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Cenário pós-pandemia é tema de debate


15/05/2020

Mariella de Oliveira-Costa (Fiocruz Brasilia)

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Presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima participou do Seminário sobre Retorno da Atividade Econômica Pós-Período de Isolamento Social, promovido em formato virtual, pela Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira (14/5). Ela ressaltou o compromisso da instituição no enfrentamento da pandemia, que é o maior desafio de saúde pública mundial do século 21, e apresentou como tem sido o trabalho em diferentes plataformas de informação, integradas pelo Observatório Covid-19. A iniciativa produz informação para análises integradas e soluções de modo colaborativo, integrando grupos de pesquisa e laboratórios da instituição com agilidade para divulgação de materiais que auxiliem na tomada de decisão dos gestores e profissionais de saúde. Entre as iniciativas, destacou o reconhecimento feito pela Escola Nacional de Administração Pública ao MonitoraCovid-19, que traz dados das regiões e municípios brasileiros, com constante atualização, e também o trabalho desenvolvido na Bahia, com o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia).

Entre as preocupações da instituição, estão a interiorização da epidemia, considerando-se que 80% dos municípios brasileiros possui menos de 20 mil habitantes, então será desafiador adotar a testagem imediata para conter o avanço da covid-19 para cidades que não possuem estrutura de UTI, nem equipamentos específicos para os casos graves. Segundo Nísia, é necessário estreitar o diálogo da comunidade científica com o comitê interministerial do governo federal, para que qualquer retorno das atividades só seja realizado considerando-se a redução sustentada do número de casos, a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua oferta de leitos, profissionais, equipamentos e a testagem.

“A pandemia não é um fenômeno de curta duração, nem é algo que se trata rapidamente. Então, as ações devem ser graduais e as medidas gerais substituídas por especificas avaliando os contextos locais, e com base em evidências científicas, pois será necessário um reforço da vigilância sanitária após a pandemia. Salvar vidas é o nosso objetivo, então a ciência e a coordenação política devem caminhar juntos,” disse ela, acrescentando que o aprendizado da epidemia não está dado. "É fundamental fortalecer o SUS integrando os vários níveis de atenção, fortalecer a saúde mental e seus programas".

A presidente da Fiocruz também alertou para a necessidade de se adotar critérios que considerem a dimensão continental do país, e lembrou que a instituição é a coordenadora nacional do estudo clínico Solidarity, da Organização Mundial da Saúde. 

Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ) ressaltou a necessidade de se discutir parâmetros para o período pós-pandemia. Segundo ele, estamos longe de ter todas as informações importantes para que possamos pensar em uma segunda fase, com o fim do isolamento. “O mapa da Fiocruz choca, pois mostra que a contaminação cresce rápido e vai atingir todas as regiões e municípios  do país”, disse. “Eu tinha uma visão muito pró-mercado privado de saúde, mas a gente vê que o SUS é importante”, afirmou.

Agentes comunitários devem ser acionados

Estatística e pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA), Marcia Castro criticou a ausência do papel dos agentes comunitários de saúde (ACS) nos documentos do governo brasileiros relacionados à pandemia. Ela ressaltou que eles têm a confiança das pessoas atendidas pela Estratégia Saúde da Família, sabem onde vivem os idosos e as pessoas com comorbidades, conhecem as áreas que não têm acesso à água, as famílias nas quais o distanciamento social é impossível devido ao pequeno espaço onde vivem, porém o Ministério limita a atuação ao protocolo clínico, sem menção aos agentes comunitários que são peça chave no controle da pandemia. Ela relatou que, em Boston, o governo convocou voluntários para atuarem como “detetives covid”, que possam rastrear os casos positivos e conter o avanço do vírus. “O Brasil já tem os ACS, mas eles não receberam do governo federal nem equipamento de proteção, nem nada que viabilize o trabalho em campo. O que tem sido feito depende de iniciativas locais e não de uma iniciativa nacional, que seria o adequado. Sem a ajuda dos ACS, é impossível pensar em relaxamento do distanciamento social”, disse.

A pesquisadora explicou que os agentes podem atuar usando os registros da população que eles já tem e estão nas UBS, com  busca ativa de idosos e mapeamento de áreas mais vulneráveis. Outra necessidade que eles poderiam atender  é rastrear os contatos das pessoas que testem positivo para Covid-19, e estão hospitalizadas, para que esses contatos que ela teve antes do diagnóstico sejam colocados também em quarentena. Essas frentes de atuação já reduziriam a demanda por serviços hospitalares, que já operam acima da capacidade e, quando as políticas de distanciamento social começarem a ser relaxadas e os comércios, abertos, seria possível rastrear os que testarem positivo e seus contatos. Segundo ela, a equipe da Estratégia de Saúde da Família também continuaria o monitoramento das outras condições de saúde das pessoas, como as rotinas de pré-natal, de imunização, para que não se deteriore ainda mais as condições de saúde da população.

