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08/03/2018

Unitaid e Fiocruz discutem acesso e inovação em saúde


Ricardo Valverde (Agência Fiocruz de Notícias)

A Unitaid, organização inovadora que utiliza mecanismos para expandir o acesso a tratamentos e diagnósticos para o HIV/Aids, tuberculose e malária, e a Fiocruz promoveram, nos dias 1º e 2 de março, o seminário Acesso e Inovação em Saúde, que teve por objetivo explorar as áreas de comum atuação e interesse para identificar potenciais novos projetos para colaboração nessas enfermidades. O evento, em dois dias, teve o seu início (a manhã do dia 1º/3) aberto ao público. Depois da abertura, houve discussões específicas reunindo pesquisadores da Fiocruz e representantes da Unitaid. As apresentações iniciais ficaram a cargo do vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Krieger, do diretor-executivo adjunto da Unitaid, Philippe Duneton, e do ex-diretor da Unitaid Jorge Bermudez, que atualmente é o chefe do Departamento de Política de Medicamentos e Assistência Farmacêutica (NAF) da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz). O seminário foi uma oportunidade para a troca de experiências e informações entre Fiocruz e Unitaid, com a apresentação de prioridades e portfólios e possíveis colaborações para fazer avançar temas de saúde, além de fortalecer o combate às doenças que atingem populações mais vulneráveis no Brasil e na América Latina.

Seminário foi uma oportunidade para a troca de experiências e informações entre Fiocruz e Unitaid (foto: Peter Ilicciev)
 

O diretor Philippe Duneton disse em sua intervenção que a Unitaid, desde o seu início, é movida pelo desejo de agir contra a pobreza e às más condições de saúde em que vivem milhões de pessoas em todo o mundo. “Temos um imenso respeito pela Fiocruz e pelo que esta instituição representa. Viemos aqui para apresentar o que fazemos, mostrar como imaginamos que serão os caminhos que seguiremos e também conhecer as propostas da Fundação. Estamos mais pró-ativos e estamos em um momento especial da Unitaid”, destacou.

Em seguida, Jorge Bermudez, que dirigiu a Unitaid entre 2007 e 2011, fez um histórico de sua atuação à frente da instituição e dos avanços obtidos naquele período. “Nossos esforços iniciais visaram identificar parceiros fortes e sólidos para permitir o financiamento de estrategias de implementação, o que garantiria respostas a curto prazo. Os parceiros iniciais incluíram Unicef, Fundo Global, StopTB e Clinton Health Access Initiative. Num primeiro momento conseguimos a redução dos preços dos ARVs pediátricos com a empresa indiana Cipla, ampliando o acesso em escala geométrica, criamos um estoque rotativo regulador de medicamentos para tuberculose e investimos na prevenção da transmissão mãe-filho em HIV, entre outros projetos vitorisosos”, listou Bermudez. Segundo ele, “a Unitaid sempre buscou o objetivo de fazer o financiamento trabalhar em favor das pessoas”. Ele também discorreu sobre o uso da Lei de Concorrência para expandir o acesso a medicamentos e o workshop que reuniu participantes dos 12 países sul-americanos. “Posso afirmar que a Fiocruz é hoje a principal instituição lidando com a questão na América Latina. Espero que também nesta área possamos nos associar à Unitaid”.

O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Krieger, apresentou o Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação da instituição. Segundo ele, esse sistema começou a ser elaborado no início do século 20, com o enfrentamento de doenças como varíola, peste bubônica e febre amarela. “Naquele momento o Brasil passou a ter conhecimento científico tecnológico em benefício da população. Foi um dos grandes legados deixados por nossos Pais Fundadores”, afirmou, em uma alusão a Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e outros imponentes pesquisadores que fizeram parte da gênese do que é atualmente a Fiocruz. Em seguida ele lembrou feitos célebres de pesquisadores da instituição ao longo das décadas até chegar ao Marco Legal de C&T&I e à Política de Inovação, que contaram, em seu desenvolvimento, com a particapação intensa de representantes da Fundação.

Sobre o Sistema Fiocruz de Inovação, Krieger listou as principais ações, entre elas a avaliação crítica e busca do aprimoramento das ferramentas de apoio aos projetos de C&T&I; o compromisso com investimento continuo e sustentado; a elaboração de Plano Institucional de CT&I  de longo prazo, com base em prospecção tecnológica e nas prioridades do SUS; e a consolidação das cadeias de inovação, com aumento da cooperação entre os institutos de pesquisa e os institutos tecnológicos da Fiocruz.

Para ilustrar, o vice-presidente apresentou o teste Dual Path Platform (DPP) sífilis, produzido por Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que detecta a doença em cerca de 15 minutos. Este teste é utilizado para a triagem sorológica por meio de uma gota de sangue, soro ou plasma. O exame é de fácil execução em campo, já que dispensa equipamentos e infraestrutura laboratorial; permite leitura e interpretação simples, o que facilita o treinamento dos profissionais de saúde; faz diagnóstico rápido, pois contribui para a tomada de decisão clínica imediata quanto à necessidade de tratamento e notificação; oferece maior sensibilidade e especificidade, ao possibilitar tanto a triagem quanto a confirmação do status sorológico, com melhor indicação sobre a atividade da doença, o que leva ao direcionamento das ações de monitoramento e controle.

