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Estudo revela do que adoecem e morrem os jovens brasileiros

Panorama da Situação de Saúde de Jovens Brasileiros de 2016 a 2022: Intersecções entre Juventude, Saúde e Trabalho

11/12/2023

Eric Veiga Andriolo (Agenda Jovem Fiocruz)

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Jovens sofrem agravos à saúde no trabalho, violências e transtornos mentais

O dossiê “Panorama da Situação de Saúde de Jovens Brasileiros de 2016 a 2022: Intersecções entre Juventude, Saúde e Trabalho”, elaborado pela Agenda Jovem Fiocruz e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, mostra que os jovens brasileiros entre 15 e 29 anos sofrem vários agravos à saúde por situações de violência, condições de trabalho e impactos na saúde mental. O levantamento traz resultados inéditos a partir de bases de dados do Sistema Único de Saúde (SUS).

O estudo revela que 30% dos acidentes de trabalho notificados no período ocorreram em jovens, principalmente homens. Também mostra que jovens são os que mais sofrem acidentes de trabalho com material biológico, em especial os trabalhadores da Saúde, que são majoritariamente mulheres.

Outro achado importante diz respeito à saúde mental das pessoas entre 15 e 29 anos: Transtornos mentais são a primeira causa de internação de homens nessa faixa etária, enquanto as mulheres com emprego estável e carteira assinada são as que mais notificam transtornos mentais relacionados ao trabalho, que resultam em afastamento temporário na metade das vezes.

Os dados de internação no SUS também revelam a grande quantidade de procedimentos de esterilização entre as mulheres jovens. Essa foi a principal causa de internação hospitalar de mulheres com 25 a 29 anos, um total de 152.637 procedimentos entre 2016 e 2022.

As mulheres jovens também aparecem como principais vítimas de violência, especialmente na adolescência. O dossiê mostra que 30% dos casos de violência atingiram jovens e que as faixas etárias mais novas são as mais vitimadas. Adolescentes de 15 a 19 anos têm uma taxa de ocorrência de violências duas vezes maior do que os jovens entre 20 e 29 anos em todas as regiões do Brasil, e 73% das vítimas jovens de violência são mulheres.

Para André Sobrinho, coordenador da Agenda Jovem Fiocruz e um dos organizadores do dossiê, as informações evidenciam a importância de entender os jovens como sujeitos detentores de direitos que precisam de atenção das políticas públicas de saúde:

“A idade deve ser vista como um marcador social para compreendermos as condições que levam agravos à saúde. A juventude é um período de muitos percursos paralelos até a vida adulta, nos quais as pessoas buscam inserção em diferentes esferas da vida como o trabalho, a sexualidade e mudanças de posição na estrutura familiar. Ao mesmo tempo, a juventude é muito heterogênea, se consideramos as distinções entre adolescentes e jovens, além dos marcadores de gênero, raça e de localização territorial onde a vida acontece.” 

O levantamento utilizou bases de dados do SUS: o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Também foram usados dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) e da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisadora Bianca Borges, da Escola Politécnica e uma das organizadoras do dossiê, destaca a importância do uso dessa base de dados para revelar situações que precisam receber mais atenção. “O recorte feito neste dossiê mostra o potencial de uso dos sistemas de informação do SUS para trazer informações relevantes para os gestores, profissionais de saúde e, inclusive, grupos sociais organizados. Afinal, informação em saúde é um direito.”

O lançamento do dossiê ocorreu no dia 11 de dezembro pelas redes da EPSJV, e pode ser acessado aqui.

A Agenda Jovem Fiocruz é um programa institucional da Coordenadoria de Cooperação Social da Presidência da Fiocruz dedicado a ações de pesquisa, educação e promoção de políticas públicas voltadas para o público jovem entre 15 e 29 anos.

Acidentes de trabalho

O dossiê mostra que entre jovens de 15 a 29 anos ocorrem mais acidentes de trabalho: um terço (33,03%) de todos os acidentes de trabalho notificados entre 2016 e 2022 aconteceram nessa faixa etária. Isso significa 345,4 mil acidentes que vitimaram jovens no Brasil, nesse período.

