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Estudo avalia impacto em bebês da infecção materna por zika


30/11/2022

Hellen Guimarães (Agência Fiocruz de Notícias)

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Uma colaboração nacional, formada por pesquisadores da Fiocruz e de outras 25 instituições do Brasil agrupados no Consórcio Brasileiro de Coortes relacionadas ao vírus zika (ZBC Consortium), com apoio da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), avaliou os impactos na saúde dos bebês da infecção de gestantes por zika. Publicado no The Lancet Regional Health - Americas na última segunda-feira (28/11), o estudo revelou que aproximadamente um terço dos filhos de mães infectadas durante a gravidez apresentaram, nos primeiros anos de vida, anormalidades consistentes com a Síndrome da Zika Congênita (SZC).

Esta foi a pesquisa sobre o tema que contou a maior quantidade de participantes, conseguindo detectar com mais clareza a relação entre o vírus zika e possíveis distúrbios congênitos. A necessidade dessa avaliação surgiu após uma epidemia de microcefalia no Brasil em 2015, mas as amostras pequenas, a alta variabilidade entre as estimativas e a limitação dos dados de vigilância limitavam a possibilidade de calcular os riscos. As manifestações da síndrome envolvem deficiências neurológicas funcionais, anormalidades de neuroimagem, alterações auditivas e visuais e microcefalia. Tais disfunções aparecem mais frequentemente de forma isolada do que em combinação, com menos de 0,1% das crianças expostas apresentando duas delas simultaneamente.

Os resultados foram encontrados a partir da análise combinada de dados de 13 estudos que investigam os resultados pediátricos em gestações afetadas pelo vírus zika durante a epidemia de 2015-2017 no Brasil. Esses dados abrangem todas as quatro regiões do país afetadas pela epidemia neste período, com infecção pré-natal confirmada em laboratório por testes genéticos e avaliação dos potenciais efeitos adversos em nível individual.

“Esse trabalho dá uma contribuição fundamental para a compreensão das consequências para a saúde da infecção pelo vírus zika durante a gravidez. Ele reúne dados individuais de crianças nascidas de 1.548 gestantes residentes em diferentes regiões do país que tiveram o diagnóstico confirmado de infecção pelo vírus zika durante a gravidez, permitindo uma estimativa mais precisa dos riscos. Saliente-se ainda que, além da contribuição em termos de conhecimento, esse estudo traduz a competência dos pesquisadores brasileiros e das instituições públicas para responder aos desafios científicos, tendo os mesmos se organizado primeiro em suas instituições de origem e, em seguida, conjuntamente, criando o Consórcio Brasileiro de Coortes relacionadas ao vírus zika”, destacou o pesquisador Ricardo Arraes de Alencar Ximenes, da Universidade de Pernambuco e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que liderou o estudo.

Em relação à microcefalia, condição neurológica em que a cabeça do bebê é menor do que o esperado para sua idade e sexo, uma a cada 25 crianças nascidas de mães infectadas pelo vírus zika durante a gravidez apresentou a disfunção no nascimento ou durante o acompanhamento. Na maioria dos casos, a condição era detectável próximo ao momento do nascimento, mas algumas crianças nascidas com perímetro cefálico normal desenvolveram a microcefalia nos anos seguintes. O risco de filhos de mães infectadas por zika na gestação apresentarem microcefalia foi de 2,6% no nascimento ou quando avaliados pela primeira vez, aumentando para 4,0% nos primeiros anos pré-escolares. Esse risco foi relativamente consistente nos diferentes locais de estudo, sem apresentar variação relativa às condições socioeconômicas ou área geográfica.

Na Fiocruz, cinco institutos contribuíram para a pesquisa: o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF) e o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), no Rio de Janeiro (RJ); o Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), em Manaus (AM); o Instituto Aggeu Magalhães (IAM/Fiocruz Pernambuco), em Recife (PE); e o Instituto Gonçalo Moniz (IGM/Fiocruz Bahia), em Salvador (BA).

A pesquisadora Flor Ernestina Martinez-Espinosa, da Fiocruz Amazônia, é co-autora sênior do estudo (ao lado de Patrícia Brasil, do INI/Fiocruz) e coordenou uma das coortes de gestantes expostas ao vírus zika. O projeto em Manaus ocorreu a partir de uma parceria entre a Fiocruz e a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), instituição de referência para doenças infecciosas e parasitárias no estado do Amazonas que sedia dois laboratórios da Fiocruz Amazônia.

“Formamos um grupo inter e multidisciplinar que acompanhou mais de 800 mulheres que procuraram a FMT-HVD por apresentar doença exantemática e por se declararem gestantes, sendo, portanto, notificadas como casos suspeitos de vírus zika na gestação. Esta população fez testes para confirmar os dois eventos (gravidez e infecção por zika). Trezentos e vinte casos foram confirmados e 760 dos casos notificados foram acompanhados até o final da gestação. Atualmente, estamos fazendo a busca ativa das crianças expostas para analisar sua situação no quinto ano de vida”, disse Martinez-Espinosa.

A realização de estudos adicionais com tempo de acompanhamento mais longo é apontada pela equipe de pesquisadores como o futuro da pesquisa publicada nesta segunda. Os possíveis caminhos para investigação incluem a avaliação do risco de hospitalização e morte para crianças com microcefalia à medida que envelhecem e, naquelas sem microcefalia, averiguar os riscos de outras complicações, como aquelas ligadas ao desenvolvimento comportamental ou neuropsicomotor. O estudo aponta também para a importância do diagnóstico e intervenção precoces de eventuais manifestações congênitas atribuídas ao vírus zika.

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