“Todo agente de saúde deveria ser testado antes desta implementação, para que não sejam transmissores, e treinados para o uso de equipamentos de proteção individual, garantindo o trabalho com segurança”, disse. Ela exemplificou também a necessidade de parcerias público-privadas para garantir o isolamento dos doentes que não têm condições de sair de suas casas, tal como tem sido feito em Nova York, com o uso de quartos de hotéis vazios. Segundo ela, o processo é longo, mas ainda há tempo para se tomar uma atitude usando a estrutura da atenção básica que já existe no país, para responder de forma adaptada à nossa realidade.

Médico e diretor geral do Hospital Sírio Libanês, Paulo Chapchap também ressaltou a importância de manutenção do distanciamento social, para que se tenha capacidade de tratar os que já estão infectados e se infectaram nas próximas semanas antes de se pensar em relaxar as medidas. Segundo ele, é preciso que se pense uma retomada de forma inteligente, considerando a capacidade de se fornecer e usar máscaras no transporte coletivo e no trabalho, verificar as condições de higiene pessoal nos ambientes sociais, com limpeza e higienização frequente, investimento na testagem molecular dos sintomáticos e garantia de condições de quarentena para quem não pode fazer isso nos seus domicílios, proposta também ressaltada pela pesquisadora de Harvard.

Segundo ele, a Fiocruz vai ganhar maior capacidade de testagem nos laboratórios do Rio de Janeiro e em Fortaleza, com 10 a 15 mil testes por dia, respectivamente e, gradualmente, isso vai elevar a capacidade de testagem em até 60 mil por dia, no futuro. “A ciência econômica é ciência humana, e ela precisa acolher não só dados fortes e fixos, mas também dados comportamentais e sociais da humanidade. As decisões são tomadas em função da captura que possamos fazer das necessidades das pessoas, que vão além das condições de sobrevivência econômica, mas de vida. Se protegemos a vida de forma mais eficiente, o impacto na economia será menor”, disse.

Ele faltou ainda sobre a necessidade de comunicação ampla, localizada e permanente para se detectar novos surtos da infecção que ocorrerão em diferentes localidades do país e em diferentes momentos, ao mesmo tempo em que será preciso capacidade de mobilização de equipamentos, máscaras e leitos para os locais mais atingidos, quando estes itens sobrarem em outros locais. O médico sugeriu também que a Câmara Federal patrocine campanhas de esclarecimento sobre o isolamento social.

Economista e ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga foi o moderador do debate e alertou que não existe uma fórmula mágica para a economia voltar a funcionar. Outros países já sentiram a necessidade de lockdown e a Fiocruz já se manifestou sobre isso com sabedoria, segundo ele. Ele destacou os mecanismos de assistência social do país, e as várias medidas tomadas para garantir a liquidez do sistema, ao mesmo tempo em que pequenos negócios, que dependem de contato direto com os clientes, evaporaram. “Esse assunto não é só do sistema bancário, mas de política pública. O objetivo é o achatamento da curva e o ganho de tempo para a chegada de uma vacina”, disse, ressaltando as várias soluções brasileiras, como a rede SUS, os mecanismos de distribuição de recursos como o Bolsa Família e o Cadastro Único, que chega a 100 milhões de pessoas.

“É necessária uma participação do governo federal agindo de maneira coordenada com as entidades científicas. Ainda há tempo e necessidade. Não é possível relaxar enquanto a curva sobe”. Fraga ressaltou ainda que passada a crise, será preciso reconstruir o arcabouço de responsabilidade fiscal, gastando com a proteção sanitária, humanitária e social, mas esses gastos devem ser temporários, não permanentes.

O seminário virtual foi promovido pela Câmara dos Deputados, por meio da Comissão de Ações contra Coronavírus. Para o responsável pela comissão, deputado Luiz Antônio Teixeira Junior (PP/RJ), o Brasil entrou na pandemia com premissas erradas, de que teríamos recursos humanos e respiradores que aguentassem a necessidade, de que precisávamos de novos hospitais ao invés de usar o que temos e de que conseguiríamos testar todos que fossem necessários.  Segundo ele, é precisamos encontrar saídas para este momento. “Não são só os respiradores que vão salvar o país. Quem vai operá-los? Onde serão colocados? Precisamos de mais informação e de união”, disse ele, alertando também para projetos que resgatem a soberania do país na área da saúde, sem depender tanto de outros países.

A relatora da Comissão e presidente da Frente Parlamentar da Saúde, deputada Carmem Zanotto (Cidadania/SC), lembrou que a Câmara começou os trabalhos sobre a pandemia ainda em fevereiro, para trazer os brasileiros que estavam nos países que foram epicentro da crise. Ela ressaltou a necessidade de investir na comunicação para manter a esperança da população brasileira. “É preciso reconhecer a saúde como investimento”, disse. 

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