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Abertura do Abrascão reforça gestão pública e participativa


26/07/2018

Fundação Oswaldo Cruz

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Após abrir oficialmente, nesta quinta-feira (26/7), o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão), o presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gastão Wagner de Sousa Campos, fez uma homenagem à vereadora carioca assassinada Marielle Franco (PSOL) e entregou uma placa à sua irmã, Anielle Silva. O auditório que sediou a conferência de abertura do evento recebeu o nome da vereadora.

Além do presidente da Abrasco, participaram da mesa de abertura a médica e ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, o representante da Opas/OMS no Brasil, Joaquín Molina, o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Leher, a vice-reitora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maria Georgina Washington, o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Ronald dos Santos, a diretora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Unirio, Ana Maria Mendes Monteiro Wandelli, o professor de saúde pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) Aluísio Gomes da Silva Junior, a diretora da Organização Mulheres de Atitude (OMA) Patrícia Evangelista, e o especialista em Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da Fiocruz Guilherme Franco Neto. A conferência de abertura foi feita por Michelle Bachelet.

O presidente da Abrasco, Gastão Wagner, e a irmã da vereadora Marielle Franco, Anielle Silva, na homenagem à vereadora assassinada na abertura do evento (Foto: Rafael Venuto)

“Esse evento, assim como os demais, são híbridos e científicos, mas ao mesmo tempo tem caráter político, em que a comunidade da saúde coletiva vem para trocar ideias, para discutir, escutar, aprender e tirar diretrizes, plataformas e projetos para o trabalho dos próximos anos. É um congresso que serve também para recarregar a energia e confirmar para nós mesmos, e para outras pessoas, que a esperança somos nós. Precisamos de gestão pública e participativa”, explicou.

O presidente da Abrasco afirmou que o Brasil está vivendo um momento complicado no que se refere a direitos, liberdade e democracia, mas recordou que em 2018 completam-se 30 anos da Constituição de 1988 e 30 anos do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele disse que a escolha da Fiocruz para sediar o evento se deu porque é uma das instituições mais antigas da saúde pública brasileira e que honra o SUS.

“A Fiocruz é uma instituição pública que vem resistindo há anos a diversas conjunturas, mostrando que a ação política não é onipotente, não resolve todos os problemas e que a esperança somos nós. Ela vem conseguindo se organizar de forma efetiva, eficiente e republicana, sem o recurso da privatização”, completou Campos. Mais de 7,5 mil pessoas se inscreveram no Abrascão, no qual serão apresentados 5,4 mil trabalhos.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, iniciou sua participação afirmando que o Abrascão é um grande "abração" que toda a comunidade da saúde coletiva se dá, pela importância desta manifestação pela saúde e pela democracia, não só para o Brasil mas para todos os povos, especialmente os latino-americanos. "Quero agradecer a oportunidade que a Abrasco nos deu de sediar, no campus de Manguinhos da Fiocruz, este importante evento, em um momento em que lembramos o centenário do nosso Castelo, um símbolo da ciência voltada para a saúde, para a cidadania. A Fiocruz está em festa, comprometida com esse evento e muito agradecida pela presença de todos", afirmou Nísia.

A presidente da Fiocruz, Nisia Trindade LIma, defendeu a ciência e a saúde comprometidas e vinculadas à luta por um país, uma sociedade e um mundo melhor (Foto: Rafael Venuto)

A presidente da Fiocruz reforçou o lema “Saúde é democracia”, que segundo ela, vem sendo repetido pela comunidade da Abrasco e pela Fiocruz, sob inspiração de Sergio Arouca.  “Saúde é democracia e também desenvolvimento. É parte essencial do processo de reconstrução democrática que pode dar régua e compasso a um novo projeto de construção de possíveis futuros. Este talvez seja o significado mais profundo deste congresso estar sendo sediado na Fiocruz: a ciência e a saúde comprometidas e vinculadas à luta por um país, uma sociedade e um mundo melhor. Que este espaço de convivência, de debates e de propostas possa assumir a emergência das necessidades presentes com novos sonhos e novas lutas para um novo projeto de sociedade”, concluiu.

O reitor da UFRJ, Roberto Lehrer, abordou três eixos em apresentação: SUS, democracia e direitos sociais. Afirmando que o SUS “é uma construção política fundamental para garantir melhores condições de vida para a população”. Ele criticou os planos de saúde, que pervertem o conceito de saúde e são, na verdade, “fundos de investimento financeiro”.
Ao falar sobre democracia, Lehrer afirmou que a emenda constitucional  95 é uma forma de impor uma reforma de Estado, “estamos vivendo uma autocracia”. Para o reitor, todos os espaços públicos que produzem conhecimento estão ameaçados e “professores estão sendo criminalizados por cursos que oferecem”. Ele apontou como consequência do que chamou de “retrocesso da democracia” o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, em outubro do ano passado, dias depois de ter sido preso e afastado do cargo.

Ele lembrou ainda do que chamou “assassinato político” de Marielle Franco e Anderson Gomes como parte da conjuntura antidemocrática atual. “Mas precisamos olhar para o futuro, construindo alianças para defesa do SUS e da democracia”, encerrou Lehrer, defendendo ainda que “não devemos silenciar diante do processo ilegítimo que retira o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do debate político, impedindo que ele possa pleitear a candidatura à presidência da república”.

