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Pesquisa analisa atuação de doulas no Rio de Janeiro

Mãe com bebê recém-nascido no colo

30/01/2020

Por: Julia Neves (EPSJV/Fiocruz)

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Enquanto escrevo essa reportagem, no dia 29 de janeiro, Mikael Felipe pode nascer a qualquer momento. Moradora de Quintino, zona norte do Rio de Janeiro, Sara Pereira tem 18 anos e está com 40 semanas e quatro dias de gestação. Apesar da ansiedade de ver o rostinho do filho, a mamãe de primeira viagem revela que está emocionalmente preparada para essa tão esperada chegada. Isso porque ela conta com o apoio de uma doula, a Flávia Casciano. “Tivemos duas visitas, nas quais ela me auxiliou bastante, dando dicas de como ter um parto respeitoso e me ensinando a amamentar. Nosso vínculo foi mais do que profissional, foi de amiga para amiga, porque ela me passa confiança, segurança, amor, carinho, compreensão e tudo mais”, diz Sara, que faz o pré-natal na Casa de Parto David Capistrano Filho, no bairro de Realengo, também na zona norte.

No dia 8 de janeiro, durante uma visita, Flávia percebeu que Sara estava com as pernas muito inchadas. “Deixei ela sentada, preparei um escalda-pés com ervas e sal grosso e fiz uma massagem relaxante”, relata a doula. Enquanto isso, elas conversaram sobre medos e ansiedades da gestante, protocolos hospitalares, métodos de indução disponíveis, fases do trabalho de parto, plano de parto e métodos de alívio da dor.

Sara e Flávia se conheceram na roda de conversa de gestantes ‘Ishtar’, um grupo de apoio ao parto normal coordenado pela doula em Madureira, bairro bem próximo de Quintino. “Conversamos ao final da roda e ela se interessou pelo acompanhamento. Fechamos o contrato 15 dias depois, embaixo do viaduto Negrão de Lima”, conta Flávia, que afirma que escolheu ser doula depois da gestação do primeiro filho: “Eu fiquei com um sentimento, de quase obrigação de passar para outras mulheres tudo que aprendi e, quem sabe, proporcionar uma experiência tão transformadora quanto foi a minha”.

Aos 26 anos, Flávia também coordena as rodas de conversa do bairro de Bangu e do município de São João de Meriti. Ela conta que iniciou na carreira de doula ajudando as amigas justamente nesses espaços de diálogo. “Eu queria poder apoiar aquelas mulheres não só durante a gestação, mas também na hora do parto”, relembra, contando que a partir daí se inscreveu e participou da primeira turma do Curso de Qualificação Profissional de Doula, realizada em 2018 pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com a Associação de Doulas do Rio de Janeiro (Adoulas-RJ). Nesse pouco tempo de formada, ela já acompanhou cinco gestantes. “O curso foi essencial. Eu aprendi que a doula tem como função trazer informação de qualidade e dar suporte físico e emocional para a mulher durante a gestação, o parto e também no pós-parto. Somos a única profissão no ambiente do parto que não faz procedimentos técnicos, estamos ali unicamente para olhar e cuidar daquela mulher”, define.

É também em Madureira que mora Rayanne Monteiro que, há três meses, viveu uma experiência semelhante a de Sara, considerada por ela, “a mais incrível de toda a vida”. No dia 8 de outubro, depois de dois dias de trabalho de parto em casa, ela deu a luz a sua primeira filha, Zahara, na maternidade privada Perinatal. Mesmo com a dor das contrações, a jovem de 25 anos se manteve tranquila durante todo o tempo, graças a uma figura que, na caracterização de Rayanne, foi "um tanto quanto essencial": a doula Louise Munier. “Assim que minha filha nasceu, ela já veio para o meu peito, para o meu colo. Eu a amamentei ainda na sala de parto”, conta a mãe.

