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11/05/2018

Educação musical e resiliência nas favelas foi tema de seminário no Museu da Vida

Crianças no palco

Por: Luiza Gomes (Cooperação Social da Fiocruz)

São inúmeras as abordagens de pesquisas e artigos sobre benefícios produzidos pela música – da musicoterapia à socialização infantil, mas há uma ainda pouco explorada: a partir de que metodologias e paradigmas de ensino pode a música contribuir para promover a saúde em territórios marcados pela violência e suspensão de direitos? Esse foi o tema que movimentou as discussões durante o seminário Educação musical e territórios saudáveis nas favelas, ocorrido no último dia 27, no auditório do Museu da Vida, no Campus Fiocruz Manguinhos.

O debate teve como fio condutor a experiência de 10 anos da existência da Escola de Música de Manguinhos (EMM) – vinculada à organização de base comunitária RedeCCAP, que há 32 anos é atuante em territórios de favela e é atualmente responsável por diversas ações no campo da promoção de direitos humanos, educação, arte e cultura em Vila Turismo - Manguinhos.

Professores, alunos, pesquisadores, militantes e gestores se reuniram para analisar as razões pelas quais o empreendimento vem gerando tantos resultados positivos. O encontro foi entremeado por apresentações musicais, vídeos e relatos pessoais de ex-alunos e professores da EMM, demonstrando a convivência entre os saberes formais e não-formais presentes na metodologia da Escola. Kassandra Verônica, aluna da Escola de Música de Manguinhos e integrante do grupo Música na Calçada, foi uma das mestras de cerimônia do seminário.

A iniciativa é fruto da parceria entre a RedeCCAP, Fiocruz – por meio da Coordenação de Cooperação Social -, e a UFRJ (por meio da pró-Reitoria de Extensão e da Escola de Música), e foi referenciada pelos presentes como um exemplo bem sucedido de trabalho articulado, integrado e dialógico que se reflete desde a relação entre as instituições até o ensino em si e a relação entre alunos.

Na mesa de abertura, estavam presentes Cristina Guilan, representando da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC); Leonídio Madureira, coordenador de Cooperação Social da Fiocruz; Alessandro Batista, chefe do Museu da Vida; Denise dos Reis, coordenadora da RedeCCAP; Rogéria Moreira de Ipanema, assessora especial da Pró-Reitoria de Extensão da UFRJ.


 Leonídio Madureira (com microfone) é coordenador da Cooperação Social da Fiocruz (Foto: Peter Iliciev)

Academia e território: diálogo entre saberes

Leonídio lembra que a parceria começou na gestão do ex-presidente da Fiocruz Paulo Buss (2000-2008), atravessou os dois mandatos de Paulo Gadelha (2009-2016) e agora segue contando com o apoio da presidente da Fiocruz, Nísia Trindade.

“Olhar para a permanência desse trabalho nos últimos dez anos é reconhecer a enorme capacidade da Oscip RedeCCAP, que consegue fazer tudo o que está previsto nos convênios, inclusive prestações de contas, dialogar com Fiocruz e UFRJ, e seguir atuando no território. A demonstração dada neste seminário é a de que se produziu e se produz conhecimento articulado entre academia e território”, afirmou.

O doutor João Miguel Freire, coordenador pedagógico da EMM e professor na Escola de Música da UFRJ, informou ao público que diversas monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado, e artigos em periódicos já sistematizaram a experiência da Escola de Música, estabelecendo sinergia e fluxo de troca entre Ensino, Pesquisa e Extensão.

O coordenador de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz destacou também o aspecto cidadão e político impresso na metodologia de ensino empregada na Escola. “Se fala da arte, mas se contextualiza a realidade do lugar, na disciplina Música e Sociedade e em outras ações da Escola. É um lugar de resistência e de busca de alternativas para um modelo de sociedade mais justo, igualitário e solidário”, disse Leonídio Madureira, ressaltando a perspectiva de promoção da saúde em um território que convive com contexto de extrema violência e recorrentes violações de direitos.

Denise dos Reis, diretora da RedeCCAP, destacou o protagonismo de moradores na organização nesse e em outros espaços vinculados à organização. “Estamos sempre erguendo a bandeira da arte, da cultura e dos direitos; proporcionando momentos de alegria e de protagonismo junto à população”.  

