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02/01/2019

Leishmanioses: estratégia de controle vetorial prevê a utilização de iscas açucaradas

Mosquitos transmissor da leishmaniose na armadilha

Por: Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)*

Assim como os beija-flores, os insetos flebotomíneos – transmissores das leishmanioses, conhecidos como mosquitos-palha – alimentam-se naturalmente do néctar das flores e são atraídos por soluções açucaradas. Tendo em vista essa característica, algumas estratégias de controle vetorial lançam mão de uma armadilha: soluções de água com açúcar combinadas com inseticidas são borrifadas sobre plantas ou pedaços de algodão, transformando-os em iscas açucaradas, que são espalhadas nos locais conhecidos de concentração dos insetos. Recém-publicado na revista Parasites and Vectors, um estudo liderado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) abre portas para o desenvolvimento de uma versão sustentável do método. O trabalho avalia a ação de compostos naturais de plantas, chamados de glicosídeos, e seus derivados. A pesquisa aponta atividade contra os parasitos Leishmania, causadores das leishmanioses, e mostra que, quando administrados aos flebotomíneos através de iscas açucaradas, alguns desses compostos diminuem a quantidade de parasitos presente nos insetos, assim como reduzem a longevidade dos vetores.

Segundo os autores, os resultados indicam que as moléculas são promissoras para o desenvolvimento de iscas açucaradas para controle vetorial e bloqueio da transmissão das leishmanioses, com menor risco de desenvolvimento de resistência entre os insetos e de danos ambientais. “Os glicosídeos são açúcares de plantas que constituem uma defesa natural contra isentos herbívoros e já vêm sendo estudados para o controle de pragas agrícolas. Por isso, decidimos avaliar sua ação contra os flebotomíneos, como uma alternativa sustentável aos inseticidas. Para nossa grande surpresa, observamos que eles não são tão tóxicos para os flebotomíneos, mas atuam sobre os parasitos Leishmania, que se desenvolvem no intestino dos insetos, o que pode ser positivo para o desenvolvimento de novas ferramentas de controle vetorial”, conta o pesquisador Fernando Genta, do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos do IOC e coordenador do estudo.

Primeira autora do artigo, Tainá Neves Ferreira aponta mais uma vantagem dos compostos naturais. Ela destaca que as leishmanias apresentam dois estágios de vida: um nos insetos, chamado de promastigota, e outro nos hospedeiros vertebrados, incluindo os seres humanos, chamado de amastigota. “Isso é importante porque ao utilizar moléculas que agem nos insetos contra a forma promastigota dos parasitos não deve haver efeito de seleção de resistência sobre a forma amastigota, encontrada nos pacientes e alvo no tratamento das leishmanioses”, diz a estudante, que realizou a pesquisa durante o mestrado no Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do IOC e atualmente dá continuidade ao trabalho no doutorado no Programa de Pós-graduação em Biologia Parasitária do Instituto.

O projeto contou com a colaboração de pesquisadores dos Laboratórios de Bioquímica e Fisiologia de Insetos, de Biologia Molecular de Doenças Endêmicas e de Doenças Parasitárias do IOC, além do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Entomologia Molecular e da Universidade de Glasgow, no Reino Unido.

Molécula de amêndoas, ameixas e pêssegos

A pesquisa avaliou quatro substâncias, sendo dois açúcares glicosídeos – esculetina e amidalina – e duas moléculas derivadas desses compostos – esculina e mandelonitrila. Soluções de água com açúcar combinadas com as diferentes substâncias foram utilizadas para produzir as iscas açucaradas, oferecidas aos flebotomíneos como fonte de alimentação. Os melhores resultados foram observados com a mandelonitrila. Testes em cultura de células mostraram efeito sobre todas as espécies de Leishmania avaliadas, incluindo L. mexicana, L. amazonensis e L. braziliensis, causadoras da leishmaniose tegumentar americana, e L. infantum, agente da leishmaniose visceral americana. Nos ensaios com flebotomíneos infectados por L. mexicana, a mandelonitirila diminuiu em 1/3 a quantidade de vetores infectados e provocou redução de 65% no número médio de protozoários encontrado nos insetos. Além disso, a substância reduziu a longevidade dos vetores. Entre os machos, o tempo de vida média foi reduzido em 59% (de 17 para sete dias), enquanto entre as fêmeas, a queda foi de 33% (de 15 para dez dias). Todos os experimentos foram realizados com flebotomíneos da espécie Lutzomia longipalpis, principal transmissora da leishmaniose visceral americana, utilizada como modelo para pesquisas.