Para Rayanne, o trabalho da doula é fundamental. “Te empodera e ajuda muito mais, principalmente, se a pessoa conseguir ter o pré-parto e o pós, para ajudar na amamentação e tirar todas as dúvidas”, destaca. Em seu relato, ela conta como chegou à profissional. “Assim que descobri que estava grávida comecei a procurar sobre parto humanizado e fiquei sabendo da existência das doulas. Comecei então a procurar por doulas negras, por questões pessoais. Pelas redes sociais, cheguei até a Louise”, relembra. Ao todo, foram três encontros pré-parto – sendo o primeiro para apresentação e os outros dois para educação perinatal –, e um pós-parto. “Basicamente falamos sobre gestação, fisiologia do parto, amamentação, primeiros cuidados com o bebê, escolha da equipe e local do parto”, acrescenta Louise.

Antes de Zahara nascer, Louise sugeriu que Rayanne fizesse acupuntura, caminhada e outros exercícios para ajudar a preparar o corpo e a mente para o trabalho de parto natural. “Caminhei bastante e fiz os exercícios que a Louise me passou, alguns na bola de Pilates... Buscamos todas as formas naturais para me ajudar”, afirma, lembrando dos momentos que antecederam o parto. “Às 15h do dia 7 de outubro, decidi ligar para Louise. Ela chegou rapidinho e começou a nos auxiliar com os exercícios para aliviar a dor, e aí foi ajudando meu marido também a fazer massagem em mim. Ela me deu a ideia de tomar um banho quente porque alivia muito a dor das contrações”.

Emocionada, Rayanne ressalta o apoio da doula durante todo o processo: “Fomos para a maternidade às 2h. Foram 15 horas lá e a Louise ficou o tempo todo comigo. A Zahara estava mal posicionada, e tivemos que fazer alguns exercícios de ‘spinning baby’ para desencaixar e ela conseguir descer depois certinha. E nesses exercícios, a Louise foi fundamental. Meu marido ficou confiante porque ela conseguiu passar muita informação para ele, e aí ele sabia o que fazer, como agir”, disse. Um dos instrumentos usados pela doula foi o rebozo, um tecido , símbolo da cultura do México há mais de 400 anos, que pode  funcionar como um alívio às dores da contração.

No encontro pós-parto, que aconteceu dia 12 de outubro, Louise foi até a casa de Rayanne auxiliar na amamentação. “Se eu não tivesse tido o suporte aqui em casa, teria tido fissura, teria me machucado, porque ela me ensinou a amamentar. Ela viu que estava começando a fissurar e falou que se não corrigisse poderia agravar e atrapalhar a amamentação. Muitas pessoas desistem de amamentar por conta disso”, lamenta.

Um dos momentos mais legais para a recém-mamãe foi a pintura da placenta. Rayanne conta que optou por fazer em casa e a doula trouxe a tinta: “Foi um momento muito agradável, minha família estava toda aqui reunida”. E você pensa que acabou? “Depois disso, nós continuamos conversando e nos falando até hoje. Qualquer dúvida que eu tenho ela me ajuda”, continua Rayanne, que mesmo após ser mãe, não deixa de ir no coletivo 'Doulas Nascer em Mim', que Louise coordena. “Acho que é importante a gente falar para as outras mulheres que elas conseguem parir e só precisam de uma boa assistência”, comemora.

Com o parto de Rayanne, Louise contabiliza mais de dez no seu currículo. Formada como doula há pouco mais de um ano, ela fez o curso com a primeira doula do Brasil, conhecida como Fadynha. “O nosso papel é munir a família de informações com embasamento científico e atualizado, não realizando nenhum tipo de procedimento técnico. E, mais que isso, ser doula é ser um profissional empático, que visa sempre a autonomia da mulher e busca ouvir, compreender e respeitar as demandas de cada família que chega até nós. Ser doula é praticar a empatia a cada atendimento, e entender que cada família é única”, define Louise.

O universo de doulas no Rio de Janeiro
Flávia integra o conjunto das 17% de doulas com ensino superior incompleto no estado do Rio de Janeiro. Ela trancou a faculdade de Geografia na Universidade Federal Fluminense (UFF) no 6º período. Além disso, ela está entre as 75% das doulas que exercem outra profissão. “Além de doula, sou fotógrafa, faço principalmente fotos de família e partos”, conta.

