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Páginas tristes da história

Foto de cinco cientistas cassados, entrevistados em 1986

15/05/2015

Keila Maia / Intranet Fiocruz

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Quando um técnico da Divisão de Zoologia do Instituto Oswaldo Cruz chegou dizendo que um decreto do governo militar acabava de cassar os direitos políticos do pesquisador Herman Lent, ninguém acreditou. Era 1º de abril de 1970, e as pessoas que estavam ali no momento pensaram se tratar de brincadeira pelo Dia da Mentira.

“Só vimos que era sério quando ele retornou. Aí, colocamos no noticiário e pudemos ouvir que mais sete pesquisadores estavam nesta lista de cassados. Era o Ato Institucional nº5 em ação. O telefone começou a tocar, e o resto do dia nós vivemos aquela angústia. Estávamos todos perplexos”, relembra José Jurberg, coordenador do Laboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomíneos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), na época, assistente de Herman Lent.

Entre os cassados também estavam Haity Mousssatché, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Cid de Melo Perissé, Hugo de Souza Lopes, Sebastião José de Oliveira, Fernando Braga Ubatuba e Tito Arcoverde Cavalcanti. O depoimento* de Moacyr Vaz de Andrade às pesquisadoras da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Wanda Hamilton e Nara Azevedo, em 1986, após a anistia e reintegração, reforça o clima de perplexidade que pairou sob o IOC naquele dia.

“Eu tinha ido visitar um laboratorista amigo meu e, quando estava lá, saiu a notícia. Foi ele quem ouviu primeiro e veio me falar. Quando me refiz do susto, fui à parte de baixo do prédio do Quinino para contar ao Perissé. Aí eu perguntei assim: ‘Você está bem? Como está seu coração? Ele disse: 'Está ótimo’. Então continuei: ‘Se você está bem, eu vou te dar uma notícia. Fica tranquilo, mas nós fomos cassados’. E ele: ‘Mas não é possível! ’. Resolvi então ir ao prédio principal procurar o Herman Lent. Quando cheguei no andar, ele já vinha saindo da sala. Não precisei falar nada, porque o Herman tinha os olhos marejados de lágrimas.”

Cinco dias depois, mais dois pesquisadores do IOC, Masao Goto e Domingos Arthur Machado Filho, teriam os nomes publicados no Diário Oficial, desta vez, sendo aposentados compulsoriamente. Ao todo, o IOC perdia dez pesquisadores. Todos eles foram informados de que deveriam retirar seus pertences imediatamente e que, partir do dia seguinte, não poderiam mais entrar no instituto.

“Veio da direção o comunicado de que eles estavam proibidos de entrar no prédio. Não poderiam nem mesmo frequentar a biblioteca”, diz José Jurberg.

Pesquisas interrompidas

A cassação dos pesquisadores e as proibições que vieram junto com ela causaram inúmeros prejuízos ao IOC e à ciência. Isso porque todos os cassados eram profissionais experientes, que, embora convivessem com várias limitações para a realização de seus trabalhos desde o golpe militar de 1964, estavam ainda à frente de estudos importantes. Também na entrevista concedida em 1986 às pesquisadoras da COC, Moacyr Vaz destacou que uma das pesquisas interrompidas em 1970 avaliava o metabolismo de um fungo que poderia eliminar as dores causadas por tumores cancerígenos sem que o paciente ficasse dopado.

“É muito difícil você, fora de uma instituição científica, ter acesso à bibliografia especializada. Muito difícil um particular conseguir ter determinadas revistas, que são todas importadas, caras, pagas em moeda forte. Então, praticamente o estudo ficou abandonado”, explicou.

Na entomologia, estudos sobre os estrepsípteros, um grupo de insetos pequenos e raros, que vinham sendo realizados pelo pesquisador Sebastião de Oliveira, ficaram parados por falta de profissionais. O mesmo ocorreu com as pesquisas sobre quironomídeos, mosquitos usados em estudos genéticos por terem cromossomas grandes.

“Eu brincava com meus colegas dizendo que eu era o maior conhecedor de quironomídeos da América do Sul. E era o maior por um motivo muito simples: eu era o único. Então, eu saindo, continuo sendo o único porque não teve ninguém para desenvolver essa linha de pesquisa”, relatou Sebastião de Oliveira às pesquisadoras da COC, em 1986.

