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12/04/2019

Vice-presidente da Fiocruz aponta desafios para a Ciência Aberta na instituição


Por: Flávia Lobato e Valentina Leite (Campus Virtual Fiocruz)*


Março foi um mês intenso na Fiocruz: a instituição aderiu, pela primeira vez, ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, abriu o ano letivo com conferência internacional sobre o papel de mulheres e jovens, lançou editais de incentivo para docentes, pesquisadores e alunos, acolheu estudantes brasileiros e de diversas nacionalidades. À frente destas iniciativas na vice-presidência de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic/Fiocruz) está a professora, pesquisadora, editora e médica Cristiani Machado. Ela traz para a gestão sua experiência como doutora em saúde coletiva e membro do Conselho Deliberativo da Abrasco, pós-doutora em ciência política e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Nesta entrevista ao Campus Virtual Fiocruz (CVF), Cristiani compartilha os desafios nas áreas sob sua liderança, destacando a construção coletiva para que a Fiocruz avance na direção da Ciência Aberta. “Esta é uma nova forma de fazer e difundir a ciência, atrelada ao retorno que nossas ações têm em termos de impacto social e isso vai requerer muito diálogo e envolvimento de todos”. Leia a entrevista completa, a seguir:

CVF: Você assumiu a vice-presidência em novembro do ano passado. Depois do alinhamento junto aos coordenadores de equipe, de visitas às unidades e da participação em fóruns institucionais, que prioridades elencou para sua gestão?

Cristiani Machado: As prioridades são definidas para que possamos cumprir nossa missão e refletem a dinâmica da gestão participativa: são pactuadas no Congresso Interno da Fiocruz, pela Presidência e nos colegiados internos. Trabalhamos na formação em diversos níveis educacionais e modalidades de ensino, tendo em vista a qualidade da educação nos cursos presenciais e à distância, do ensino técnico à pós-graduação. O papel da Presidência é integrar processos, contemplando a diversidade da Fiocruz.

Oferecemos cursos de pós-graduação stricto sensu e lato sensu em vários campos do conhecimento na grande área da saúde: da pesquisa básica das ciências biológicas às ambientais, medicina, saúde coletiva, ciências sociais e humanas. Por isso, estamos promovendo iniciativas transversais, que interessem a diversas áreas, programas e cursos de formação. Por exemplo: Ciência AbertaDivulgação Científica, Ética e Integridade em Pesquisa, Biossegurança. O objetivo é formar professores, pesquisadores e profissionais capazes de debater novas formas de fazer ciência, que saibam produzir e disseminar conhecimento amplamente. Pensando sempre em alcançar diversos grupos sociais além dos campos acadêmicos tradicionais.

E, claro, temos nos dedicado a acolher e apoiar os alunos. Em 2017, inauguramos o Centro de Apoio ao Discente (CAD), mas ainda carecemos de profissionais. Então, estamos estimulando um maior intercâmbio e diálogo entre as unidades para que troquem experiências. Lembro que também atuamos diretamente para que os discentes tenham condições de fazer nossos cursos. Foi o caso da concessão de bolsas emergenciais para alunos de programas ameaçados de cortes, uma decisão que obtivemos em articulação com o Conselho Deliberativo da Fiocruz.

CVF: Nos últimos anos, a Fiocruz experimentou um grande crescimento nacional, se consolidando como instituição estratégica de Estado. Que iniciativas destaca neste sentido?

Cristiani Machado: Além das unidades do campus em Manguinhos e em outros locais no Rio de Janeiro, a Fundação está presente em mais dez eestados. Todas as unidades têm algum tipo de oferta educacional. Nosso desafio tem sido não só integrar as unidades, mas apoiá-las para que todas desempenhem um papel nacional, que sejam capazes de formar para o Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o Brasil. Isso demanda trabalho em rede, em parceria com as regionais, e junto a outras instituições de pesquisa, redes de escola de saúde pública e de ensino técnico, universidades etc.

