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Pesquisa em acervo de obras raras permite resgate da história da fagoterapia no Brasil


30/06/2020

Fonte: Icict/Fiocruz

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O Brasil tem muita história para contar sobre um método de combate a doenças provocadas por bactérias, que estava quase esquecido. Trata-se da fagoterapia, que é o uso de fagos no combate a doenças de origem bacteriana. Os fagos são um tipo de vírus que só fazem mal a bactérias, e não atacam o organismo humano. Desde a primeira metade dos anos 20, a fagoterapia foi largamente utilizada no Brasil pelo então Instituto Oswaldo Cruz, como era chamada a Fiocruz. Até que, no início dos anos 40, a fagoterapia foi deixada de lado para dar lugar aos antibióticos.

Quem lança luz sobre essa história é o microbiologista brasileiro Gabriel Magno de Freitas Almeida, em sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Jyvaskyla, na Finlândia, intitulada "A história perdida da fagoterapia no Brasil". O estudo de Gabriel foi publicado em março na renomada revista científica The Lancet Infectious Diseases.

Gabriel usou o acervo de Obras Raras Fiocruz, que é mantido pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), para acessar cerca de 50 artigos históricos raros e descrições de 40 casos clínicos, além de menções a outros 91 casos. Lá, ele descobriu o Dr. José da Costa Cruz (que não tinha qualquer parentesco com Oswaldo Cruz, falecido em 1917). Dr. Cruz trabalhava no Instituto Oswaldo Cruz e foi pioneiro e líder na pesquisa e na aplicação da fagoterapia no Brasil até os anos 40.

“A fagoterapia foi uma forma eficiente de combater infecções bacterianas no passado, que acabou sendo esquecida por países ocidentais depois da Segunda Guerra Mundial”, relata o pesquisador. “Agora, após décadas de uso e abuso de antibióticos, a humanidade está ameaçada pela expansão da multirresistência bacteriana. O uso de fagos é considerado uma solução para essa crise. Essa revisão traz à tona um pedaço importante, e esquecido, da história da fagoterapia.”

Acervo histórico

A base de dados estudada por Gabriel é parte do acervo da Biblioteca de Manguinhos, que nasceu e cresceu junto com a própria Fiocruz, como conta Maria Claudia Santiago, chefe da Seção de Obras Raras:

“O acervo da Seção de Obras Raras fica no Castelo Mourisco, símbolo da Fiocruz, e ocupa um espaço original projetado pelo próprio Oswaldo Cruz e ocupado desde 1909, ou seja, antes mesmo da finalização do prédio, em 1918. Atualmente, este acervo conta com cerca de 50 mil itens, sendo o mais antigo de 1616: mais de 400 anos de existência",

Por ser uma base institucional, o acervo da Biblioteca de Manguinhos segue as pesquisas desenvolvidas pela Fiocruz desde sua origem. Abriga também bibliotecas particulares de cientistas, que sempre foram pesquisadas por importantes pesquisadores brasileiros, como o próprio Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Henrique Aragão, dentre outros.

“A história presente no acervo da Biblioteca de Manguinhos se correlaciona com o que foi produzido pela Fiocruz ao longo de seus 120 anos. Mesmo sendo um acervo voltado para as Ciências Biomédicas, é inevitável a aproximação com a História da Medicina, visto que é resultado de uma memória institucional e um patrimônio construído a muitas mãos, por diferentes e diversos saberes”, complementa Maria Claudia.

Protagonismo da ciência brasileira

A fagoterapia foi criada na França por volta de 1920. Gabriel relata em sua pesquisa que no Brasil, em 1921, os testes iniciais com fagoterapia fracassaram. Mas em 1923 surgiram os primeiros sucessos clínicos e, a partir de 1924, os fagos já eram produzidos e utilizados em larga escala, com produção em massa. O produto passou a ser facilmente comprado em farmácias e também era fabricado por alguns médicos. No fim dos anos 30, o uso de fagos já estava generalizado, fazia parte do treinamento dos profissionais de saúde e a fagoterapia era apresentada em conferências sul-americanas.  Naqueles anos, seu uso era principalmente contra a disenteria bacilar e contra infecções por estafilococos. Atualmente, a fagoterapia não é regulamentada no Brasil, o que significa que qualquer produto de fago e seu uso precisam ser aprovados pelas agências reguladoras.

O pesquisador conta que o protagonismo do Brasil nas pesquisas sobre o tema foi um dos fatores que o motivou a investigar a história da fagoterapia. “Dr. Cruz fez seu primeiro teste clínico antes mesmo de saber que fagos estavam sendo testados como tratamento na França. A bacteriophagina disenterica, produto do então Instituto Oswaldo Cruz, foi pioneira em relação a testes em massa, tendo sua eficácia comprovada ao longo do território nacional e durante a Revolução Paulista de 1924, precedendo os testes famosos na Índia e na União Soviética. A Fiocruz foi uma grande referência internacional em fagoterapia. Além de preparar e distribuir fagos pelo Brasil, há indícios de troca de informação e colaborações internacionais. Dados da instituição brasileira e do Dr. Cruz foram inclusive citados pelo Dr. George Eliava como evidência para obter financiamento para seu próprio instituto, hoje o renomado Instituto Eliava, em Tbilisi (Geórgia).”

A pesquisa histórica de Gabriel somará a experiência do Brasil com a fagoterapia aos esforços históricos já conhecidos em França, Geórgia, Rússia e Polônia, e poderá ser útil a pesquisadores de vários países que buscam alternativas aos antibióticos, que cada vez têm funcionado menos contra doenças bacterianas (como tuberculose, disenteria, coqueluche, tétano, leptospirose, gonorreia e infecções estafilocócicas, entre outras). O artigo original está disponível para leitura no site do periódico.

As principais obras raras da Biblioteca de Manguinhos foram digitalizadas e estão disponíveis para consulta no site Obras Raras Fiocruz.

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