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16/08/2019

Pesquisadores participam de Treinamento Pré-Antártico


Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias)

A Antártica é um ambiente inóspito e extremo, para o qual é preciso estar preparado física e psicologicamente. Por isso, uma equipe de onze pesquisadores e cinco profissionais de comunicação da Fiocruz que integração as expedições científicas para o continente nos próximos anos participaram de um Treinamento Pré-Antártico (TPA) oferecido pela Marinha, na restinga da Marambaia, entre os dias 4 e 11 de agosto.


As atividades de preparação incluem treinamento físico, atividades práticas de simulação, noções de combate a incêndio e primeiros socorros (foto: Peter Ilicciev)

“A Antártica é um campo inóspito e pode ser muito inóspito. É muito imprevisível, tanto o tempo como o terreno, o vento, a neve e o frio. Ainda tem a vida a bordo de um navio ou futuramente na estação, que é muito limitada em termos de movimento, com convívio com muitas pessoas e um planejamento muito rigoroso por parte da Marinha, que é quem cuida de todas as operações. Então, a gente precisa se preparar para isso, adquirir todo conhecimento que é repassado”, explica Win Degrave, coordenador do projeto Fioantar. 

As atividades de preparação incluem treinamento físico, atividades práticas de simulação, noções de combate a incêndio e primeiros socorros, além de palestras sobre o ambiente antártico, a atuação brasileira e a geopolítica local. Alguns participantes tiveram ainda um treinamento específico para a situação de acampamento na Antártica.

O convívio intenso com outras outros pesquisadores, alpinistas e militares da Marinha é outro ponto-chave do treinamento. “Uma coisa muito importante do TPA foi trazer para cada um de nós como é que a gente vai se comportar diante do trabalho de grupo, diante de algumas intemperes que podem acontecer, quais são os nossos relacionamentos. No fim de tudo, essas coisas são mais importantes”, afirma a pesquisadora Marcia Chame. Para ela, a coesão do grupo e o relacionamento interpessoal entre diversas equipes de pesquisa e militares é essencial para um bom funcionamento do trabalho de todos em um ambiente de confinamento e clima extremo.


Alguns participantes tiveram ainda um treinamento específico para a situação de acampamento na Antártica (foto: Peter Ilicciev)

Esta é a primeira vez que a Fiocruz fará pesquisas na Antártica. O projeto FioAntar foi contemplado no último edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), que tem duração de quatro anos. 

“O Fioantar pretende verificar quais patógenos, entre vírus, bactérias, fungos e helmintos, estão presentes na Antártica e quais são naturais de lá e quais são trazidos por animais, por correntezas, por aves migratórias, correntes de ar, por pesquisadores, por visitantes e turistas. Com isso, tentar estimar o risco que eles oferecem pro continente sul-americano”, esclarece o coordenador, ao explicar que se trata de um projeto de vigilância e prevenção epidemiológica em longo prazo.

Para isso, a partir de novembro deste ano, os pesquisadores devem coletar amostras de água, solo, fezes e carcaças de animais na região das ilhas Shetland do Sul, onde fica localizada a estação brasileira de pesquisas. Essas amostras serão analisadas por diferentes laboratórios da Fiocruz em busca de possíveis ameaças para a saúde humana e passarão a integrar as coleções biológicas da Fundação.


Os pesquisadores também assistiram palestras sobre o ambiente antártico, a atuação brasileira e a geopolítica local (foto: Peter Ilicciev)

Além disso, o projeto possui um segundo eixo de bioprospecção. Os pesquisadores também irão buscar identificar organismos presentes nas mesmas amostras que tem potencial para desenvolvimento de novas tecnologias e produtos em saúde, como medicamentos e insumos.

“Os organismos extremófilos, que vivem em ambientes extremos e, portanto, desenvolveram ao longo de seu processo evolutivo competências fisiológicas e químicas para lidar com esse ambiente. Normalmente, esses organismos têm em sua constituição moléculas bastante diferentes do que nós vemos em outros lugares, capacidades diferenciadas. Isso abre portas para a bioprospecção”, explica Marcia Chame.

A visão de saúde pública e os possíveis benefícios para a população brasileira e o sistema único de saúde são o que norteiam os pesquisadores. “Nosso projeto é multidisciplinar. Ele é bastante peculiar porque a equipe que está indo a campo não é uma equipe que vai fazer o seu projeto individual, ela é uma equipe que vai a campo fazer uma coleta coletiva para que no retorno à Fiocruz esse material possa ser utilizado pelos grupos que compõem o projeto e também ser incorporado às nossas coleções e futuramente usados por outros grupos e instituições”, destaca Marcia, ao explicar que toda equipe está sendo treinada e desenvolvendo em conjunto uma nova metodologia para coleta.

Presença brasileira

Único continente não povoado, a Antártica é gerida pelo Tratado Antártico, que estabeleceu a utilização pacífica com fins de pesquisa científica para o continente. O Brasil é signatário do Tratado e possui assento em seu conselho consultivo, juntamente com outros 28 países. Além disso, o país é um dos poucos a ter presença permanente no continente, com uma base estabelecida desde a década de 1980.

A nova Estação Brasileira de Pesquisas Comandante Ferraz deve ser inaugurada em janeiro de 2020, após o incêndio da estação anterior. A nova base irá abrigar um laboratório da Fiocruz, o Fiolab, que será uma presença fixa da Fundação na Antártica e poderá desenvolver pesquisas ao longo dos próximos anos.

A proximidade geográfica entre a Antártica e a América do Sul faz com que o ambiente e o clima polares sejam extremamente relevantes para o nosso continente. O regime de chuvas sul-americano é fortemente influenciado pelas frentes frias, formadas no polo sul. Além disso, as mudanças climáticas, com influência no gelo antártico, nas correntes marítimas e o fluxo de aves migratórias abrem um amplo leque de pesquisas sobre a influência do ambiente antártico na América do Sul e no Brasil.

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