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Mais de mil mortes diárias de Covid-19 – o novo normal?


04/03/2021

Fonte: Boletim do Observatório Covid-19 Fiocruz

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A partir da segunda semana epidemiológica de 2021, iniciada em 17 de janeiro, o Brasil voltou a apresentar médias diárias de mil óbitos por dia, patamar que tem se mantido nas últimas cinco semanas. Essa média não era registrada no país desde a semana epidemiológica 34, que compreende o período de 16 a 22 de agosto de 2020. Além das mortes, também o número de casos se encontra entre os mais altos desde o início da pandemia. Na primeira semana epidemiológica de 2021, foram registrados 359.593 casos (média diária de mais de 50 mil casos), comparando-se com o pico alcançado na semana 30 (19 a 25 de julho de 2020), quando o número de casos registrado foi de 319.389. Em comparação com o cenário mundial de retrocesso do coronavírus, o Brasil caminhou para o crescimento de casos sem jamais ter saído de patamares altos de óbitos e casos. 

Este contexto de mais de mil mortes diárias combina desafios já conhecidos, assim como novos. Dentre os já conhecidos, destacamos os relativos ao sistema de saúde e profissionais sobrecarregados, convivendo com a ausência de políticas de mitigação envolvendo medidas não-farmacológicas como distanciamento físico e social e uso de máscaras, com o objetivo de reduzir a velocidade da propagação, diminuindo o pico de demanda de serviços de saúde e protegendo aqueles com maior risco de doença grave contra infecções. Dentre os novos desafios, destacamos a chegada das vacinas e o lento processo de vacinação que vem se desenhando, combinado com o surgimento das novas variantes que envolvem tanto o potencial de serem mais transmissíveis, como contextos que favorecem a transmissão por conta da ausência de medidas de mitigação amplas, articuladas entre todos os setores da sociedade e integradas nos diferentes níveis de governo. 

Sistema de saúde e profissionais sobrecarregados 

Treze unidades federativas e dezessete capitais estão na zona de alerta crítica, com taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos de pelos menos 80%. Esta é apenas a ponta do iceberg. A sobrecarga no sistema de saúde impacta a qualidade dos serviços, o acesso da população aos cuidados de saúde, seja para a própria Covid-19, seja para outros problemas, e resultados assistenciais. Também impacta simultaneamente os trabalhadores da saúde. 

Desde o início da pandemia de Covid-19 tem se observado, além da alta incidência de Covid-19, o aumento do número de casos de insônia, ansiedade e depressão, entre outros problemas, em situação comparável àquelas relatadas em períodos de guerra. A síndrome de Burnout tem sido relatada e os estudos mostram que fatores tais como a sobrecarga de trabalho, a desorganização do processo de trabalho, a escassez de EPI, o medo de adoecer e a privação do convívio com a família, contribuem, sobremaneira, para que esse quadro se instale. Forma-se uma espiral em que a superlotação e a demanda contínua nos serviços de saúde esgotam a capacidade de resposta e os profissionais. 

Novas variantes do Sars-CoV-2 

O surgimento de novas variantes que abrigam mutações na proteína Spike e que podem impactar a aptidão viral e a transmissibilidade tem sido uma questão de grande preocupação, particularmente após a identificação de variantes independentes do vírus Sars-CoV-2, emergentes no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil. A última, a variante Sars-CoV-2 B.1.1.28, foi reportada em 2 de janeiro, pelo Ministério da Saúde japonês, a partir de detecção em quatro viajantes que retornaram ao Japão após visita ao Amazonas. O Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), que também sequenciou e identificou a variante no Amazonas, aponta a observação de mutações no vírus, naquele estado, desde abril de 2020, o que sugere a possibilidade de uma linhagem emergente no Brasil. 

