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Entrevista: Presidente da Fiocruz fala sobre os 35 anos da Escola Politécnica de Saúde


26/08/2020

Viviane Tavares (EPSJV/Fiocruz)

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No mesmo ano em que a Fiocruz faz 120 anos e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) completa 35 anos, enfrentamos a pandemia provocada pelo novo coronavírus, que ficará marcada na história da instituição, do Brasil e do mundo. Nesta entrevista, a presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade Lima, nos ajuda a revisitar o passado para compreender o presente e planejar o futuro: ela conta que foi como desdobramento e resposta às necessidades colocadas pela Reforma Sanitária que surgiram três das atuais unidades técnico-científicas da instituição, entre elas a Escola Politécnica (EPSJV), também conhecida como ‘Poli’. Naquele momento, assim como agora, a Fiocruz se abria para além da comunidade científica, participando e fomentando debate na sociedade, produzindo informação e apostando na formação. Seu papel, como nos tempos atuais, era fundamental para uma nova concepção e perspectiva de saúde. Nesta entrevista, a primeira mulher a se tornar presidente da Fundação, e que está à frente das diversas iniciativas de combate à pandemia, reflete sobre a importância da articulação entre todas as áreas da instituição no enfrentamento técnico da Covid-19, destacando o engajamento dos seus trabalhadores e estudantes. Relembra ainda o contexto histórico em que a EPSJV foi gestada e ressalta a importância dos trabalhadores técnicos em saúde antes e durante a atual crise sanitária.

EPSJV/Fiocruz: A Escola Politécnica da Fiocruz, que está fazendo 35 anos, nasce no contexto da redemocratização brasileira, num momento de grande mobilização da sociedade por pautas como saúde e educação. Qual era o papel e como era a atuação da Fiocruz naquele momento? Qual a participação da instituição na história do movimento sanitário e outras mobilizações que marcavam aquele período?

Nísia Trindade Lima: A Escola Politécnica surge como parte de uma visão que estava se forjando na Fiocruz e em outras instituiçőes de criar iniciativas que trabalhassem com questőes centrais para o próprio movimento da Reforma Sanitária. E uma delas era a educaçãoo com essa perspectiva politécnica. Naquele momento, a Fiocruz, na gestão Sérgio Arouca, começou a pensar o que deveria se fortalecer na instituição para que ela tivesse um direcionamento para as mudanças pelas quais o país passava no processo de redemocratização. É nesse contexto que se fortalece esse projeto, a partir da movimentaçăo de Sérgio Arouca, Luiz Fernando Ferreira, um dos grandes idealizadores da Escola Politécnica, Arlindo Fábio, e toda direção que estava junta naquele momento. No mesmo contexto surgiram a Escola Politécnica, a Casa de Oswaldo Cruz (COC) e o Centro dedicado à comunicação e informação científica, que depois viria a se transformar no Icict  [Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde]. Todos com uma proposta arrojada, inovadora, com uma visăo de abertura da Fiocruz para a sociedade.

A Fiocruz foi central na discussão da Reforma Sanitária junto com outras universidades, sendo que ela tinha uma característica peculiar. Se pegarmos os trabalhos de referência sobre a Reforma Sanitária, que são de Sarah Escorel, ela vai chamar a atenção para essa frente acadêmica e a Fiocruz, além de ser essa referência acadêmica, também vem como instituição do Ministério da Saúde, fortemente engajada em resoluçőes para o sistema de saúde. Acho que esse duplo lugar da Fiocruz foi importante para esse processo, além de um bando de ideias novas que estavam surgindo naquele momento. E o Poli surge nesse contexto.

EPSJV/Fiocruz: A ideia de politecnia, que marca a criação da EPSJV, pressupõe uma ampliação da concepção de educação, acrescentando a formação para o trabalho à educação básica e a incluindo a formação geral à formação para o trabalho. Existe relação entre essa concepção do campo educacional e as ‘inovações’ trazidas pela Reforma Sanitária, como o conceito ampliado de saúde e a ideia de determinação social da saúde?