A vice-reitora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maria Georgina Muniz Washington, destacou como a universidade resiste, há dois anos, à crise financeira do país. “Cada vez que íamos sucumbir, pessoas e entidades nos seguraram. Pessoas que tiveram coragem, como Marielle Franco, e que nos apoiaram, como a Abrasco e a Fiocruz, que sempre estiveram lado a lado conosco. Este abraço que nos fizeram resistir”, ressaltou. A reitora ainda alertou sobre uma tentativa de destruição do ensino superior público e da saúde pública e da necessidade de haver resistência e comprometimento.

O Abrascão reunirá, de quinta-feira a domingo (26 a 29/7), mais de 7,5 mil pessoas no campus da Fiocruz (Foto: Rafael Venuto)

O diretor de Saúde Coletiva da UFF, Aluísio Gomes Junior, saudou toda a comunidade da saúde coletiva e falou do receio inicial sobre a escolha do Rio de Janeiro como sede do Congresso, até compreender a dimensão do ato como um marco de resistência. “Confesso que a princípio me assustei com a proposta de fazermos o evento no Rio, dada a situação das instituições, passando por desmontes e ataques, além da violência e do abandono enfrentados pela cidade e pelo estado. Cheguei a me perguntar, quem é o maluco que teve essa ideia? E a resposta é que somos nós os malucos. Nós, que encaramos essa crise como um desafio de construir um congresso nesse ambiente hostil, mas que precisava de uma resposta forte e coletiva, dada por uma aliança grande de instituições, movimentos e pessoas que pudessem mostrar à sociedade que é nessa crise que temos possibilidade de discussão, construção e de apresentar alguma coisa diferente”.  E complementou sua participação chamando à unidade na luta pela saúde coletiva: “essa é uma oportunidade de trabalharmos juntos e juntar esforços para enfrentarmos juntos os desmontes”. O diretor encerrou sua fala saudando todos que acreditam na saúde, na democracia e na escola pública.

O discurso do presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Ronald dos Santos, destacou o eixo “democracia” no 12º Congresso da Abrasco, que também será a proposta temática da 16º Conferência Nacional de Saúde, “8ª + 8, Democracia e Saúde”, para afirmar a soberania da vontade popular como ação necessária e estratégica para defesa do Sistema Único de Saúde. Santos diz que a luta pela democracia deve ser por meio da inteligência coletiva e colocar em curso a participação popular. O presidente do CNS propôs a refletir sobre “o que nos move a ponto de estarmos reunidos neste 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva? Que força é essa que pulsa dentro de nós, e que até quando exaustos nesta batalha ela ainda é capaz de nos reerguer para honrar nossa luta? Há lago inexplicável e sublime, que mesmo diante do massacre do SUS e dos nossos direitos, da democracia, faz com que estejamos juntos. Emergir da crise social e política é urgente, é necessário, é imprescindível”.

Após a intervenção do presidente do Conselho Nacional de Saúde, a diretora da Organização Mulheres de Atitude (OMA) Patrícia Evangelista problematizou as diversas formas de violência vividas pela população brasileira, em especial nas periferias. Moradora e liderança comunitária de Manguinhos, que na quarta-feira (25/7) sofreu com mais uma tarde de tiroteios, Patrícia também representava na mesa a presença dos Movimentos Sociais no Abrascão. “O desmonte que o SUS vem sofrendo talvez seja a maior dessas violências. No Rio de Janeiro vemos a redução significativa dos Agentes Comunitários de Saúde e o comprometimento do funcionamento da Estratégia de Saúde da Família com cortes de orçamento”, denunciou. Dividindo o palco com a mesa e o púlpito, a faixa de protesto da Comissão dos Agentes Comunitários de Saúde (Comacs-Manguinhos) corroborava: “Não existe saúde preventiva no SUS sem Agente Comunitário”. Patrícia concluiu o discurso enfatizando que o sistema público de saúde, os direitos, e a democracia só podem ser fortalecidos – como anuncia o emblema do Congresso deste ano – na união entre ciência, o campo das políticas públicas e o movimento popular de massa.

A diretora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Unirio, Ana Maria Mendes Monteiro Wandelli, afirmou que apesar de ser recente ainda, o órgão, inaugurado em 2016, acredita no valor da área de saúde coletiva e por isso foi criado. "O ISC nasceu com a missão de transcender o disciplinar e inserir a Unirio no cenário de produção e aplicação crítica dos conhecimentos teóricos e práticos na saúde coletiva. Participamos deste evento muito orgulhosos e nos colocando à disposição de toda a sociedade de saúde coletiva". 

O especialista em Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da Presidência da Fiocruz e coordenador da Comissão Local Organizadora do 12º Abrascão, Guilherme Franco Neto, encerrou a conferência de abertura lendo o poema E agora, José?, de Carlos Drummond de Andrade e concluiu: "Que o Abrascão nos mostre para aonde queremos ir. Parabéns a todos e vamos fazer um belo Congresso".

Colaboraram: Glauber Tiburtino, Gustavo Carvalho, Kath Lousada, Luiza Gomes, Maria Fernanda Romero e Viviane Oliveira

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