Uma das principais preocupações neste cenário é se as vacinas Covid-19 serão capazes de nos proteger contra a infecção das novas variantes do Sars-CoV-2. Existem diversos tipos de vacina e o que se sabe até aqui é que cada uma pode se comportar de forma distinta em relação à manutenção da eficácia diante das novas variantes. Por outro lado, ainda não existe consenso científico sobre um maior potencial de transmissibilidade de cada uma das variantes identificadas, tampouco está definido se causam maior letalidade em decorrência de formas mais graves de apresentação da doença. A única certeza é que o aumento da transmissão viral, que cria maiores oportunidades para o surgimento de variantes do Sars-CoV-2, amplia o terreno das incertezas neste cenário. Desta forma, torna-se ainda mais imperativo o esforço de romper, ou desacelerar, a rede de transmissão do vírus por meio de medidas não farmacológicas. 

Medidas de controle e prevenção parcialmente adotadas 

Desde o início da pandemia foi claramente colocada a necessidade de medidas não-farmacológicas para mitigação, de modo a reduzir a velocidade da propagação e o crescimento do número de casos, visando diminuir a demanda e sobrecarga dos serviços de saúde, principalmente entre os que possuem maior risco de doença grave contra infecções, evitando a elevação dos números de óbitos. Para evitar futuras ondas, como a que estamos enfrentando agora, seria fundamental que os órgãos de governo adotassem um conjunto de medidas não-farmacológicas de mitigação com ênfase e apoio para o isolamento e distanciamento físico e social, uso de máscaras em larga escala, com redução de deslocamentos pelas cidades, garantia de transporte adequado e oferta de locais para quarentena, quando necessário. Essas medidas deveriam envolver, além de legislações e decretos, campanhas para adesão da população às mesmas. 

Nos últimos dias diversas prefeituras voltaram a adotar medidas de restrição de atividades e mobilidade, como o bloqueio parcial de estradas, toque de recolher e limitação de horário do comércio. Medidas ainda mais restritivas podem ser implementadas nas próximas semanas, sendo necessário, no entanto, o planejamento e coordenação regional de ações, bem como a fiscalização efetiva dessas medidas. Algumas iniciativas municipais, apesar de coerentes com o momento atual da epidemia, podem acarretar efeitos contrários ao desejado, como o estímulo à circulação entre cidades, e a aglomeração de pessoas em poucos lugares de encontro, como alguns bares e pontos comerciais que permanecem abertos ou funcionam clandestinamente.

As medidas não-farmacológicas são fundamentais até que a maior parte da população esteja imunizada. No entanto, com a chegada das vacinas (em dezembro de 2020 em vários países, e em janeiro de 2021 no Brasil), um ano após o início da pandemia, medidas restritivas envolvendo principalmente distanciamento físico e social, ainda que não tenham sido efetivamente implementadas em muitos estados e municípios, apresentam também um desgaste por seus efeitos na economia, nas atividades de ensino e lazer, na vida cotidiana e familiar como um todo. A chegada das vacinas, que representa uma grande conquista para o enfrentamento da pandemia, parece trazer, ao mesmo tempo, para muitos, a sensação de que a pandemia está sob controle. Esta complexa combinação ocorre exatamente em um momento da pandemia no país que é bastante grave. 

Diante dos desafios expostos, é importante que se estabeleça uma comunicação efetiva e coordenada por parte dos governos, autoridades sanitárias e meios de comunicação, para que a população compreenda a necessidade de continuar seguindo os protocolos de distanciamento físico e social, uso de máscaras e também da vacinação. Sabe-se que a disponibilidade de doses de vacinas é ainda insuficiente, sendo inicialmente atendidos grupos prioritários, dada a sua vulnerabilidade. Neste momento ainda é crucial manter e ampliar as medidas de mitigação, ao mesmo tempo em que devem ser realizados todos os esforços para garantir a melhor distribuição das vacinas, a ampliação de doses disponíveis e a ampla cobertura vacinal necessária. A redução drástica do número de casos graves e de óbitos neste momento é mandatória. Mais de mil mortes diárias não podem ser tratadas com um novo normal!

* Texto originalmente publicado por um grupo de pesquisadores da Fundação na nova edição do Boletim Observatório Covid-19 Fiocruz (26/2/2021). 

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