Nísia Trindade Lima: Eu diria que pouco. Esse diálogo foi muito permitido aqui na Fiocruz por uma convergência de um movimento de educadores naquele período. Temos alguns de referência, como Gaudêncio Frigotto, da UFF [Universidade Federal Fluminense], que é a grande referência para os cursos da Poli. Era um movimento de educadores que colocavam a questão da educação emancipadora e diziam que a educação técnica deveria vir junto com um forte formação geral, que é o que está na base da Escola Politécnica. Muitos educadores da Fiocruz contribuíram para isso, como o Joaquim Cardoso de Melo, pessoa central no debate de educação em saúde, que revisitou uma forma tradicional de pensar educação em saúde que era muito ligada á normatizaçăo, diferente dessa visão mais crítica e emancipadora. Junto a eles, estavam muitos outros, como o Antenor Amâncio, que foi o primeiro diretor da Escola. Havia um grupo de jovens – não vou citar os nomes para não ser injusta –, alguns recém-formados, que estavam naquele momento fazendo mestrado, em início de carreira. E eles se encontraram na Fiocruz, que estava se abrindo para esse conjunto de saberes. Foi nesse momento também que eu entrei na instituição, eles foram da minha geração. E na Escola Politécnica o saber da educação foi muito importante. Não apenas a educação em saúde, mas também a relação da educação com a sociedade. Houve liderança científica nesse campo, que estava em processo de transformação.

A relação da politecnia com a Reforma Sanitária não é um tema central nos debates, mas também não estava ausente. Nós temos pesquisadores e toda uma tradição de educação em saúde no SUS. Não diria que foi um tema da Reforma, mas essa centralidade da politecnia, da perspectiva da educação, teve muito a ver com esse encontro entre os sanitaristas e educadores que estavam pensando aquele processo na perspectiva da redemocratização, com novas leituras, novas referências intelectuais, todo um processo muito intenso naquele momento. Agora, é importante mencionar que a preocupaçăo de formação de nível técnico não surge ali. 

EPSJV/Fiocruz: Além da pesquisa, desenvolvimento tecnológico, inovação, cooperação e produção, a Fiocruz é também uma instituição de ensino. E essas dimensões são historicamente associadas à pós-graduação ou ao nível superior. Qual a importância de a Fiocruz ter uma unidade que desenvolve também a formação de trabalhadores técnicos para a saúde?

Nísia Trindade Lima: Não era novidade olhar a formação técnica como algo importante e estratégico. Já havia dentro da tradição da formação da saúde pública brasileira muitos movimentos e esperanças nesse sentido. A Organização Pan-Americana de Saúde tem um papel muito importante. Tem até um livro publicado na Editora Fiocruz chamado ‘Recursos Críticos’, que traz a importância de alguns projetos que foram formadores e tiveram esse apoio da OPAS. Isso na década de 1970. Nem sempre essa história é valorizada, mas é importante. Não tínhamos mestrado e doutorado na época e, desde o início do trabalho da Fiocruz, quando nossos cursos estavam no Instituto Oswaldo Cruz, falávamos nos cursos de aplicação [como eram chamadas as formações para estudantes egressos da Faculdade de Medicina] , que funcionavam como formação para a pesquisa.

E o que tem de novo na criação do Poli? Ter uma unidade da Fiocruz focada exclusivamente nisso, embora inicialmente ele não tenha sido uma unidade técnico-científica da Fiocruz. Assim a Escola Nacional de Saúde Pública [outra unidade da Fiocruz] se voltaria mais para a pós-graduação. O que a Escola Politécnica traz é a centralidade do trabalhador técnico e a formação mais ampla, e não de cunho apenas técnico, mas emancipatório. Tinha que ser politécnico, pensando na politecnia de uma forma ampla  e, ao mesmo tempo, trazendo o aspecto do pensamento emancipador, de uma visão crítica. Era uma nova visão para a formação técnica. Era uma escola para formação de jovens, mas também colaboradora do Sistema Único de Saúde, que estava em processo de gestação. Que atua em colaboração com várias escolas técnicas em nível federal, contribui para formar professores para essas escolas com outro olhar. É uma escola no sentido dos alunos que abriga, mas é também um centro de referência para a formação mais ampla no país – e rapidamente isso se estendeu no final da década de 1990 para uma atuação muito importante de colaboração também com os países da América Latina e Caribe e da África. 

EPSJV/Fiocruz: Exatamente por essa concepção de educação que comentamos antes, a EPSJV desenvolve também educação básica para jovens que cursam a educação profissional integrada ao ensino médio regular e educação de jovens e adultos. Isso é uma particularidade da Fiocruz: uma instituição de saúde que oferece educação básica. Faz sentido? Qual a importância e a relação disso com o papel social da Fiocruz?

