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Conscientização contra a obesidade mórbida infantil

Uma maça em uma mão e um hamburger em outra

02/06/2021

Por: Everton Lima (IFF/Fiocruz)

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A obesidade infantil é considerada um dos maiores problemas de saúde pública pediátrica, afetando cerca de 224 milhões de crianças em idade escolar no mundo, e o Dia da Conscientização Contra a Obesidade Mórbida Infantil, celebrado em 3/6, é uma forma de dar visibilidade ao tema e informar a população sobre os cuidados necessários para combater a doença. A obesidade é uma condição complexa, vista pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma epidemia mundial, e sua prevalência crescente vem sendo atribuída a fatores políticos, econômicos, sociais e culturais.

Conforme informado pelo Ministério da Saúde (MS), um agravante é que ao invés das crianças estarem consumindo alimentos saudáveis, como frutas e verduras ou minimamente processados, estão sendo expostas muito cedo aos alimentos ultraprocessados, que prejudicam a saúde. A má alimentação e a diminuição de atividades físicas podem fazer com que crianças e adolescentes obesos apresentem dificuldades respiratórias, aumento do risco de fraturas, hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e efeitos psicológicos, como baixa autoestima, isolamento social, transtornos alimentares, entre outras doenças com riscos graves à saúde.

Dados sobre a obesidade infantil

As pesquisas são tão alarmantes que a OMS estima que em 2025 o número de crianças obesas no planeta chegue a 75 milhões. Os registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que uma em cada grupo de três crianças, com idade entre cinco e nove anos, está acima do peso no país. As notificações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, de 2019, revelam que 16,33% das crianças brasileiras entre cinco e dez anos estão com sobrepeso; 9,38% com obesidade; e 5,22% com obesidade grave. Em relação aos adolescentes, 18% apresentam sobrepeso; 9,53% são obesos; e 3,98% têm obesidade grave.

A obesidade é um dos fatores mais críticos para o agravamento da Covid-19

A quarentena, uma das recomendações no combate à Covid-19, pode aumentar ainda mais o problema, pois as crianças estão com pouco espaço para se movimentar e afastadas de suas atividades físicas habituais. Com isso, transtornos mentais, como a depressão e a ansiedade, podem ser potencializados - havendo qualquer sinal, os pais devem acolher os filhos e procurar ajuda especializada.

Uma questão que precisa ser acompanhada para prevenir e ajudar no tratamento da obesidade infantil, é a diminuição do comportamento sedentário, que é o tempo que as crianças ficam paradas, o que vem acontecendo ainda mais nesse momento de confinamento. A OMS recomenda que crianças menores de 1 ano façam até 30 minutos de atividades físicas diárias, como engatinhar e movimentar os braços. Crianças de 1 a 2 anos devem fazer até 180 minutos de atividades por dia. Entre 3 a 4 anos, os mesmos 180 minutos por dia, sendo que 60 minutos devem ser de atividades físicas moderadas ou vigorosas. Já as crianças maiores de 4 anos devem fazer 60 minutos por dia de atividade física de intensidade moderada. O tipo de atividade vai variar de acordo com a idade da criança.

É um desafio realizar atividades físicas durante a quarentena, mas, por outro lado, o isolamento deve ser visto como uma oportunidade. Apesar das limitações, também é tempo de improvisar e colocar a criatividade em ação.


ica para as crianças se manterem ativas nesse período de confinamento: evitar o uso excessivo de eletrônicos como videogame, televisão, celular e tablets (Imagem: IFF)

Brincadeiras ajudam a combater a obesidade infantil

Estudo recente aponta que crianças acima do peso possuem 75% mais chance de serem adolescentes obesos e 89% dos adolescentes obesos podem se tornar adultos obesos. Para evitar esse quadro, a prática de atividade física e uma boa alimentação são importantes aliados. Além disso, se estimulados desde a infância os exercícios viram rotina e têm impactos positivos também no futuro.

Brincadeiras são fundamentais para as crianças fazerem atividade física de forma prazerosa, com benefícios à saúde e ao bem-estar. Essa é uma boa alternativa para manter as crianças em movimento, com desenvolvimento da parte física e da parte cognitiva, ou seja, de memória e aprendizagem - confira brincadeiras que ajudam a combater a obesidade infantil.

Os pais precisam participar do cuidado, incentivar a boa alimentação, a prática de atividades físicas, dar bons exemplos aos filhos e levá-los frequentemente às consultas médicas.

Pediatra e Nutricionistas do IFF/Fiocruz esclarecem dúvidas

Entrevista com o pediatra e gestor dos ambulatórios da área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, José Augusto de Britto:

1. Quais são as causas da obesidade infantil?

José Augusto: A obesidade infantil é uma condição multifatorial, isto é, várias condições podem levar ao aumento de peso da criança. Dentre as causas mais frequentes estão os erros na alimentação. Se a criança ingere quantidades exageradas de alimentos ricos em gordura e carboidratos eles serão acumulados no organismo como gordura, aumentando o peso. A falta de atividades físicas também contribui para a obesidade, pois se as calorias que a criança ingere na alimentação não forem gastas em atividades físicas elas ficarão armazenadas no corpo como gordura.

