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Pesquisa analisa desafios no combate à doença de Haff


19/03/2025

Tatiane Vargas (Informe Ensp)

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A doença de Haff (DH), uma síndrome rara e emergente associada ao consumo de peixes e crustáceos contaminados, tem se tornado uma preocupação crescente para a saúde pública no Pará. Uma pesquisa recente, defendida no âmbito do Programa Educacional de Vigilância em Saúde nas Fronteiras, traz importantes contribuições para entender a distribuição geoespacial e os desafios epidemiológicos dessa condição no território paraense.

A tese de doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente, desenvolvida por Deisiane Serfaty, com orientação da pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Débora Cynamon, analisou os primeiros três anos de vigilância da DH no estado, de 2021 a 2023. A tese foi a primeira a ser defendida no âmbito do Programa VigiFronteiras-Brasil, uma iniciativa da Fiocruz em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde e a Opas.

Descrita pela primeira vez no Brasil em 2008, a doença de Haff é caracterizada por rabdomiólise súbita, definida como uma lesão direta ou indireta do músculo esquelético, com início após o consumo de pescado contaminado. Desde 2021, a notificação da doença tornou-se obrigatória no Pará, e a pesquisa foi motivada pela experiência da autora na vigilância epidemiológica do estado, onde acompanhou a implementação do sistema de notificação da DH. A análise de 169 casos notificados durante esse período revelou padrões interessantes sobre a prevalência e distribuição da doença.

Dos casos analisados, 142 foram classificados como compatíveis com a DH, com predominância entre homens (64,7%) e na faixa etária de 50 a 59 anos (36%). A maioria dos casos ocorreu em áreas urbanas, refletindo a distribuição populacional do estado. A pesquisa também identificou sintomas mais frequentes como mialgia intensa, astenia e dores no pescoço e tórax, com um tempo médio de quatro horas entre o consumo de pescado e o início dos sintomas.

Outro dado relevante da pesquisa é a sazonalidade da doença. Foi observado um aumento no número de casos durante o verão amazônico, período de intensificação do consumo de pescado. Além disso, a análise geoespacial revelou uma maior concentração de casos em municípios próximos a corpos hídricos, como Belterra e Santarém, que indicam possíveis focos de contaminação ou maior risco devido aos hábitos alimentares locais.

A pesquisa também destaca as dificuldades no enfrentamento da doença de Haff, como a subnotificação de casos, o desconhecimento da doença por parte de profissionais de saúde e a ausência de um agente etiológico definido. “A falta de conhecimento sobre o agente causador, possivelmente uma toxina termoestável presente em peixes contaminados, torna a formulação de estratégias preventivas mais desafiadora”, alertou a autora da pesquisa.

De acordo com os resultados do estudo, a DH representa um problema significativo de saúde pública no Pará, agravado pela dependência alimentar de pescado da população local e pela falta de vigilância específica. “A pesquisa conclui que é necessário um fortalecimento da vigilância epidemiológica, com a integração entre as áreas ambiental, sanitária e epidemiológica, além do desenvolvimento de campanhas educativas para aumentar a conscientização tanto da população quanto dos profissionais de saúde”, destacou Deisiane.

A autora também sugere investimentos em pesquisa para identificar de forma definitiva o agente etiológico e os mecanismos de transmissão da doença, a fim de prevenir surtos futuros e mitigar os impactos na saúde da população paraense. Com isso, o estudo contribui para a compreensão do cenário epidemiológico e geoespacial da doença de Haff e oferece subsídios importantes para a formulação de políticas públicas mais eficazes no enfrentamento da síndrome.

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