Nísia Trindade Lima: Acho que isso reforça porque temos uma instituição com um aparato de recursos educacionais muito importante, além de termos um grupo de professores extremamente qualificados. Ao oferecer essa educação, em especial a de adultos, estamos estreitando os laços com as comunidades, as favelas do entorno da Fiocruz e com a cooperação social. Eu mesma já tive a oportunidade de dar aula e participar de seminários para essa formação e acho que ela amplia a capacidade da Fiocruz. É uma visão que todas as instituiçőes públicas devem ter. O ensino noturno dando mais chance de formação, de conclusão do ensino médio, que é muito difícil para muitos jovens. As estatísticas para a conclusăo do  ensino médio são muito negativas no Brasil, há muita evasão. E usar nossas condições materiais e potencial humano para reforçar essas relações é muito importante. 

EPSJV/Fiocruz: A Fiocruz tem tido papel central no combate à pandemia de Covid-19, que reforçou na sociedade também a importância dos profissionais de saúde. Seja na linha de frente ou nos bastidores, estão trabalhadores técnicos: de enfermagem, análises clínicas, laboratório, radiologia, agentes comunitários de saúde, entre outros. Pela experiência que a Fiocruz está tendo nesse processo, qual o papel e a importância desses trabalhadores neste momento?

Nísia Trindade Lima: Eles têm uma importância crucial na linha de frente, como é o caso dos profissionais de enfermagem e todos os de análises clínicas, tão demandados em pandemias. E os que já são tradição de formação do Poli, como os agentes comunitários de saúde, que atuam na [Estratégia] Saúde da Família. A importância é muito grande e já está demonstrada, mas se deu de forma muito diferenciada. Há uma sobrecarga para o profissional de enfermagem, com uma pressão muito grande. Os médicos naturalmente também. Agora vai ser iniciada uma pesquisa liderada por nossa colega Maria Helena Machado, da Ensp/Fiocruz, para avaliar as condições dos trabalhadores da saúde como um todo nesse processo, principalmente nessa área de atenção especializada, dada a demanda dos casos graves da Covid-19, os cuidados intensivos... No caso dos agentes comunitários de saúde, eu faço um destaque: com muita importância e protagonismo do Poli, em associação com a Fiocruz de Brasília, do Ceará e de outros estados que tęm tradição nessa área, além da vice-presidência de educação, está sendo construído  um curso voltado para os ACS nesse contexto de pandemia.

Uma reflexão crítica que toda a comunidade da saúde coletiva faz hoje é que tivemos talvez um olhar muito direcionado para a atenção especializada hospitalar, que era necessária para a pandemia, mas que talvez tivéssemos que ter buscado fortalecer ao máximo a integração entre a atenção básica e a atenção especializada. Isso tem uma importância também na vigilância em saúde porque é a que melhor conhece a realidade, as populações vulneráveis – até para estabelecer testagem, estratégia de isolamento... Essa é uma grande riqueza que o Brasil tem e que não foi utilizada como poderia – claro, garantindo-se as condições de segurança individual de cada trabalhador. Este desafio ainda está posto porque a pandemia está em curso. E essa é uma grande necessidade. 

A atuação da Fiocruz na pandemia tem se dado em muitas frentes. Gostaria que você falasse sobre a articulação institucional, sobre a participação e cooperação entre as diferentes unidades e especialidades de uma instituição tão diversa nesse processo.

Tem sido uma construção diária, certamente com muitas falhas e problemas, mas com uma grande potência que tem se revelado e um grau de unidade muito forte. E posso dizer isso vendo o papel de nosso Conselho Deliberativo, formado pela direção de nossos institutos, mas também pela mobilização dos nossos trabalhadores querendo atuar. São muitos grupos mobilizados nas frentes. Eu criei uma coordenaçăo direcionada para a questão da pandemia e tem os pontos focais de cada um de nossos institutos, além da reunião periódica do Conselho. Isso para articular toda nossa capacidade interna. Há muitas cooperaçőes entre as unidades, naturalmente, com outros pares, como o Ministério da Saúde. Enfim, as nossas frentes vão desde a questão da vigilância, o papel muito importante do laboratório de referência de vírus respiratório e sarampo, a questão da produção dos testes em Biomanguinhos e no Instituto de Biotecnologia e todo esforço que estamos fazendo de apoiar os laboratórios centrais dos estados. Se dá também na atenção especializada na construção de um centro dedicado à Covid-19, que só foi possível por conta do engajamento de nossa instituição. É um centro vinculado ao nosso Instituto de Infectologia, que é muito importante também na pesquisa clínica. Estamos também com o edital Inova Fiocruz, que trabalha todas as áreas do conhecimento. A saúde é um objeto, um campo de práticas e teorias extremamente complexo. É impossível trabalhá-lo sem a articulaçăo dos conhecimentos. E com o edital do Inova procuramos fortalecer muitos projetos. Além disso, o próprio desenvolvimento de medicamentos. Nós estamos na linha de frente de um processo de produção de referência tecnológica da vacina de Oxford, considerada pela OMS [Organizaçăo Mundial de Saúde] a mais adiantada. Como instituição produtora de vacina e como instituição do SUS, podemos dar resposta rápida. E também estamos com  um grupo dedicado a açőes com populaçőes vulnerabilizadas, muito ligado ao trabalho da Escola Politécnica que, além dessas açőes específicas, é formada por um grupo de trabalhadores e estudantes que têm mostrado uma extrema solidariedade, como vimos no caso da construção do centro hospitalar. Foi o Poli que abrigou, nas suas instalaçőes, os trabalhadores que construíram o hospital, como área de descanso. Isso mostra exatamente a importância do engajamento institucional. Não adianta ter excelente competência técnica e não ter engajamento. Sendo assim, podemos ter resultados isolados muito importantes até com impacto para o sistema de saúde, mas não vamos mobilizar tudo aquilo que a instituição pode mobilizar. Nos dedicamos a mobilizar toda a Fiocruz no ano em que ela comemora 120 anos e teve que lidar com um desafio tão grande.     

