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Simpósio Internacional Zika reúne cientistas de 13 países

Foto da mesa de abertura com Jorge Neira, da IAP for Health (em primeiro plano); Wilson Savino, diretor do IOC; Paulo Gadelha, presidente da Fiocruz; e Marcello Barcinscki, da ANM

08/11/2016

Por: Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)*

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Desde que o aumento de casos de microcefalia foi declarado pelo Ministério da Saúde como emergência nacional de saúde pública no Brasil, em 11/11/2015, o avanço do conhecimento científico permitiu confirmar que o vírus zika está associado não apenas a este quadro, mas a diversas malformações que atualmente caracterizam a síndrome da zika congênita. Também se tornou clara a associação do patógeno com manifestações neurológicas em adultos, como a síndrome de Guillain Barré, e os mecanismos através dos quais a doença danifica os neurônios são cada vez mais compreendidos. Ao mesmo tempo, numerosos desafios persistem: ainda não se sabe com que frequência as malformações ocorrem ou que danos poderão ser observados no longo prazo; os testes de diagnóstico precisam ser aprimorados; tratamentos e vacinas devem ser desenvolvidos; e o controle do mosquito Aedes aegypti, principal transmissor do agravo, demanda ações efetivas. O balanço dos esforços dos últimos 12 meses e as perspectivas para o futuro no enfrentamento da doença marcaram a abertura do evento internacional Zika, nesta segunda-feira, 07/11. Promovido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Academia Nacional de Medicina (ANM) e Academia Brasileira de Ciências (ABC), o seminário ocorre até quinta-feira, 10/11, na sede da ANM, no Rio de Janeiro. Os interessados em participar podem se inscrever no local, na Avenida General Justo, 365, no Centro, próximo ao Aeroporto Santos Dumont. Na programação estão previstos 60 pesquisadores, originários de 13 países.

Na mesa de abertura, a reação rápida dos cientistas e dos profissionais de saúde brasileiros ao vírus zika foi destacada, com ênfase para a colaboração estabelecida. “A maturidade da área de ciência e tecnologia no país e a presença do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o território nacional foram fundamentais para identificar esse fenômeno novo e rapidamente gerar evidências que permitiram decretar a situação de emergência de saúde pública e começar a construir respostas”, afirmou o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha. “As comunidades científica e de saúde do Brasil trabalharam de forma exemplar. A formação de redes de pesquisa, tanto no plano nacional como internacional, foi essencial para responder de forma rápida e eficaz às demandas da sociedade”, declarou o diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Wilson Savino, um dos organizadores do evento. “A zika mostrou que temos competência na área de ciência e saúde não apenas para gerar conhecimento, mas para responder a uma emergência”, avaliou o integrante da ANM e da ABC Marcello Barcinski, também organizador da iniciativa.

Os múltiplos desafios que o vírus zika representa para a comunidade científica também foram ressaltados na abertura do seminário. "A zika continua se espalhando e há situações diferentes nos vários países. Precisamos trabalhar juntos para entender essas diferenças e levá-las em consideração ao traçar estratégias de enfrentamento”, disse o co-presidente da Rede Interamericana de Academias de Ciências (Ianas, na sigla em inglês), Jeremy McNeil. “A realização desse seminário um ano depois da declaração de emergência é muito importante porque precisamos trocar informações de diversas áreas, não apenas da medicina e da biologia, mas das ciências sociais e de outros campos do conhecimento para formular respostas”, ressaltou o representante da Parceria Interacademias para Saúde (IAP for Health, na sigla em inglês) Jorge Neira. “Além dos desafios biomédicos, questões urbanas como a carência de saneamento e a pobreza saltam aos olhos quando observamos a situação da Zika e precisarão ser abordadas no controle da doença”, reforçou o diretor da ABC José Murilo de Carvalho.

Agenda científica para enfrentar a doença

A primeira conferência do seminário abordou itens que devem ser priorizados nas pesquisas relacionadas ao vírus zika e às consequências da infecção. O pesquisador da Fiocruz-Bahia Maurício Barreto lembrou que o patógeno era considerado causador de quadros sem gravidade até 2015. Segundo ele, a associação com malformações congênitas, observada pela primeira vez no Brasil, foi uma surpresa para cientistas de todo o mundo. Por outro lado, considerando a ampla presença do mosquito A. aegypti na América Latina, a rápida disseminação da doença na região era uma questão previsível. “A dengue está presente no Brasil desde a década de 1980, com epidemias periódicas. Em 2014, assistimos à chegada da chikungunya, e em 2015, da zika. As três doenças são transmitidas pelo A. aegypti. A dificuldade para combater o mosquito está ligada a problemas estruturais do ambiente urbano, que não conseguimos superar”, afirmou o pesquisador.

Barreto detalhou uma agenda científica proposta por pesquisadores brasileiros em um artigo publicado na revista científica The Lancet em maio deste ano, incluindo itens relativos a coleta de evidências sobre doença, desenvolvimento de métodos de diagnóstico, tratamento e vacina, controle do A. aegypti e a preparação dos sistemas de saúde. A liberação de verbas para financiamento e a redução dos entraves burocráticos foram destacadas como fundamentais para acelerar o progresso das pesquisas. Mediador da conferência, o vice-presidente de Pesquisa e Laboratórios de Referência da Fiocruz, Rodrigo Stabelli, também comentou as dificuldades enfrentadas pelos cientistas. “A comunidade científica brasileira mostrou extrema capacidade de resposta, mas ainda temos que destravar regras para liberação de financiamento em situações de emergência”, avaliou.

Premiação em neurociências

Durante o seminário, foi realizado o pré-lançamento do Prêmio Internacional Fiocruz-Servier de Neurociência. O acordo foi assinado pelo presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, e pelo presidente da Servier Brasil, Christophe Sabathier. O edital da premiação deve ser divulgado nas próximas semanas nos sites da Fundação e da farmacêutica. A iniciativa vai reconhecer pesquisadores brasileiros que atuam nas áreas de neuroinflamação e doenças neurodegenerativas, incluindo uma premiação especial para estudos sobre o vírus Zika.

* Edição: Raquel Aguiar

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