A professora doutora Rogéria de Ipanema, assessora especial da Pró-reitoria de Extensão da UFRJ, valorizou a interação dialógica entre instituições e organizações de base comunitária. “É justamente isso que garante a permanência de ações no território”, afirmou. Cristina Guilan, representante da VPEIC, se emocionou com a fala das professoras da Escola e com o vídeo que retratava o processo de construção de uma música autoral pela turma infantil da EMM.

Chefe do Museu da Vida, Alessandro Batista saudou a oportunidade de receber mais uma vez a Escola em seu auditório, frisando que, em seu incentivo à arte e cultura, a EMM contribui para criar territórios saudáveis e colabora com a Fiocruz para o cumprimento de sua missão institucional.

Experiência coletiva e intergeracional

Apenas de 2013 a 2017, cerca de 1.465 alunos se inscreveram nas disciplinas – entre crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.  Eles puderam vivenciar a formação musical a partir de um ensino voltado para emancipação do indivíduo em relação às adversidades tão comuns nos territórios de favelas.

Componentes de uma metodologia de ensino para autonomia crítica, a Escola emprega o ensino coletivo e gratuito, em que os alunos aprendem também uns com os outros, pelo desenvolvimento da escuta e das habilidades de convivência; sem divisão por nível de conhecimento técnico; com valorização da experiência singular de cada indivíduo com a música; estímulo à criatividade e da empatia como força de transformação social, entre outras.

“A função social da arte, da música, da cultura não é enrijecer, mas mostrar caminhos e soluções, exercícios para que o indivíduo se sinta sujeito de um mundo em movimento. Além disso, a arte faz com que ele não sucumba com dificuldades do território (tiroteiro, falta de alimento, questões familiares). Ao contrário, faz com que crie, ouse”, elaborou Elizabeth Campos, coordenadora-geral da EMM, que identificou, através de depoimentos de mães e familiares de alunos, melhora expressiva do desempenho dos alunos nos estudos a partir do ingresso na EMM.

Música para territórios saudáveis

A relação entre os vínculos sociais solidários, a criação artística coletiva e uma cultura de cidadania ativa foi o mote da fala de Felipe Eugênio, coordenador do projeto Território, Arte e Saúde do Programa de Promoção de Territórios Urbanos Saudáveis da Cooperação Social da Fiocruz.

Ele iniciou sua fala esclarecendo sobre a categoria de territórios socioambientalmente vulnerabilizados – empregada por pesquisadores e trabalhadores da Cooperação Social da Presidência e outras unidades da Fundação – para produção dos diagnósticos territoriais que antecedem às estratégias de atuação do órgão.

Originária do campo da geografia, a categoria “território” descreve espaços construídos por e a partir de relações de poder. De acordo com Felipe Eugênio, os territórios socioambientalmente vulnerabilizados identificam regiões marcadas pela ocupação irregular do solo, circulação do ar e saneamento básico inadequados, onde se multiplicam doenças negligenciadas, entre outros fatores. “Todas essas mazelas e vulnerabilidades causadas por um sistema econômico e político que condiciona isso a uma parte da população”.

Ele partiu do conceito ampliado de saúde – que a considera fruto de um complexo conjunto de fatores objetivos e subjetivos - para valorizar as experiências de participação popular e vida coletiva em países latino-americanos como promotoras de saúde. “Faz diferença você ser sujeito, presente e ativo ali, com a possibilidade da auto-representação política, no sentido amplo de ‘política’”, argumentou.

“E na criação artística coletiva, você cria uma linguagem própria para expressão da sua experiência, cresce com a do outro, e faz valer um direito que é adquirido, mas tratado pela sociedade como privilégio, que é o direito de fruir da vida cultural de sua comunidade, como prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos”, disse.

Um bloco com marchinhas instrumentais com alunos e professores da Escola encerrou o evento com uma grande ciranda. As mesas de debate foram transmitidas ao vivo na íntegra pela página no Facebook do Espaço Casa Viva RedeCCAP, onde funciona a Escola de Música de Manguinhos.

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