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80 anos de Sergio Arouca: Fiocruz reúne registros históricos no YouTube


19/08/2021

Daniela Muzi (VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz)

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Em homenagem aos 80 anos de Sergio Arouca, que completaria em 20 de agosto de 2021, a VideoSaúde reuniu em uma playlist no seu canal no YouTube alguns registros históricos do médico sanitarista disponíveis em seu acervo. Ao todo são seis vídeos com depoimentos, palestras e pronunciamentos do professor, pesquisador e também do Arouca político, que foi deputado federal pelo Rio de Janeiro por dois mandatos (1991-1995 e 1995-1999) e candidato à vice-presidência da República em 1989. Em todas as posições, chama a atenção o vigor e atualidade de suas falas mesmo após mais de 30 anos, o que reitera a importância da digitalização, recuperação, preservação e acesso público de audiovisuais, que com o tempo ganham a relevância histórica a despeito da perda da qualidade de imagem e som.

 

Confira a playlist completa no YouTube. 

 

A tela mais quadrada e a resolução da imagem 480p denunciam a idade de Democracia é saúde, que por conta disso passou por um longo processo de restauração realizado pela VideoSaúde em 2013. São materialidades dos audiovisuais, que, assim como as marcas de expressão no rosto, contam uma história. Trata-se do pronunciamento histórico que Arouca realizou durante a 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), realizada em 1986, em Brasília-DF, marcada pela ampla participação popular que se organizou, de forma pioneira, em pré-conferências estaduais e que depois começaram a ser etapas preparatórias fundamentais à Conferência Nacional.

 

 

Discurso histórico

 

A voz impostada do locutor e a sequência rápida de imagens da chegada dos participantes entoadas pelo burburinho no início do vídeo não só nos transportam para dentro do evento, mas também para uma época onde a estética audiovisual era bastante influenciada pelo telejornalismo. Mas as imagens são apenas uma breve introdução para o evento principal, o pronunciamento de Sergio Arouca durante a 8ªCNS, por ele presidida. A conferência ficou conhecida por ser um marco na história do Sistema Único de Saúde (SUS), pois foi onde foram formulados e discutidos os princípios e diretrizes que orientam a política de saúde e que posteriormente vieram a subsidiar o texto da saúde na Constituição Federal de 1988 (artigos 196 e 200). 

 

O que vem a seguir é tão somente o discurso de Arouca, então também presidente da Fiocruz, eventualmente coberto com imagens dos participantes da plenária, mas que prescinde de qualquer recurso de edição diante de tamanha força do pronunciamento onde discorre sobre o conceito ampliado de saúde definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como completo bem-estar físico, mental e social e não a simples ausência de doença. Em sua fala, Arouca amplia ainda mais o conceito e assim parece precisar com maestria a definição de saúde tão bem sintetizada na expressão “Democracia é saúde”. “[...] é um bem-estar social que pode significar que as pessoas tenham mais alguma coisa do que simplesmente não estar doentes: que tenham direito à casa, ao trabalho, ao salário condigno, à água, à vestimenta, à educação, às informações sobre como dominar o mundo e transformá-lo. Que tenham direito ao meio ambiente, que não nos seja agressivo, mas pelo contrário, que permita a existência de uma vida digna e decente. Que tenha direito a um sistema político que respeite a livre opinião, a livre possibilidade de organização, a livre possibilidade de autodeterminação de um povo, e que não esteja todo tempo submetido ao medo da violência, daquela violência resultante da miséria, que resulta no roubo, no ataque. Que não esteja também submetida ao medo da violência de um governo contra o seu próprio povo, para que sejam mantidos interesses que não são do povo (...)".  

 

Faceta política

 

Seguindo na linha do tempo, em 1989, período de eleições presidenciais, a primeira eleição com voto direto no Brasil. Nos vídeos Campanha pela vice-presidência da República em 1989 (12 min) e Visita ao antigo colégio de Ribeirão Preto (24 min), há a oportunidade de ver e ouvir Arouca em plena campanha pela chapa do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual era militante desde a década de 1950. Os registros realizados pela Universidade de São Paulo e editados pela equipe do Departamento de Comunicação e Saúde (hoje VideoSaúde) não apresenta nenhum recurso estilístico, característica deste tipo de audiovisual, mas guarda um imenso valor histórico pelo seu caráter documental. Arouca poderia usar o mesmo discurso para participar das eleições de 2022.

 

Nos anos 2000, dois vídeos produzidos pela VideoSaúde e que abordam os cerca de 30 anos de gestão de democrática da Fundação, Democracia Fiocruz (2014), dirigido por Eduardo Thielen e Saúde e Democracia na Fiocruz – 30 anos (2015) com a direção coletiva de Eduardo Thielen, Stella Oswaldo Cruz e Wagner Oliveira e coprodução da Casa de Oswaldo Cruz (COC). Ambos documentários, as produções apresentam as características tradicionais do gênero de modo expositivo e argumentativo com uma série de depoimentos entremeados por imagens atuais à época e de arquivo. É interessante perceber como os sete e seis anos que separam as imagens dos dias de hoje já são suficientes para transformar todas as imagens em históricas de um tempo em que não usávamos máscaras e em que os trabalhadores da Fiocruz se aglomeram pelo campus

 

Saúde é democracia

 

Democracia Fiocruz (2014), de 52 min, acompanha as eleições para a presidência da Fundação Oswaldo Cruz em 2012 e destaca a história e a estrutura de funcionamento da sua gestão democrática, iniciada com Sergio Arouca em 1985. Aos apreciadores do cinema documental, o final do filme vai lembrar outros documentários que acompanham o processo eleitoral, temática sempre bem representada pelo cinema de não ficção como o clássico Primary (Primárias), 1960, de Robert Drew e Entreatos, de 2004, dirigido por João Moreira Salles – este inspirado no primeiro filme. Documentários que se filiam a uma tradição estadunidense do cinema direto, onde a câmera acompanha a ação, sem entrevistas, de forma a não intervir nos acontecimentos, como se fosse uma “mosca na parede”. O filme de Thielen já recorre bastante ao recurso entrevista, sejam elas no formato “povo fala”, com trabalhadores, estudantes e usuários, ou no formato “depoimento” (cabeças falantes, usa-se mais a expressão aglicana talking heads), com os candidatos Paulo Gadelha e Tânia Araújo-Jorge, diretores de unidades da Fiocruz e todos os ex-presidentes eleitos após a gestão de Arouca. 

 

Encerrando a lista, Saúde e democracia na Fiocruz – 30 anos e com ele, não por acaso retorna-se ao começo de tudo, o pronunciamento de Arouca na 8ª Conferência. O documentário de 18 minutos se concentra nos fatos que marcaram as três décadas de democracia na instituição e as conquistas deste modelo de gestão democrática. Mas também destaca o protagonismo da Fundação e de seus trabalhadores nas conquistas do campo da saúde como a histórica luta pelo fim do comércio de sangue e a simbólica reintegração dos cientistas da Fiocruz cassados durante o período da ditadura militar, episódio conhecido como Massacre de Manguinhos. Se a lista começa com aprendizado sobre “Democracia é saúde”, termina a sequência de vídeos também tendo aprendido que “Saúde é democracia”. 

 

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