No que se refere à formação de profissionais, com a saída dos pesquisadores, os prejuízos foram também significativos. Um cálculo muito aquém da realidade, feito por Sebastião de Oliveira, dava conta que, se cada um dos cassados tivesse preparado um profissional por ano, durante os 16 anos de afastamento teriam sido formados 160 novos cientistas. Um número grande, mas muito abaixo do real, já que na Divisão de Fisiologia e Farmacodinâmica, por exemplo, onde atuava Haity Moussatché, havia, em 1970, cerca de 20 estudantes. Todos eles também foram proibidos de frequentar o IOC.

“O impacto foi dramático no corpo de pesquisadores, servidores e alunos de Manguinhos. Eu e outros estudantes, como Marise Jurberg, José Lopes Quadra, Otávio Aprigliano, entre muitos outros, fomos imediatamente expulsos dos laboratórios e impedidos de entrar na instituição. Muitas pesquisas foram drasticamente interrompidas, sonhos e carreiras destruídos”, relata Renato Cordeiro, ex-diretor do IOC e ex-vice-presidente de pesquisa e ensino da Fiocruz que, em 1970, era estagiário de Moussatché e terminava o curso de ciências biológicas- modalidade médica, na Universidade do Estado da Guanabara, hoje Uerj.

Renato lembra ainda que, além de Moussatché, dois outros cassados pertenciam ao quadro da farmacodinâmica: Fernando Ubatuba e Tito Cavalcanti. Segundo ele, com a saída de três importantes nomes, os espaços físicos que pertenciam a essa área foram destinados a outros setores do Instituto. Não fosse a boa vontade de funcionários, parte do material usado nesses laboratórios poderia ter virado sucata. É o que conta Haity Moussatché, também em entrevista concedida em 1986: “Depois que fui cassado, viram que os materiais iam ser destruídos e, então, levaram, não para eles, mas para as escolas onde estavam. Trabalhavam aqui, mas não em tempo integral. Quando voltei, várias pessoas telefonaram-me espontaneamente para devolver. Foram coisas que guardaram com cuidado, por apreço ao laboratório”, relatou. Segundo ele, entre os objetos, havia cilindro registrador, fisiógrafo, microscópio de contraste, além de várias substâncias químicas valiosas."

Esforços de preservação e recuperação

A área de entomologia também sofreu muitos danos, logo após a cassação. Uma das primeiras medidas tomadas pelo então diretor do Instituto foi transferir todas as atividades ligadas ao setor para o porão do antigo prédio do Hospital Evandro Chagas. De acordo com a curadora da Coleção Entomológica, Jane Costa, os armários contendo material científico foram transportados em condições inadequadas, ocasionando perdas irreparáveis a inúmeros exemplares da coleção. Ela diz que algumas partes do acervo foram então enviadas para outras instituições para protegê-las e também para darem suporte a projetos de pesquisa em andamento.

“Infelizmente, muito do material danificado e extraviado durante o período que se seguiu ao episódio da cassação não poderá ser recuperado. Sendo igualmente lamentáveis os efeitos do tempo perdido, que jamais poderão ser minimizados”, diz Jane. “Entretanto, significativos esforços têm sido feitos para projeção, divulgação e modernização desse acervo”, completa.

Marcelo Pelajo, chefe do Laboratório de Patologia e curador da Coleção de Febre Amarela, ressalta que os prejuízos decorrentes dessa época têm reflexos ainda hoje. Materiais relacionados à febre amarela que haviam sido extraviados estão sendo recuperados, graças a um Plano Diretor traçado para o período entre 2007 e 2016. Segundo ele, é um esforço que, se não tivesse ocorrido o chamado “Massacre de Manguinhos”, poderia estar sendo empregado para outras atividades.

“Há materiais que só foram encontrados em 2004, nas obras de construção do Museu da Vida. Na época da cassação, ao mudarem de lugar a coleção original do Museu da Patologia, os registros, as anotações sobre cada espécime se dispersaram, se perderam. Então, poderíamos estar ainda mais longe, porque, hoje, fazemos um retrabalho. É claro que procuramos fazer a recuperação, ao mesmo tempo em que utilizamos as informações; não dá para esperar recuperar tudo para recomeçar a estudar”, diz.

*Todos os depoimentos dos pesquisadores cassados foram retirados de entrevistas realizadas entre 1985 e 1986 pelo projeto ‘Memória de Manguinhos’ e fazem parte do acervo de depoimentos da Casa de Oswaldo Cruz.

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