Temos desde cursos desenvolvidos em parceria entre os Institutos e escritórios da Fiocruz até iniciativas como o Programa para Professor Visitante Sênior — que promove um intercâmbio, em que docentes de programas mais tradicionais passam um período em unidades em que a atuação educacional é mais recente ou que tenham dificuldades para atrair quadros. Há também doutorados interinstitucionais (Dinter), que são cursos em parceria com universidades em outras regiões do país. E, ainda, consórcios de programas da Fiocruz para cursos descentralizados. No Piauí, estamos oferecendo um curso que reúne cinco programas da Fiocruz, envolvendo três unidades e a formação de 28 doutores, que é bancado pela instituição. Outro destaque é o Doutorado para o Complexo Econômico e Industrial da Saúde (Ceis), que envolve programas e cursos da Fiocruz Paraná, do Instituto Oswaldo Cruz, de Bio-Manguinhos e de Farmanguinhos. Na Fiocruz Ceará, também oferecemos um doutorado em biotecnologia que agrega quatro programas de unidades diferentes. Tudo isso diz muito sobre esse esforço nacional, esse compromisso da Fiocruz para reduzir as desigualdades na educação em saúde em diversos campos.

CVF: E quanto à cooperação internacional?

Cristiani Machado: A internacionalização é uma das prioridades que nos desafia. A Fiocruz tem parcerias históricas com instituições de pesquisa e ensino de outros países, na Europa, nos EUA e no Canadá. E atua de uma forma estruturante no âmbito da Cooperação Sul-Sul, fortalecendo os sistemas públicos de saúde, principalmente em países da América Latina e da África. No continente africano, trabalhamos junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e temos o escritório da Fiocruz em Moçambique. Já promovemos várias edições de cursos de mestrado em Moçambique, por meio de consórcios de programas da Fundação, nas áreas de pesquisa básica, saúde coletiva e gestão de sistema e serviços de saúde. Para estreitar as parcerias internacionais, adotamos estratégias diversas, como cursos descentralizados (no caso da Cooperação Sul-Sul), ou trazendo parceiros para cursos, seminários, palestras e discussões sobre problemas comuns que ampliem o conhecimento de nossos alunos.

CVF: Há uma expansão da educação à distância (EAD) e do uso de tecnologias educacionais em disciplinas de cursos stricto sensu (mestrado, doutorado). Quais as principais ações nesta modalidade?

Cristiani Machado: Por ser uma modalidade de ensino com ferramentas que possibilitam maior escala e agilidade, a EAD é crucial. Na área de saúde, precisamos dar respostas rápidas, principalmente em situações novas e emergenciais, como crises sanitárias – por exemplo, surtos ou epidemias de zika, chikungunya e febre amarela. Assim, a educação à distância é estratégica no sentido de capilarizar conhecimento para todo o Brasil. Estamos investindo bastante na qualidade de tudo o que produzimos: fazer cursos e materiais pedagógicos em EAD demanda expertise. Há profissionais muito qualificados na Fiocruz, mas é preciso formar um grupo maior, especializado, para desenvolver cursos à distância.

Campus Virtual Fiocruz é extremamente importante neste sentido. Os cursos stricto sensu, por exemplo, não podem ser totalmente à distância. Temos experiências inovadoras como o mestrado profissional em saúde da família (ProfSaúde), que tem uma boa parte EAD, além de momentos presenciais e tutores. Estamos desenvolvendo cursos autoinstrucionais para a formação de profissionais em saúde, atualizações e capacitações em temas específicos. Ampliamos o uso de material autoinstrucional, ao mesmo tempo em que preparamos os docentes para produzir estes materiais. Buscamos combinar as modalidades presencial e à distância, preservando o acompanhamento pelo professor de acordo com o perfil do curso. Paralelamente, a Vpeic está desenvolvendo o Educare, um ecossistema para recursos educacionais abertos (REAs). Neste sentido, pensamos nos materiais como instrumentos complementares à formação.

CVF: A vice-presidência também tem trabalhado para desenvolver um sistema de acompanhamento de egressos. Em que fase está a iniciativa e qual a sua importância?