EPSJV/Fiocruz: Além disso, a atuação da Fiocruz tem sido também num trabalho de informação e outras áreas de forma intersetorial para dar conta de um problema de saúde que é complexo e que deixa evidentes as desigualdades sociais. Como as desigualdades sociais se refletem nessa pandemia e como tem sido essa atuação da Fiocruz?

Nísia Trindade Lima: Nós sabíamos que as desigualdades sociais trariam grande impacto não só na forma de transmissão, mas também na de proteção a quem é acometido pela doença, em função da qualidade da atenção muito diferenciada e diversos outros fatores. Há vários níveis para se avaliar quando falamos sobre desigualdades sociais. Temos desde as condições socioambientais, acesso à água, saneamento, condiçőes para fazer o isolamento social até questões econômicas, numa realidade de muita precarização do trabalho. São essas as variáveis mais importantes quando falamos do impacto da pandemia. Mas existem outros aspectos que foram muito importantes dada a concentração de recursos nos principais centros, nas capitais, na atenção hospitalar…

Lançamos um edital para apoio a diferentes projetos, construído em conjunto com lideranças comunitárias e representantes da sociedade civil para fazer frente a essa pandemia. Estamos trabalhando nessa perspectiva com os povos indígenas, em articulação com suas lideranças. E um resultado positivo que nós tivemos foi um trabalho em rede com algumas favelas do Rio de Janeiro para elaboração de um plano no sentido de oferecer equipamentos que contribuam no enfrentamento da pandemia. Isso recebeu apoio da Assembleia Legislativa do Estado e a Fiocruz foi procurada para esse apoio. Teve uma articulação muito forte tanto em Manguinhos quanto na Maré [regiőes de favelas localizadas no mesmo território que a Fiocruz, no Rio de Janeiro]. E em outros estados onde a Fiocruz está presente tivemos também muitas açőes dessa natureza.

EPSJV/Fiocruz: Pela sua experiência na coordenação de todo esse trabalho variado que a Fiocruz está desenvolvendo neste momento, quais os principais ensinamentos que a pandemia trouxe para a sociedade brasileira? E o que se pode esperar como os próximos passos?

Nísia Trindade Lima: Dois ensinamentos são básicos. A importância de resposta que venha da ciência. Não é possível enfrentar uma pandemia como essa sem o conhecimento científico. E a outra questão central é a importância do Sistema Único de Saúde, que precisa ser fortalecido. O SUS precisa ser pensado não só como assistência, mas também na área de tecnologia e inovação, muito balizada atualmente, e que precisa ser reforçada. E outro aspecto importante que a pandemia nos ensina é que precisa ter mais Estado e mais sociedade. Falamos do Estado no sentido de termos políticas públicas fortes e políticas sociais de forma mais ampla. É preciso fortalecer no SUS o complexo industrial da saúde para superar essa vulnerabilidade de medicamentos, equipamentos e uma série de áreas em que podemos atuar. E o outro ensinamento é a necessidade de mais sociedade. Não é possível pensar soluçőes de baixo para cima. É muito importante uma forte participação social, açőes de controle social para desafios difíceis que são impostos. Como, por exemplo, manter açőes coletivas com tanta fragmentação, com isolamento, com a dificuldade de contato? Muitas coisas teremos ainda que aprender. E esse aprendizado é importante porque năo se trata só do enfrentamento dessa pandemia, mas de estarmos preparados para pensarmos também um sociedade que tenha mais proteção social, que lide diferente com a questão ambiental e com a própria ciência e tecnologia.

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