio em ambientes mal ventilados nas casas, trabalho e transporte público. Ele também sugeriu a visita domiciliar aos pacientes que tiveram alta hospitalar ainda no mesmo dia, pois muitos apresentam condições de risco após saírem do hospital. “No Instituto do Coração, 20% dos pacientes que tiveram alta por Covid-19 vieram a falecer três meses por problemas de saúde provocados pela doença”, comentou. A atenção especial com imunossuprimidos, por reterem o vírus por mais tempo, também foi sugerida pelo médico.

Em seguida, a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) e integrante do Observatório Covid-19 Fiocruz, Margareth Portela, que está realizando um estudo sobre a Covid longa, fez um breve balanço da doença, abordando seus principais sintomas. Em sua apresentação, ela trouxe diversos questionamentos gerados pela Covid longa, que envolvem questões como as diversas interpretações sobre o próprio conceito da doença, suas causalidades e as dificuldades na identificação de casos. “Escutei o relato, por exemplo, de uma mulher de 40 anos que teve caso grave de Covid há um tempo e diz apresentar espasmos até hoje. No entanto, isso não gera nela uma percepção de necessidade de busca pelo serviço de saúde. Será que existem muitos casos como esses?”, indagou a pesquisadora.

A mortalidade pós alta por Covid-19 e a redução da capacidade laboral em pessoas que tiveram a doença, conforme apontam alguns estudos, são outros pontos que também merecem atenção, segundo Margareth. Uma questão gerada pela doença, segundo a pesquisadora, diz respeito à reabilitação de pacientes que passaram muito tempo na UTI: “A reabilitação é necessária porque o paciente teve Covid ou porque ele precisou ficar muito tempo na UTI?”, questionou Margareth. 

Apesar de estimativas apontarem que cerca de 50% das pessoas que tiveram Covid apresentarem sintomas até um ano depois, o gargalo nos serviços especializados e de reabilitação, curiosamente, não estão tendo muita demanda de casos de Covid longa, conforme observado pela pesquisadora. Esse é outro ponto a que se deve estar atento, segundo ela. A carência de estimativas acerca do tamanho do problema no Brasil, assim como da demanda e do uso de serviços de saúde, foram outras questões levantadas pela pesquisadora. Para Margareth, são também necessários recursos para que as pessoas com Covid longa auto gerenciem seus sintomas de uma forma independente ou assistida, assim como a necessidade de um suporte integrado e coordenado da Atenção Primária à Saúde. “Se o problema não se resolve na Atenção Primária, a capacidade de se fazer referência para uma avaliação multidisciplinar e para cuidados especializados para condições específicas é também afetada”, alertou.

No seguimento à discussão, a neurologista e pesquisadora da Unicamp, Clarissa Yasuda, apresentou os resultados de seu estudo Neurocovid (SP). A pesquisa, que envolveu 603 trabalhadores do Brasil diagnosticados com Covid há mais de 180 dias, analisou, entre outros fatores, o impacto da Covid longa na capacidade de trabalho dos entrevistados. A maioria relatou apresentar, na primeira fase da pesquisa, sintomas como cansaço, ansiedade, problemas de memória, dificuldades com atividades diárias, sonolência durante o dia e sintomas depressivos meses após contrair a doença. A redução da capacidade de trabalho foi relatada por mais de 40% dos entrevistados. A boa notícia, segundo Clarissa, é que, na segunda fase do estudo, grande parte dos entrevistados relataram a redução de sintomas como depressão e ansiedade, apontados na primeira fase da pesquisa. No entanto, a capacidade de trabalho permaneceu baixa. 

Para finalizar, a professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA), Edna Maria de Araújo, trouxe ao debate a perspectiva da Covid longa em populações negras e em situação de vulnerabilidade. “Conforme apontam estudos, a Covid-19 atingiu mais predominantemente populações em situação de vulnerabilidade em países como o Brasil e, se não tivéssemos o SUS, a situação teria sido muito pior”, atentou. 

Edna também ressaltou que a Covid longa e suas sequelas a longo prazo são fortemente influenciadas pelos Determinantes Sociais da Saúde, como pobreza e desigualdades estruturais como racismo, gênero, educação, entre outros fatores. Por isso, para melhorar o atendimento a populações vulnerabilizadas com Covid longa, é preciso, segundo a pesquisadora, reconhecer as desvantagens históricas a que esses grupos estão submetidos. 

Para enfrentar os desafios do SUS gerados pela Covid longa em pessoas em situação de vulnerabilidade, ela sugeriu a criação de mais registros centralizados em pacientes com a doença em situação de vulnerabilidade; a busca por recursos para a provisão de acesso e distribuição de cuidados de saúde equitativos; a atuação nos vários domínios de interseção para a redução dos Determinantes Sociais da Saúde; a coleta de dados clínicos e epidemiológicos; a liderança da Atenção Primária à Saúde na resposta à doença; e o reconhecimento da condição de vulnerabilidade do paciente durante o manejo clínico.

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