2. Quando uma criança é considerada obesa?

José Augusto: Se uma criança tem seu peso 25% maior que o desejável para sua idade, ela tem o que chamamos de sobrepeso, um alerta para a obesidade. Quando o peso está 30% acima, ela já é considerada obesa. Ambas as condições podem favorecer a doenças futuras.

3. A obesidade contribui para o surgimento de outras doenças. Como tentar evitar?

José Augusto: A obesidade contribui para doenças crônicas na idade adulta, como diabetes e hipertensão, pois dentre os males que causam ao organismo está o depósito de gordura nos vasos sanguíneos que podem levar a desfechos graves, como infarto agudo do miocárdio em idade jovem ainda. Essas doenças podem ser evitadas com uma alimentação saudável aliada a prática de exercícios regularmente.

4. Por que a obesidade é um fator de risco para pessoas com Coronavírus?

José Augusto: Estar com sobrepeso ou com obesidade é um dos fatores mais críticos para o agravamento da infecção pela Covid-19, independente do sexo ou da idade da pessoa. O obeso perde a capacidade de produzir anticorpos e substâncias que dão proteção ao organismo, o que facilita a multiplicação dos vírus no corpo quando se pega a infecção. É interessante saber que a gordura pode funcionar como um reservatório para o vírus e assim mantê-lo mais tempo no organismo. A gordura acumulada no corpo também pode comprimir o diafragma, que é um músculo muito importante para que a pessoa possa respirar normalmente.

Entrevista com as nutricionistas do ambulatório de Nutrição em pediatria do IFF/Fiocruz Fernanda Simões e Gabriella Belfort:

5. Como identificar que uma criança está acima do peso?

Fernanda e Gabriella: Para identificar se a criança se encontra com excesso de peso é necessário avaliar o seu peso e estatura. Após realizar a pesagem e verificação da estatura, é possível realizar o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC). Em seguida, é necessário avaliar o IMC em relação a idade e sexo da criança, com base nas curvas para avaliação do crescimento propostas, em 2006 e 2007, pela Organização Mundial de Saúde e que podem ser encontradas na caderneta de vacinação da criança.

6. Como os pais podem ajudar na alimentação das crianças?

Fernanda e Gabriella: Os pais podem ajudar incentivando hábitos alimentares saudáveis e participando da alimentação da criança, servindo como modelos.

7. Quais as dicas para uma alimentação saudável durante a quarentena e quais alimentos devem ser evitados?

Fernanda e Gabriella: Os responsáveis pela alimentação da criança podem evitar a compra de alimentos menos saudáveis, como biscoitos recheados ou tipo salgadinhos, doces, refrigerantes e sucos industrializados para armazenar em casa. É possível substituir o consumo de alimentos ultraprocessados (formulações industriais feitas com 5 ou mais ingredientes) por alimentos mais saudáveis, como frutas, tubérculos, castanhas e cereais integrais.

Apesar dos alimentos ultraprocessados apresentarem maior durabilidade, eles devem ser evitados uma vez que, em geral, apresentam elevadas quantidades de açúcar, sal, gordura e aditivos químicos que podem ser nocivos à saúde. O consumo de alimentos ultraprocessados (macarrão instantâneo, sorvete, achocolatados, biscoitos em geral, embutidos, entre outros) é associado com o ganho de peso excessivo na infância.

Outra dica para se obter uma alimentação saudável é aproveitar o maior tempo em casa para preparar as próprias refeições, o que possibilita evitar ou reduzir o consumo de refeições/alimentos pré-prontos ou ultraprocessados. Envolver a criança no preparo de receitas culinárias saudáveis pode ser uma estratégia para que ela conheça e se interesse por novos alimentos. Deve-se estimular o consumo de frutas, verduras e legumes diariamente, além de aumentar a ingestão de água, evitando os sucos. Também deve-se evitar o consumo de frituras e açúcar, não fazendo a substituição por adoçantes artificiais.

8. O ideal para as crianças com obesidade infantil é focar na prática de atividades físicas, mas, hoje em dia, vivemos na era do uso excessivo de eletrônicos como videogame, televisão, celular e tablets. Que recomendações podem dar nesse sentido?

Fernanda e Gabriella: Os responsáveis pelas crianças em idade escolar devem procurar limitar o tempo de tela (TV, videogame, celular e tablet) em até 2 horas por dia e evitar que a criança realize suas refeições assistindo TV. O aumento do tempo de tela pode contribuir para inatividade física e menor gasto energético e a mídia televisiva pode colaborar para escolha por alimentos não saudáveis. Diante da quarentena e do isolamento social, deve-se estimular a criança a fazer atividades que possam ser realizadas em casa, como dançar, pular corda, jogar bola ou andar de bicicleta.

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