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Encontro às Quintas abre série de palestras de 2021


07/04/2021

Fonte: COC/Fiocruz

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O Encontro às Quintas recebe a historiadora Iamara Viana, professora da Uerj, onde fez seu doutorado, e da PUC-RJ. O evento será transmitido ao vivo pelo Facebook da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), em 8 de abril, às 10h, dando início à série de encontros sob a coordenação do Programa de Pós-Graduação em História as Ciências e da Saúde da COC. Iamara Viana abordará o tema Anatomias de Corpos: partos, senzalas e dores escravizadas, século XIX. A professora tem experiência na área de história, com ênfase em história do Brasil, história da escravidão no Brasil, morte de Escravizados e suas doenças, ensino de história, história da cultura fro-brasileira na educação básica, memória e  patrimônio. 

De acordo com Iamara Viana, o conhecimento da anatomia dos corpos escravizados no século 19, a partir de 1831 com a publicação da primeira lei de fim do tráfico de africanos, passou a ser elemento sine qua non para a manutenção da escravidão. “Afinal, cada etnia possuía características físicas e também culturais que, na perspectiva médica acadêmica e científica interferiam em qualidades desejáveis àqueles indivíduos, tais como, ser bom trabalhador, força física, boa moral, o não desenvolvimento de moléstias, e, no caso de mulheres, também a fertilidade”, explica a pesquisadora. Corpos africanos foram descritos na literatura médica como incivilizados e, portanto, mais resistentes à dor e predispostos aos trabalhos manuais que exigissem força física.

“Anatomicamente seria possível, por meio do conhecimento da anatomia humana, identificar o melhor africano escravizado a ser comprado ilegalmente. Tal conhecimento permitiria aos proprietários perceber moléstias e intervir rapidamente, impedindo a morte precoce”, destaca a professora da Uerj sobre o tema a ser desenvolvido em sua palestra. Segundo ela, da mesma forma, o corpo também sinalizava quando a menina se transformava em mulher podendo gerar mais “propriedades”. “Meninas, mulheres que produziam e reproduziam riquezas e propriedade escravizada para a sociedade do Império do Brasil”, explica.

Na palestra, a professora aborda também fontes de sua pesquisa. “Contudo, esse corpo é aqui pensado e entendido em sua totalidade. Partimos de Foucault e sua análise biopolítica (2008), mas para o século 19 e nosso objeto específico de pesquisa, precisamos avançar e, nesse sentido, somamos a questão cultural. Diferentes experiências e visões de mundo corroboram o modo pelo qual o corpo é pensado e assimilado por diferentes sociedades em seus distintos tempos. Esse corpo, que pensa, age, resiste e persiste, rompe com padrões estabelecidos na busca por liberdade. Diferentes liberdades. Faz escolhas.”, pontua a professora.

De acordo com Iamara Viana, mulheres escravizadas, para além das extenuantes horas de trabalho no campo, ou na casa grande, no açoite e muitos castigos, podiam e sofriam violência sexual. “Seu corpo (aqui entendido na sua completude) era desta forma vítima de violências físicas e psicológicas. O estupro era realidade no cotidiano daquelas mulheres, não só tendo como algoz o homem branco europeu, mas também o africano escravizado e seus descendentes. Em muitos casos a gravidez acompanhava a sequência de dores e temores”, explica a pesquisadora. Segundo ela, nas comunidades de senzalas mulheres africanas e suas descendentes utilizavam saberes ancestrais e reconstruíram redes de solidariedade. “De modo que, parceiras de escravidão atuavam como parteiras amenizando sofrimentos em partos nem sempre fáceis. As muitas dores da escravidão africana para mulheres podem ser lidas em seus corpos por meio de diferentes fontes. Refletiremos aqui sobre algumas dessas dores que ocorriam no interior e no exterior de senzalas do Império do Brasil”, conclui a convidada do primeiro Encontro às Quintas de 2021.

Encontro às Quintas

Título da palestra: Anatomias de Corpos: partos, senzalas e dores escravizadas, século XIX
Convidado: Iamara Viana (UERJ e PUC-RJ)
Coordenação: Tânia Salgado Pimenta
Data:  8 de abril de 2021 – às 10h 
Transmissão ao vivo pelo Facebook da COC
Informações: ppghistoriasaude@fiocruz.br

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