Início do conteúdo

História e qualidade: produção da vacina contra febre amarela na Fiocruz


17/01/2017

Por: Gabriella Ponte e Isabela Pimentel (Bio-Manguinhos/Fiocruz)

Compartilhar:

John Davison Rockefeller, fundador da Standard Oil Company, ganhou tanto dinheiro que se tornou o homem mais rico do mundo. Parte da sua fortuna foi usada na medicina e pesquisas científicas - através da Fundação Rockefeller, criada em 1913. A Fundação chegou ao Brasil em 1916, e em 1923, estabeleceu um convênio com o governo brasileiro, para cooperação médico-sanitária e programas de erradicação de endemias, notadamente a febre amarela e depois a malária. Foi com o dinheiro de Rockefeller que, na década de 1940, montou-se o laboratório para fabricar a vacina contra febre amarela, no campus da Fiocruz, edificação que hoje leva seu nome e faz parte das instalações de Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz).

Leia também:

Fiocruz contribui para imunização contra febre amarela

Combate à febre amarela: imunização além das fronteiras

Pesquisadores utilizam ovos de galinha para desenvolver vacina contra febre amarela (foto: Acervo Fiocruz)

Henrique de Azevedo Penna colaborou para as pesquisas que conduziram ao descobrimento do ciclo selvagem da febre amarela, no Vale do Canaã, Espirito Santo, mas a sua grande contribuição foi para o desenvolvimento e produção da vacina de febre amarela, que é reconhecida internacionalmente. Suas investigações sobre o neurotropismo dos vírus vacinais em macacos foram relevantes, bem como seus estudos de avaliação da imunidade contra febre amarela.

Thomas Monath afirma que a produção da vacina de febre amarela foi estabelecida no Brasil entre janeiro e março de 1937, por Henrique Penna e Hugh Smith. Henrique Penna fez passagens do vírus vacinal na cavidade amniótica de ovos de galinha embrionados, técnica aprimorada por Alberto Romeu Nicolau, que passou a utilizar o saco vitelino para inoculação, melhorando o rendimento. Penna introduziu também a técnica de remoção do embrião do ovo com tocha de oxiacetileno, com isso evitando a contaminação, o que permitiu eliminar a adição de soro humano e filtração da produção e resolver o problema da hepatite causada pela vacina. Foi ainda Penna quem introduziu o sistema de lote-semente, padronizando a produção, assegurando potência adequada da vacina e diminuindo eventos adversos, sistema este posteriormente utilizado por todos os produtores, da vacina de febre amarela e das demais vacinas, em todo o mundo.

Henrique Penna anotou cuidadosamente as passagens realizadas, com isso permitindo saber a genealogia da cepa vacinal atualmente em uso. Com Smith e Paoliello, Penna foi coautor dos estudos clínicos mais importantes já realizados com a vacina de febre amarela, que permitiram a sua utilização em larga escala no Brasil e em outros países.

A produção brasileira da vacina 17DD de febre amarela ficou consolidada no Instituto Oswaldo Cruz, graças à determinação e competência de Henrique de Azevedo Penna e seu grupo, em colaboração com a Fundação Rockefeller. No discurso que proferiu ao receber o Prêmio Nobel de Medicina em 1951, Theiler se refere por três vezes, respeitosamente, às pesquisas de Henrique Penna, fato mais significativo ainda pela solenidade do momento. 

Desde de sua criação, em 1976, Bio-Manguinhos/Fiocruz produz milhões de doses da vacina anualmente. Em setembro de 2001, a unidade obteve a certificação nacional de Boas Práticas de Fabricação (BPF) da vacina contra febre amarela, emitida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), passo fundamental para a pré-qualificação internacional. Em outubro, Bio-Manguinhos alcançou a pré-qualificação da Organização Mundial de Saúde (OMS) para atuar como fornecedora internacional deste produto, fato inédito na área de produção de vacinas no Brasil. Em 2010, Bio assina acordo de desenvolvimento de uma vacina contra febre amarela inativada com a Fraunhofer, a partir de uma plataforma vegetal.

O objetivo é produzir, no Instituto, um novo imunizante contra a doença, mais seguro e eficaz e com menos efeitos adversos. Alinhado às mais recentes tendências mundiais do setor, o novo imunobiológico será desenvolvido por meio de plataforma vegetal. O Centro Tecnológico de Plataformas Vegetais, nova unidade de Bio a ser implantada em Eusébio (CE), terá plantas industriais multipropósitos e prédios de desenvolvimento tecnológico e de controle e garantia da qualidade que permitirão nova capacidade de desenvolvimento e fabricação de produtos biofarmacêuticos para uso humano baseados em plataformas vegetais.

Serão implantadas duas plataformas, uma delas é a expressão em folha de tabaco. Desenvolvida pela Fraunhofer/iBio, esta plataforma tem potencial para expressar uma ampla variedade de proteínas monoméricas e multiméricas, incluindo enzimas terapêuticas, anticorpos monoclonais e antígenos de vacinas. Tem alto perfil de segurança biológica e está livre de ingredientes animais.

Voltar ao topoVoltar