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28/06/2017

Uso de agrotóxicos foi discutido em evento na Fiocruz Minas


Fonte: IRR/Fiocruz Minas

A questão dos agrotóxicos foi tema de um debate que reuniu, na tarde da última segunda-feira (26/6), pesquisadores, estudantes e profissionais de diversas áreas que atuam em diferentes instituições.  O evento, promovido por um grupo multidisciplinar da Fiocruz Minas, contou com uma série de apresentações, ministradas por acadêmicos, representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, e ainda pelo deputado federal Patrus Ananias (PT).

“ Essa atividade é um desdobramento do Seminário Democracia é Saúde que temos realizado desde o ano passado na unidade. E esse é um tema que não poderia faltar, afinal o veneno está nas mesas. Dessa forma, é muito gratificante termos reunidos aqui hoje tantos profissionais realmente dispostos a promover uma reflexão acerca desse assunto tão importante para todos nós”, afirmou a pesquisadora da Fiocruz Minas Tânia Maria Alves, uma das organizadoras do encontro.

Efeitos dos Agrotóxicos na Saúde Humana foi o tema da apresentação da pesquisadora Eliane Novato, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  Novato chamou a atenção para a situação dos trabalhadores do campo, expostos de forma constante aos mais diversos tipos de produtos, com diferentes níveis de toxidade.

“Não é raro vermos crianças de colo no meio das plantações acompanhando os pais. O impacto que isso tem na saúde é, muitas vezes, complicado de mensurar porque são vários os fatores que entram na relação exposição e dano”, disse. “Altas concentrações de produto tóxico por um período curto têm um efeito imediato, mas baixas concentrações por um longo tempo têm um efeito tardio de difícil avaliação”, explicou Tânia.

De acordo com a pesquisadora, há muitos desafios no enfrentamento dessa questão. Segundo ela, é preciso melhorar o conhecimento, bem como a rede de apoio ao diagnóstico e ainda promover a educação para a saúde. “Todos sabem dos malefícios causados pelos agrotóxicos; isso já está provado. Precisamos, agora, travar uma luta política”, destacou.

A pesquisadora Daniela Adil, do Departamento de Geografia da UFMG, apresentou conceitos de agricultura urbana e rural, apontando alguns paradigmas que precisam ser quebrados. “Hoje, no contexto institucional metropolitano, sempre que propomos discutir a agricultura nos deparamos com três argumentos: de que é irrelevante, inviável e incompatível”, declarou. “Dizem que é irrelevante, comparando com outras questões sociais e ambientais urbanas; inviável, se comparada a outros usos e ocupações da terra com maior retorno econômico; e incompatível, devido aos impactos ambientais causados”, explicou.

Segundo a pesquisadora, que desenvolve estudos na área de agricultura urbana e segurança alimentar na Região Metropolitana de Belo Horizonte, é necessário ter clareza sobre o que é rural e urbano sob o ponto de vista legal, considerando ainda que há uma diversidade de práticas agrícolas. “ Há uma nova visão sobre agricultura em construção. Ciência, movimento e prática podem ser os pilares de sustentação para a agroecologia”, salientou.

Agroecologia
O representante do MST Aguinaldo Batista apresentou algumas experiências que vêm sendo adotadas pelo movimento, mostrando que é possível trabalhar a terra sem agredir o meio ambiente e a saúde. Segundo ele, o Brasil é hoje o maior produtor de arroz orgânico do mundo, graças aos assentamentos localizados no sul do país. “E ainda conseguimos fazer esse arroz, que é mais caro, chegar à mesa dos mais pobres, entrando nos Programas de Alimentação Escolar”, contou.

De acordo com o integrante do MST, há ainda uma produção intensa de café orgânico no Sul de Minas, açúcar mascavo, granola, milho, fitoterápicos, além de frutas no Nordeste do país.  “Também temos promovido feiras, festas e outros eventos que têm o objetivo de sensibilizar a população. Além disso, todas as escolas do MST têm a orientação de educar para a agroecologia”, destacou.

Batista também lembrou um comercial que vem sendo veiculado pelos canais de TV, que diz que o agronegócio é tech, é pop, é tudo.  “O agronegócio pode ser tudo, menos vida. Mas por meio da agroecologia, que também pode ser tech e pop, estamos propondo vida”, afirmou.

Representando o deputado estadual Rogério Correa (PT), o assessor parlamentar Eduardo Leal destacou que, ao falar sobre agrotóxicos, é importante lembrar que a discussão se dá “no centro nevrálgico do capitalismo”. Segundo ele, o mesmo conglomerado que produz o veneno, produz também o medicamento. “Estamos lidando com um setor que não tem consideração por nada, a não ser pela mais valia”, disse.

Leal contou que há um projeto tramitando na Câmara, com o apoio da bancada ruralista, propondo a mudança do nome agrotóxico para fitodefensivo. “Ou seja, o veneno sendo transformado em algo elegante”, comentou. Por outro lado, um projeto que pretendia impedir a pulverização de veneno por via aérea ficou três anos tramitando na Assembleia Legislativa de Minas Gerais sem ser aprovado. Quando finalmente teve aprovação, não foi regulamentado.

A contaminação causada pela pulverização aérea vai além das terras usadas no plantio (Nuvens de Veneno)

“É, de fato, uma luta de classes. É toda uma estrutura capitalista tentando conter qualquer avanço. E a população ainda não se deu conta de que se trata de um problema de saúde pública gravíssimo. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo; e Minas Gerais é o terceiro Estado que mais consome dentro do país”, lembrou

Projeto de país
O deputado federal Patrus Ananias (PT) iniciou sua apresentação com a leitura de um texto de Alan Tygel, da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, que relata fusões realizadas entre gigantes do agronegócio e o risco disso para a agroecologia. Patrus chamou a atenção para o poder político que essas grandes empresas representam e a capacidade delas de alterar legislações.

“Mais concentração, mais poder para o agronegócio. E é por isso que as forças comprometidas com a vida devem assumir essa luta em defesa da vida”, destacou. “A verdade é que nós não conseguimos disciplinar o capitalismo. E esse é um desafio que precisa ser superado: precisamos condicionar a economia de mercado ao direito à vida, a uma nação justa e saudável sob o ponto de vista ambiental. É uma bandeira que precisa ser assumida com muito mais vigor”, disse.

Patrus defendeu ainda a importância de construir um projeto de país que preserve a vida do seu povo e lembrou que o nível de violência atual é inaceitável. O deputado também destacou que as pessoas têm que ser chamadas a participar e a definir onde o dinheiro tem que ser gasto.

“É preciso fazer um orçamento participativo no Brasil inteiro, com as pessoas acompanhando a execução e fiscalizando. Temos que pensar em uma reforma agrária, urbana e tributária”, ressaltou. “É preciso pensar o Brasil com amor, trabalhando a diversidade e o desenvolvimento regional. Temos que disseminar um sentimento mais apegado a um projeto de sociedade que nos faça melhores”, disse.

A diretora da Fiocruz Minas, Zélia Profeta, encerrou o evento, agradecendo a participação dos palestrantes e da plateia e reforçou a importância de unir forças e continuar a luta.

“Não podemos deixar que essas reflexões que foram suscitadas morram aqui. Temos, agora, a responsabilidade de dar continuidade a essas discussões”, afirmou.

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