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Fiocruz Ceará debate criação de pós graduação em saúde e ambiente com diálogos entre as Ecologias e o Cuidado

Desenhos: Ricardo Wagner

05/03/2020

Foto: Isabelle Lopes

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Fomentar a produção compartilhada de conhecimentos, envolvendo os saberes científicos e populares. Este é um dos focos da proposta de criação do Programa de Pós Graduação (PPG) em Saúde e Ambiente da Fiocruz Ceará. O debate, que acontece desde 2019, teve mais um desdobramento, com a realização de um seminário e uma oficina para discutir o tema, nos dias 17,18 e 19 de fevereiro, na sede da Fundação Oswaldo Cruz no estado, localizada no município do Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza.

“Eu fico muito feliz em ver a sala cheia de atores importantes para o desenvolvimento do Ceará. Essa colaboração é essencial para desenvolvermos atividades integradas que beneficiem os povos em seus territórios. Temos diálogos permanentes com os movimentos sociais e gostaria de destacar a atuação dos pesquisadores da área de saúde e ambiente que se envolvem e trazem soluções importantes, valorizando os saberes populares”, destacou o coordenador da Fiocruz Ceará, Carlile  Lavor.

O principal objetivo do PPG é também o maior desafio: promover um curso transdisciplinar e inovador envolvendo os sujeitos das pesquisas, rompendo com a tradicional relação sujeito/objeto das pesquisas extrativas e interagindo com os mesmos nas discussões e atividades, cenário que marca as iniciativas da área de Saúde e Ambiente da Fundação no Ceará.

As crescentes demandas por justiça social e sanitária, aliadas a crise ambiental, agravam os problemas de saúde da população. A contaminação por agrotóxicos, a injustiça hídrica, os novos hábitos alimentares associados a industrialização da alimentação e as mudanças nos ambientes são exemplos dos riscos existentes. Atualmente no Brasil, aliado a tudo isso, a falta de profissionais capacitados, docentes e pesquisadores da área de saúde e ambiente tornam ainda mais necessária, a implementação de medidas que reduzam tais condições. Diante da complexidade que envolve a relação saúde e ambiente, faz-se cada vez mais necessário a formação de docentes e pesquisadores com visão crítica, complexa e ampla sobre a realidade. 

“Queremos fomentar um saber mais poderoso capaz de alterar a realidade das pessoas na perspectiva da melhoria de sua qualidade de vida, por isso a ideia de um programa que estimule processos formativos, envolvendo o saber acadêmico, científico e o saber popular, que muitas vezes é invisível, apesar de portar soluções para muitos problemas contemporâneos, a exemplo dos saberes indígenas relacionados a plantas medicinais. O diálogo se encaminhou para uma proposta de pós-graduação que relacione a saúde, as ecologias e os saberes, bem como o cuidado com as pessoas e o planeta, para estimular que os profissionais possam ter uma visão de mundo mais crítica e complexa”, explicou o pesquisador Fernando Carneiro, coordenador da área de Saúde e Ambiente da Fiocruz Ceará.

A primeira roda de conversa sobre Desafios para o Campo da Saúde e Ambiente no Brasil e no Nordeste, discutiu as bases para a construção da visão e dos valores da pós-graduação em pauta. Um dos apontamentos preliminares dessa oficina destacou que o PPG pudesse formar profissionais na perspectiva de uma visão de mundo que valorizasse a diversidade, a solidariedade, a amorosidade, a criticidade, a dialogicidade, a partir de um compromisso com a vida e justiça social, sanitária, ambiental e cognitiva. 

Marcelo Firpo (NEEPES/ENSP), Guilherme Franco Netto (VPPAPS); Leandro Araújo (RESSADH, MST, Rede de Médicas e Médicos Populares) e o debatedor João Arriscado da Universidade de Coimbra. Na sequência ocorreram Rodas de Diálogos com experiências nesse campo com o Prof. Jeovah Meirelles (Departamento de Geografia da UFC), Carlos Machado Freitas (CEPEDES/Fiocruz), Vera Dantas e Ray Lima (Articulação Nacional de Educação Popular- ANEPS), Marina Fasanello (NEEPES), Cristina Nascimento (CETRA), Alice Pequeno (Escola de Saúde Pública do Ceará-ESP), Ana Claudia de Araújo Teixeira (Fiocruz Ceará), José Cordeiro (Fiocruz Ceará), Edenilo Barreira e Maxmiria Batista(DSC/UFC). O debate culminou com uma oficina coordenada por Vanira Pessoa (Fiocruz Ceará) e Idalice Barbosa (pesquisadora convidada) que discutiu as bases para a construção da visão e dos valores da pós-graduação em pauta.

A coordenadora do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA), Cristina Nascimento, destacou a criação de uma pós graduação na região do semiárido e a relação da saúde com o ambiente.

“O grande diferencial é a maneira como o curso se apresenta, trazendo a perspectiva do saber científico e do saber popular. Essa relação da saúde com o ambiente, trazendo um olhar não só clínico, mais preventivo da saúde, reconhecendo os saberes e as culturas tradicionais dos povos, dialoga com uma ciência mais articulada e integrada”, defende Cristina.

Já o médico popular Leandro Araújo, destacou o papel fundamental da Fiocruz em atividades que minimizem processos de adoecimento e desenvolvam fortalezas nos territórios.

“Essa construção de saber permite que a produção do conhecimento fortaleça o processo de cuidado e saúde nos territórios. Além disso, traz perspectivas esperançosas de uma sociedade mais justa e igualitária por meio dos conhecimentos voltados às necessidades do povo. Os movimentos populares insistem que essa produção acadêmica retorne para as comunidades. Uma tarefa árdua, que exige um processo democrático e de muita sensibilidade”, afirma Araújo.

Os debates continuarão ao longo de 2020 e a proposta de criação da pós será submetida à Capes em 2021. Caso aprovado, o curso começa as atividades em 2022, para isso, a Fiocruz Ceará conta a parceria de importantes atores, entre eles, o Observatório Saúde do Campo, Florestas e Águas; Rede Saúde, Saneamento, Água e Direitos Humanos para o Semiárido (RESSADH); Núcleo Ecologias, Epistemologia e promoção Emancipatória da Saúde (NEEPS); CES - Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, VPAAPS - Vice Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Universidade Federal do Ceará (UFC), Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), Instituto Federal do Ceará (IFce), Escola de Saúde Pública do Ceará, entre outros.

Sobre a área de Saúde e Ambiente

Criada em 2015, alinhada ao Plano Diretor da Fiocruz Ceará, a área de Saúde e Ambiente estuda a realidade ambiental e epidemiológica do Estado na perspectiva de contribuir com a sustentabilidade socioambiental da região e seu desenvolvimento científico. Os pesquisadores desenvolvem projetos de pesquisa, formação e cooperação com foco nas populações do campo, da floresta, das águas e de áreas urbanas vulneráveis.

Entre os eixos trabalhados, o impacto de processos produtivos em grandes empreendimentos na saúde; atenção primária em saúde, ambiente e trabalho; saúde, saneamento, água e direitos humanos; formas sustentáveis de usufruto do território; biodiversidade e saúde; abordagem One Health (saúde única) e toxicologia ambiental.

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