Já Louise, com 35 anos, está entre as 25% profissionais que atuam somente como doula e tem nível médio completo (13%). Hoje, além das clientes privadas, ela atua como voluntária, assim como 50% das doulas do Rio de Janeiro. “Foi na minha segunda gestação, que fui acompanhada por uma doula e conheci o projeto de ‘Doulas voluntárias’ da maternidade Herculano Pinheiro, em Madureira. Isso despertou em mim a vontade de estar do outro lado, esse desejo de auxiliar outras mulheres e, assim, minha primeira ação foi me inscrever para participar do projeto”, relembra.

Flávia e Louise estão entre as 70% de doulas que já são mães e das 42% que se declaram pretas ou pardas. Esses dados fazem parte dos resultados preliminares do 'Mapeamento de Doulas em atuação no estado do Rio de Janeiro' – uma pesquisa em andamento, produzida pela EPSJV/Fiocruz e pela Adoulas-RJ. Iniciado em agosto de 2019, o estudo tem o objetivo de identificar e analisar o perfil das doulas, suas práticas, seus territórios e espaços de atuação no estado do Rio de Janeiro, visando à construção de conhecimentos sobre o modelo de atenção no qual estas profissionais estão integradas.
Numa primeira fase, foram coletados 195 questionários válidos (50% acima do previsto) no período de 27 de agosto a 6 de outubro de 2019, pela plataforma FormSUS, com 82 questões no total.

A pesquisa traz ainda outros resultados: 100% das respondentes indicaram serem do sexo feminino e 51% têm entre 31 e 40 anos. Além disso, 69% têm nível superior completo. Somente 1% não completou o ensino médio. Há doulas morando em 34 municípios do Rio – destas, 61% moram na capital e 62% têm renda mensal de até três salários mínimos, sendo 27% responsáveis principais pelas finanças da casa.

Em relação à formação específica, 59%indicaram possuir formação na área de saúde. Destas, 20% afirmaram ser psicólogas, 18% técnicas de enfermagem, 17% enfermeiras e 9% enfermeiras obstétricas. Segundo Morgana Eneile, presidente da Adoulas-RJ, uma das questões que mais intrigavam no início da pesquisa era a porcentagem de doulas com outra formação na área da saúde. “É muito comum que antes de entrarem no curso de doulas perguntem se é exclusivo para profissionais da saúde. Não é. Quando o estudo aponta que 59% têm formação na área da saúde, isso nos dá uma das características das profissionais que estão em atuação hoje, mas isso também deixa claro a não exclusividade, uma vez que 40% não viram a necessidade de ter esse tipo de formação”, aponta.

O estudo também desvendou se a formação de nível médio como um critério para exercício da profissão corroborava ou não com a realidade de atuação dessas profissionais. “Ficou explícito que a maior parte das doulas já tem graduação em outras áreas, o que combina com o fato de que elas exercem outras profissões. Isso coloca como possível o recorte de que nível médio é suficiente para o exercício dessa profissão”, avalia.

Formação na Escola Politécnica
De forma inédita no Brasil, a EPSJV/Fiocruz iniciou, em outubro de 2018, o Curso de Qualificação Profissional de Doula. Trata-se de uma parceria com a AdoulasRJ e com outra unidade da Fiocruz, o Instituto Fernandes Figueira (IFF), referência em saúde materno-infantil. Com duração de 240 horas, envolvendo aulas teóricas e práticas supervisionadas, o curso tem como público-alvo a pessoas com ensino médio completo que desejam atuar no desenvolvimento de atividades de auxílio físico, informacional e emocional junto a gestantes, parturientes e puérperas. A seleção levou em consideração o ativismo das candidatas em movimentos sociais ou redes ligadas aos direitos das mulheres. A segunda turma do curso teve início em outubro de 2019, com previsão de término em junho de 2020.

Para Morgana, parir não deve ser um ato solitário e é preciso que a mulher se sinta segura e acolhida.A relevância do trabalho da doula faz com que Morgana afirme: “Uma função milenar tornada profissão merece um olhar atento quanto à qualificação”. Ela destaca que uma boa doula reúne informações sobre as transformações fisiológicas e sobre o cenário de atenção ao parto, auxiliando as gestantes com dúvidas, alívio não farmacológico através de diversas técnicas e terapias integrativas. “É preciso estar sempre atenta à parturiente para apoiar e escutar ativamente. Uma formação integral implica reconhecer aspectos tanto teóricos, quanto práticos”, ressalta.
 

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