Cristiani Machado: A Fiocruz é a maior instituição de formação para o Sistema Único de Saúde (SUS) no país e formamos da pesquisa básica até os serviços de saúde em nível técnico, passando pela pós-graduação, incluindo o Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde em seus vários campos de conhecimento. Já formamos dezenas de milhares de alunos em todo o país e também estrangeiros, que atuam como professores, pesquisadores, gestores e profissionais de saúde. Há estudos, pesquisas e um grande esforço dos coordenadores para fazer esse levantamento, seja para fins internos da gestão, para planejar atividades educacionais, para autoconhecimento e para corrigir rumos. Mas são iniciativas isoladas e precisamos atender à avaliação externa, porque isso é solicitado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Ministério da Educação (MEC). Isto é, a Fiocruz forma para que, para onde, para quem, o que os nossos formandos estão fazendo?

Por isso, queremos criar um sistema único, estruturante e permanente de acompanhamento dos egressos, que nos permita acompanhar os efeitos da nossa formação na trajetória profissional desses alunos. Este mês, promovemos uma Oficina para identificar iniciativas e pesquisas neste sentido. Envolvemos pessoas que trabalham com a gestão acadêmica e com sistemas de informação para compartilhar experiências e apresentar diferentes abordagens. Ao fim deste primeiro encontro, formamos dois Grupos de Trabalho (GTs), de acordo com níveis educacionais, para pensar em diretrizes para o sistema. Os grupos vão considerar recursos, tecnologias, metodologias e questões como formação continuada e empregabilidade. O objetivo é gerar informação contínua e qualificada, que retorne aos coordenadores de curso, professores e alimente os processos internos e planejamentos educacionais. Além da integração com o Sistema de Gestão Acadêmica, estamos pensando na forma de divulgar a informação com transparência, através do Campus Virtual Fiocruz e do Observatório de CT&I em Saúde.

CVF: No dia 22 de março, a Fiocruz abriu o ano letivo com a conferência da subsecretária da Organização das Nações Unidas (ONU), Natália Kanem. Ela tratou da agenda de proteção e garantia de direitos das mulheres e jovens. Poderia comentar as interfaces dessa agenda com a Fiocruz?

Cristiani Machado: Este ano, comemoramos pela primeira vez o Dia Internacional de Meninas e Mulheres na Ciência, o que foi extremamente importante. A ONU já vem valorizando essa data desde 2015. No Brasil, há um equilíbrio no número de mulheres e homens que fazem doutorado, mas em postos de pesquisa e gestão acadêmica a desigualdade persiste. Há nove anos, a Fiocruz conta com o Comitê Fiocruz Pró-Equidade de Gênero e Raça, que tem sido muito importante nesse debate.

Escolhemos a Dra. Kanem porque ela tem peso internacional para falar sobre os desafios da Agenda 2030, que tem muitas repercussões no campo da saúde. Kanem dirige o Fundo para População e Desenvolvimento, que pensa nas transformações demográficas e desigualdades a nível global. As populações mais vulneráveis são as mais atingidas e isso se acentua em cenários de crise política e econômica. Mulheres negras e jovens negros sofrem mais, sempre que há piora dos indicadores de pobreza, desigualdade e educação. No Brasil, os indicadores são vergonhosos – altas taxas de evasão no ensino médio e acesso limitado ao ensino superior. Sem falar em gravidez na adolescência, nos casos de violência contra mulheres e nos homicídios de jovens da periferia – os índices são alarmantes.

Neste sentido, estamos estruturando o Programa Mulheres e Meninas na Ciência, uma iniciativa prioritária para nossa presidente Nísia Trindade Lima, que integra a estratégia Fiocruz Rumo aos 120 anos. São três vertentes, a princípio: incentivo à produção das meninas na ciência, que se traduzirá num edital. A segunda dimensão é de memória institucional, valorizando a trajetória de pesquisadoras da Fundação. A última abrange os estudos de gênero, ciência e saúde. Precisamos ser agentes de incentivo, inspiração e transformação.

CVF: Falando em grandes agendas, a Vpeic tem liderado a implementação de políticas importantes para a Fiocruz, como Acesso Aberto ao Conhecimento, Comunicação, Internacionalização do Ensino. Você assume no momento em que as diretrizes sobre Ciência Aberta estão sendo debatidas junto à comunidade. Como estas políticas se traduzem em respostas para a sociedade?