Soluções de água com açúcar combinadas com diferentes substâncias foram utilizadas para produzir iscas (Foto: Josué Damacena)

Os pesquisadores ressaltam que a mandelonitirila é um composto estável e de baixo custo, que apresenta muito baixa toxicidade para mamíferos. As características são consideradas favoráveis para o desenvolvimento das iscas açucaradas como ferramenta de controle vetorial. “A mandelonitrila é um derivado do glicosídeo amidalina, encontrado em sementes, raízes e folhas de amêndoas, ameixa e pêssego, entre outras plantas. Considerando sua baixa toxicidade em mamíferos, compostos relacionados a essa substância podem ser avaliados para o controle das leishmanioses também em outros projetos de pesquisa”, reforça Tainá.

Contribuições para pesquisas

Além de apontar novos caminhos para o desenvolvimento de métodos de controle vetorial, o artigo apresenta inovações que podem contribuir para futuras pesquisas. Naturalmente fluorescente, a molécula esculina tem potencial para ser usada como marcador em estudos de campo com flebotomíneos. “A marcação é necessária, por exemplo, em pesquisas nas quais os insetos são liberados no ambiente e depois recapturados. Também pode ser usada para avaliar a ingestão de alimento de uma fonte específica. Observamos que a esculina apresentou baixo impacto sobre a fisiologia dos insetos, o que é fundamental para um bom marcador”, diz Genta.

De forma inédita, o trabalho utilizou a fluorescência natural da esculina para medir a quantidade de açúcar ingerida pelos vetores. O estudo apontou que os machos ingerem cerca de 35% menos açúcar do que as fêmeas. Além disso, enquanto as fêmeas costumam ingerir de 0,1mg a 0,6mg de sangue em uma única refeição, o volume da alimentação açucarada é sete a 42 vezes menor. De acordo com os cientistas, este conhecimento pode ser importante no desenvolvimento de pesquisas e de ferramentas de controle vetorial que têm a alimentação açucarada dos insetos como foco.

Impacto no Brasil

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), anualmente, são estimados até um milhão de novos casos de leishmaniose tegumentar e 90 mil de leishmaniose visceral. O Brasil é um dos países com maior número de registros, figurando entre os sete mais afetados do planeta para as duas formas do agravo. Classificadas como doenças tropicais negligenciadas, as leishmanioses afetam principalmente populações pobres, sendo associadas a condições como moradia precária, deslocamentos populacionais e desnutrição. A infecção também está ligada a mudanças ambientais, incluindo desmatamento, urbanização e construção de barragens.

O ciclo de transmissão das leishmanioses envolve os protozoários do gênero Leishmania, hospedeiros animais e os insetos flebotomíneos. Os parasitos são transmitidos às pessoas pela picada de fêmeas do vetor, que se infectam ao sugar o sangue de animais infectados, caracterizados como reservatórios do agravo. Na leishmaniose tegumentar, mamíferos silvestres, como preguiça, gambá, roedores e canídeos, são normalmente identificados como reservatórios. Já na leishmaniose visceral, além dos reservatórios silvestres, os cães domésticos podem ser fonte de infecção para os vetores no ambiente urbano.

As leishmanioses tegumentares geralmente provocam lesões na pele. Nos casos mais graves, as mucosas do nariz e da boca também são afetadas. Na leishmaniose visceral, órgãos internos, como fígado e baço, são atingidos e o agravo pode levar à morte. Em todos os casos, o tratamento é feito com medicamentos específicos, disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). “O controle vetorial é apenas uma das ferramentas para o enfrentamento das leishmanioses, que precisa ser adotada juntamente com medidas como diagnóstico e tratamento precoces, ações de proteção individual e manejo de reservatórios”, enfatiza Genta.

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