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Capitalismo, direitos e democracia são temas do 1º Grande Debate no Abrascão 2018


27/07/2018

Gustavo Mendelsohn de Carvalho (Agência Fiocruz de Notícias)

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O primeiro Grande Debate do Abrascão (26/7) teve como convidado o sociólogo Jessé Souza e foi coordenado pelo pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Ary Miranda, que definiu o encontro como “uma reflexão que articule a crise atual no capitalismo internacional e seu impacto na realidade brasileira, na questão dos direitos e o processo democrático”. Ele citou a contribuição de Jessé no livro A Elite do Atraso, “que traz uma crítica contundente à ideia da herança patrimonialista da cultura portuguesa no Brasil, quando o fundamental advém da opressão de negros escravos e índios, da exploração da força trabalho que persiste, e é acentuada no momento que estamos vivendo, a ave de rapina do Estado brasileiro não são seus políticos, é o grande capital”.

O primeiro Grande Debate do Abrascão (26/7) teve como convidado o sociólogo Jessé Souza e foi coordenado por Ary Miranda, pesquisador da Fiocruz (foto: George Maragaia)

Jessé Souza iniciou sua apresentação propondo aprofundar a discussão sobre o capitalismo financeiro, segundo ele, responsável pelo que vivemos hoje no país, que “junto com a elite de rapina brasileira que nunca teve um projeto de longo prazo, promove um ataque virulento e insidioso, refletindo o descontentamento dos capitalistas, a partir dos anos 70 e 80, com o capitalismo social que se constrói depois da Segunda Guerra Mundial”. Nesse período, depois de tantas mortes e destruição, o movimento dos trabalhadores passa a impor uma agenda de mudanças, “sem obviamente destruir o princípio de acumulação que caracteriza o capitalismo, mas, de algum modo, limitá-lo a partir da taxação progressiva de quem ganhava mais em benefício de quem ganhava menos”.

O sociólogo analisa que isso acontecia com predominância da burguesia industrial, “que é a fração mais racional do capitalismo, pois exige condições de longo prazo para que tenha progresso industrial, exige que você pague bons salários aos trabalhadores, senão eu quem é que vai comprar as mercadorias que a indústria produz?”. Para Jessé, esse arranjo “explode na década de 80, o Estado Nacional cobrador de imposto vai ser atacado pelo capitalismo financeiro, os ricos passam a emprestar ao Estado aquilo que deveriam pagar em impostos”.

Jessé Souza aprofundou o debate sobre o capitalismo financeiro, segundo ele, responsável pelo que vivemos hoje no país (foto: George Maragaia)

Para ele, “o capitalismo financeiro é também um princípio um novo ramo de atuação do império, é destruir os sindicatos para quebrar a pressão da classe trabalhadora organizada, não contratando ninguém que tenha passado sindical”. Segundo Jessé, outro aspecto do capitalismo financeiro é “que ele tenta se passar por emancipador, se apropria de valores de valores da contracultura dos anos 60, coloniza a semântica expressivista daquela época, oferecendo uma nova ideia de liberdade, as pessoas passam a considerar que trabalham para si mesmas, como se não tivesse mais patrão, mas trabalham para pagar o que devem aos bancos”.

Jessé afirma que o capital financeiro conseguiu “cortar o elo entre as questões de redistribuição de riqueza e poder que era grande questão das classes trabalhadoras, para é mais fácil perceber a exploração pelo lucro do que pelos juros”. Ele diz que isso faz com que, “embora 53% do orçamento brasileiro seja pago por pessoas que ganham até três salários mínimos, isso não é usado para escola, para saúde, para a ciência, é usado para o único gasto que não se tem nenhum controle, que é o pagamento de juros da dívida pública”. Segundo ele, “é aí que está o rombo, 70 a 80% disso é roubo, a gente paga e não sabe a quem deve, pois, essa dívida nunca foi auditada”.

Homenagem a David Capistrano Filho

Antes do Grande Debate do Abrascão (26/7), o presidente da Abrasco, Gastão Wagner e a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, deram início a uma série de homenagens a grandes sanitaristas brasileiros que vão anteceder os Grandes Debates durante o Congresso. O primeiro homenageado foi o médico David Capistrano Filho, “militante histórico do movimento da reforma sanitária, aliando o conhecimento científico com a gestão comprometida com as populações vulneráveis fazendo e mostrando que é possível uma gestão pública transformadora”, como está registrado na placa entregue aos seus familiares presentes à cerimônia. Nísia agradeceu à família a doação do acervo do sanitarista, “o compromisso da Fundação é tornar esse legado mais do que uma referência permanente para teses e dissertações, para que façamos uma ampla divulgação de seu exemplo”.

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