Cristiani Machado: Além da educação, a Vpeic cuida da informação e da comunicação. A implantação da nossa Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, em 2014 é um marco. Soma-se a isso todo um arcabouço de instrumentos que sustentam a Política. Temos o Repositório Institucional da Fiocruz (Arca), que reúne os resultados de toda a nossa produção). O Portal de Periódicos Fiocruz, por sua vez, dá acesso aberto às sete revistas científicas editadas na instituição. Este mês, o Portal completou quatro anos e os resultados mostram o quanto vem contribuindo para a divulgação de revistas. Temos publicações bastante reconhecidas, mas é fato que a integração faz com que ganhem mais visibilidade. Ainda na área da informação, desenvolvemos o Observatório de CT&I em Saúde. E, na educação, o Campus Virtual Fiocruz agrega um conjunto valioso de informações sobre as ações formativas da Fiocruz, alcançando um público enorme. E, como mencionei, lançaremos o Educare para os REA.

Destaco também o papel da Editora Fiocruz, que completou 25 anos e está entre as mais importantes da América Latina na área de publicações científicas em saúde, com uma produção de altíssima qualidade. Atualmente, dos mais de 400 livros publicados, metade está disponível na SciELO Livros – uma parte em acesso aberto e sem custos, e outra parte por compra de e-books a preços mais acessíveis. São cerca de 43 milhões de downloads de livros e capítulos da Editora, o que representa mais de 50% dos downloads totais da SciELO Livros. É  um acesso expressivo, que mostra de nosso potencial para disseminar o conhecimento.

Enfim, somos uma potência na divulgação científica. Lembro, ainda, que oferecemos cursos de especialização e mestrado na área, com base na grande expertise da Casa de Oswaldo Cruz e do Museu da Vida – que promovem uma série de projetos e atividades educativas. A Vpeic lançou vários editais, incentivando projetos de divulgação científica, que podem ser apresentados por docentes e alunos da Fundação. Tudo isso tem a ver com a expansão da comunicação com os vários públicos da sociedade.

Mas, agora, nos preparamos para avançar para a Ciência Aberta, um processo muito mais complexo e gradual, que vai além de dar acesso a abrir os resultados de pesquisa, demandando diálogo e envolvimento de toda a comunidade. Quero destacar que a Ciência Aberta é uma nova forma de fazer e difundir a ciência, atrelada ao retorno que nossas ações têm em termos de impacto social e que isso vai requerer muito engajamento coletivo.

CVF: Pensar em integração, abertura e transparência no contexto atual é muito desafiador. Vivemos crises de toda ordem: questionamento do conhecimento acadêmico-científico, de instituições e autoridades, fakenews, emergências sanitárias... Tudo isso acirra a luta política e social por direitos, por mais cidadania e pelo fortalecimento da democracia. Como liderar neste cenário?

Cristiani Machado: Sim, é um enorme desafio!  Nós trabalhamos com pesquisadores, professores, estudantes, profissionais de saúde e gestores, assumimos um compromisso com a comunicação pública em saúde, junto aos governos, a mídia e, principalmente com a população. Por isso, a comunicação é um eixo estruturante, é estratégica na Fiocruz. E, justamente por isso, a própria Política de  Comunicação foi elaborada de uma forma participativa, coletiva, democrática, contemplando diferentes visões e vozes.

Temos espaços importantes e felizmente muito reconhecidos, que são exemplos de comunicação pública. É o caso do Canal Saúde, que está no ar na TV Brasil 17 horas por dia, com toda a programação na internet, e também é captado por antena parabólica comum. Um trabalho exemplar de uma emissora pública,  que atua em parceria com conselhos de saúde no país, produzindo e difundindo temas e conteúdos diversos, atuais e relevantes. Destaco também, entre tantos outros veículos, a Radis, uma revista de saúde com uma linguagem mais acessível e que alcança um público mais amplo, tanto profissionais de saúde, quanto leigos. Este é o caminho: trabalhar numa construção coletiva, dialogando com vários grupos sociais em diferentes campos. Com nossos pares e comunidade, fortalecendo a comunicação dentro e fora da Fiocruz, na arena política, com o governo e as instituições democráticas, junto aos territórios, nos aproximando dos cidadãos. Enfim, articulando a educação, a informação e a comunicação para dar as respostas que a sociedade espera da Fiocruz.

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