Ele também citou o Projeto NAT, que buscou aperfeiçoar a detecção dos vírus da Aids e da hepatite C nas bolsas de sangue. O produto final custa três a quatro vezes menos que os produtos similares comercializados por empresas privadas multinacionais. “No início não tínhamos competência tecnológica e industrial e nem instalações fabris. Começamos do zero. O NAT é um grande marco da nossa trajetória. E estamos buscando aperfeiçoá-lo: vamos incorporar a testagem de malária, o que nenhum outro produto similar faz, e também os arborvírus”, adiantou Krieger. Há também, segundo ele, um projeto para o desenvolvimento de um teste molecular de tuberculose.

O diretor de Relações Externas da Unitaid, o brasileiro Mauricio Cysne, fez a apresentação em nome da instituição. Ele fez um histórico da atuação da Unitaid, que surgiu para fazer parte da resposta global a três doenças (Aids, tuberculose e malária). Cysne também relembrou a assistência ao desenvolvimento para a saúde desde 1997, citando a criação da Plataforma Global para Ações Coordenadas contra a Malária (RBM), e listou as instituições que vieram depois, como StopTB (Parceria contra a Tuberculose), Gavi (Aliança Global para Vacinas e Imunização), Pepfar (Plano de Emergência da Presidência dos Estados Unidos para o Alívio da Aids) e outras iniciativas internacionais.

“O posicionamento claro da Unitaid é o de uma organização que conecta a inovação em desenvolvimento (upstream) com a resposta concreta, a implementação (downstream) para as três doenças. Se começarmos com o downstream, há muitos parceiros envolvidos na ampliação do acesso a produtos de saúde, incluindo os próprios governos dos países. A Unitaid não é uma organização de escala. Nós ajudamos os nossos parceiros a maximizar a eficácia da resposta, usando a inovação para fazer mais com menos. Muitos parceiros no nível de upstream, que estão trabalhando na inovação, financiam pesquisa e desenvolvimento, incluindo o estágio inicial.  O nosso papel é atuar como uma ponte entre o upstream e o downstream”, afirmou Cysne.

Segundo o diretor da Unitaid, a instituição faz isso identificando as principais barreiras que limitam as inovações em medicamentos, dispositivos e sistemas, para alcançar uma resposta global em larga escala. Por exemplo, produtos de saúde adaptados, como formulações pediátricas, podem não estar disponíveis no mercado, ou podem ser muito caros para pacientes ou programas de país para usá-los. Esses produtos podem competir com alternativas inadequadas ou de baixa qualidade, levando a uma baixa demanda que agrava ainda mais os preços elevados. “O nosso objetivo é resolver essas barreiras por meio de projetos direcionados que empreendemos com os beneficiários. Esse processo é feito com seis parceiros-chave: governos dos países, sociedade civil, parceiros técnicos, setor privado, parceiros de financiamento, parceiros de implementação”, observou Cysne.

O portfolio da Unitaid em outubro de 2017 chegava a US$ 1 bilhão em investimentos, sendo 49% em projetos relacionados a HIV/Aids, 25% a malária, 15% a febre amarela e 11% a programas transversais, num total de 40 iniciativas. Esses projetos incluem ações de prevenção, monitoramento, tratamento, diagnóstico, propriedade intelectual (pool de patentes), pré-qualificação de medicamentos e produtos de saúde.

Unitaid

A Unitaid é uma organização internacional criada em 2006 por Brasil, Chile, França, Noruega e Reino Unido para ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento do HIV/Aids, da tuberculose e da malária em países de menor desenvolvimento relativo e países em desenvolvimento. Desde a sua criação a Unitaid investiu cerca de US$ 3 bilhões em soluções inovadoras para a saúde, que têm potencial para ampliação em larga escala por organizações parceiras.

A estratégia da Unitaid para 2017-2021 reitera seu compromisso de acelerar o acesso a melhores produtos de saúde e de apoiar seus parceiros na implementação das mudanças necessárias para alcançar os objetivos estabelecidos pela comunidade internacional para as três doenças. Nesse sentido, é essencial a estreita colaboração com diferentes atores em saúde, tais como instituições acadêmicas, instituições do setor público e do setor privado, de pesquisa e de desenvolvimento e produção e a sociedade civil. A atual parceria com a Fiocruz no projeto da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) é um exemplo a ser seguido em termos de colaboração com parceiros-chave da área da saúde, uma vez que visa aumentar o acesso e a adoção da PrEP e de ferramentas de diagnóstico do HIV/Aids e co-infecções em países da América Latina (Brasil, México e Peru).

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