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Fiocruz realiza evento pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha


30/07/2021

Roberta Costa/CCS

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Para marcar a importância da conscientização acerca do racismo como um determinante social de saúde e discutir questões enfrentadas pelas mulheres negras e suas lutas, especialmente no contexto atual da pandemia, o encontro virtual Mulheres negras no enfrentamento da pandemia da Covid-19 reuniu profissionais da saúde e militantes do movimento negro no dia 27 de julho. O evento, promovido pelo Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, teve transmissão do canal no YouTube da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz e fez parte das comemorações pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrados no último dia 25.

“O dia 25 de julho é uma data fundamental para conscientização sobre as especificidades e problemas enfrentados pelas mulheres negras e também sobre o seu protagonismo”, apontou a assistente de gestão do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) e integrante do Comitê, Meony Santos, que mediou a atividade.

Meony Santos, Mychelle Alves, Roseane Corrêa e Roseli Rocha durante a abertura do evento que contou com as intérpretes de Libras Valéria e Sheila Martins (imagem: Divulgação)

Representando a coordenação colegiada do Comitê, a assistente social do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Roseli Rocha, abriu o encontro falando sobre a atuação do coletivo para consolidar uma agenda institucional pelo fortalecimento da equidade de gênero e das relações étnico-raciais na Fiocruz. “O Comitê já realizou inúmeras atividades em defesa da diversidade, na perspectiva da equidade, e realiza ações permanentes por uma sociedade antirracista e antissexista”, contou.

A mestranda em saúde pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp) e integrante do Coletivo Negro da Fiocruz, Roseane Corrêa, ressaltou a importância da realização do evento. “O Comitê Pró-equidade da Fiocruz, ao promover este evento, compreende a urgência e a necessidade de racializar a produção de conhecimento em saúde e cuidado no Brasil”, destacou.

“Nós, mulheres negras, somos a maioria da população brasileira, mas se formos olhar todos os dados estatísticos, estamos nas maiores vulnerabilidades. É Importante ter um evento como esse para mostrar o nosso protagonismo, a nossa luta e a nossa resistência. Sabemos o quanto é importante ter políticas públicas que promovam a equidade de gênero e raça, como a Fiocruz tem”, afirmou a pesquisadora do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) e presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc-SN), Mychelle Alves.

Desigualdades e pandemia

A doutora em saúde pública Maria Inês Barbosa foi a primeira convidada a se apresentar e  acredita que a pandemia da Covid-19 agudiza e aponta o fracasso de sociedades que têm por força motriz a repartição desigual, baseada em racismo e sexismo, de bens socialmente construídos. “Segundo os dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), a fome alcançou 11,1% das residências chefiadas por mulheres e 7,7% quando os homens são considerados o chefe da família. Quando a pessoa de referência é negra, a fome alcança 10,7% das residências e cai para 7,5% se ela é branca”, apontou.

“Falar da Covid-19 e nós mulheres negras significa luta, resistência e disputa na relação do acesso ao poder. Nós precisamos alcançar e nos garantir nos espaços de poder para assegurar um projeto que beneficie a todas nós”, argumentou a doutora.

Maria Inês Barbosa e Beth Cardoso participam do debate (imagem: Divulgação)

Para a coordenadora executiva do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA/ZM) e do Grupo de Trabalho Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia, Beth Cardoso, quem faz a agroecologia para comercialização no Brasil é a agricultura familiar e essa categoria é majoritariamente composta por negros. “Mas a participação das mulheres negras na comercialização dos alimentos é muito pequena. A porcentagem de mulheres à frente da direção dos estabelecimentos não chega nem a 20%. Há desigualdades mesmo entre os desiguais”afirmou.

“Entretanto, as mulheres estão protagonizando iniciativas que aumentaram a resiliência da agricultura familiar durante a pandemia. É delas que parte a maior responsabilidade pela produção diversificada de alimentos e isso traz uma certa estabilidade econômica. Além disso, a categoria está conseguindo produzir o seu próprio alimento mesmo diante da grave crise que estamos vivendo”, complementou a coordenadora.

 

Dayana de Souza traz uma discussão sobre a pandemia da Covid-19 no contexto de favela (imagem: Divulgação)

Para a assistente social da ONG Luta pela Paz/Maré, Dayana de Souza, o sucateamento dos serviços e políticas públicas e sociais nas favelas contribuíram para expor e potencializar a necropolítica durante a pandemia, já que, segundo dados do Ministério da Saúde, a Covid-19 é mais letal para negros e pobres. “Esse cenário afeta de forma peculiar mulheres negras faveladas, devido ao que Lélia Gonzalez chama de ‘Tripla Discriminação’ - que nada mais é do que essa opressão, essa discriminação de raça, classe e gênero”, pontuou.

“Por isso é importante estarmos em um momento de valorização das nossas vidas, de cuidado com o nosso território, das formas que nos são permitidas ou das formas que inventamos. As mulheres negras sempre estão buscando estratégias para a sobrevivência”, finalizou a assistente social.

Maiara Silva encerra o encontro declamando poema de sua autoria (imagem: Divulgação)

O evento foi encerrado com a intervenção artística da poetisa e escritora Maiara Silva que declamou um poema de sua autoria e que fazia referência às vivências das mulheres negras.

“A luta pela sobrevivência da mulher negra é histórica, mas eu não quero sobreviver, eu quero viver. Cansei de resistir, quero só existir. E cada golpe merece grito de volta e a revolução será mulher negra protagonista de sua própria história”, diz um trecho do poema.

O encontro virtual do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz teve tradução para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), em acordo com a legislação brasileira e a política institucional para implementação de medidas de acessibilidade comunicacional. O evento está disponível na íntegra no canal VideoSaúde no YouTube:

Comitê

O Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz foi criado em 2009, para consolidar uma agenda institucional pelo fortalecimento dos temas étnico-raciais e de gênero na Fundação, colaborando para uma constante atualização e reorientação de suas políticas, bem como de suas ações, seja nas relações de trabalho, seja no atendimento ao público e na produção e popularização do conhecimento. Periodicamente, o Comitê realiza atividades de formação e iniciou essa série de encontros virtuais diante das recomendações de distanciamento social para o enfrentamento ao novo coronavírus.

Fiocruz é Diversidade

Uma instituição de saúde pública cuida de pessoas. A Fiocruz acredita no conceito de saúde ampliado, em que ter saúde não é apenas o contrário de estar doente. Saúde é um aspecto amplo e que envolve diversas esferas da vida pessoal e em sociedade. Promover cidadania, equidade de gênero e raça e acesso igualitário a oportunidades é também promover saúde. O Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, assim como outras frentes de atuação da instituição, entre as quais pesquisa, ensino, assistência, inovação e comunicação, está em constante desenvolvimento para promover saúde ampla para seus mais de 10 mil trabalhadores e para a população brasileira. Todos permanentemente em defesa da vida.

 

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