A maioria absoluta das vítimas de acidentes de trabalho é composta de homens: são 78% dos casos, representando uma quantidade 3 vezes maior do que a de mulheres acidentadas.

Jovens estão massivamente inseridos na força de trabalho, grande parte de maneira informal e submetidos a situações que prejudicam sua saúde. Dados da PNAD Contínua analisados pelos pesquisadores da Fiocruz mostram que 70,1% dos jovens entre 18 e 24 anos estão inseridos no mercado de trabalho (ocupados ou buscando emprego). De todos os jovens ocupados no mercado, quase a metade (43,6%) estão em situação de informalidade.

Além disso, mais de um quarto de todos os jovens brasileiros (28%) estiveram expostos a algum fator de agravo à saúde no trabalho ao menos uma vez nos 12 meses que antecedem a pesquisa. Se forem excluídos os adolescentes, essa porcentagem sobe para 46,6% para jovens com mais de 18 anos.

Boa parte dos acidentes de trabalho com jovens (19%) ocorre no translado para o trabalho, o que corrobora a propensão da população jovem para sofrer acidentes de trânsito, especialmente na faixa entre 20 e 29 anos. Dados da PNS mostram que 37,4% dos acidentes de trânsito ocorrem em situações relacionadas ao trabalho. Entre os jovens de 25 a 29 anos esse valor chegou a 43,4%.

O estudo também revela que mais de um terço (37%) do total de acidentes com materiais biológicos no trabalho ocorre entre jovens. O perfil das vítimas é principalmente feminino (74%). Isto está relacionado com a maior presença de mulheres trabalhando diretamente na assistência à saúde: técnicos de enfermagem são a profissão mais afetada, com 32,33% das notificações.

Saúde mental

O dossiê revela que o adoecimento mental é uma das principais causas de internação hospitalar dos jovens, principalmente os homens. No período estudado, os transtornos mentais foram a primeira causa de internação entre os homens de 15 a 29 anos no SUS. Essa estatística abrange as seguintes causas: esquizofrenia; psicose; uso de múltiplas drogas e outras substâncias psicoativas e uso de álcool.  

Já nas notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho, as mulheres jovens trabalhadoras representam a maioria absoluta (74%) dos registros. Jovens que procuraram serviços de saúde para lidar com transtornos ligados ao trabalho foram, na maioria, aqueles com 25 a 29 anos (58%), com ensino médio completo (45%) e, no mais das vezes, com carteira assinada (63%).

Jovens representam 18,4% de todas as notificações de transtornos mentais ligados ao trabalho no SINAN. Entre as principais causas, destacam-se a sensação de “ansiedade” (22%) e “stress” (17%). A metade dos casos (51%) resultou em incapacidade temporária para trabalhar.

Como a estatística só retrata os casos que foram notificados, aparece o perfil de quem tem mais propensão a se reconhecer em situação de transtorno mental no trabalho e buscar assistência médica. Por isso vemos a presença maior de mulheres e pessoas com emprego formal e alta escolaridade nas notificações.

Quanto mais jovens, mais vítimas

Os dados mostram que a juventude apresenta maior risco de sofrer violência. Em 30,15% de todos os casos de violência notificados no período estudado, as vítimas tinham entre 15 e 29 anos.  Dentre esses, a maior taxa de ocorrência de violências aparece em adolescentes com entre 15 e 19 anos (397 casos para cada 100 mil habitantes). Adolescentes nessa faixa foram as maiores vítimas de violência em todas as regiões do Brasil.

A maioria absoluta de jovens vítimas de violência são do sexo feminino (73%). Novamente, quanto mais jovens, mais vítimas: a taxa de incidência da violência em mulheres jovens foi cerca de duas vezes maior do que em mulheres com 30 anos ou mais.

Na maioria dos casos, a vítima é negra e o agressor é do sexo masculino. Na estatística também aparecem as lesões autoprovocadas, que são mais de um terço (35%) das notificações e envolvem, dentre outras coisas, as tentativas de suicídio.

Esterilização de mulheres jovens 

Um dos achados do dossiê foi a grande quantidade de procedimentos de esterilização em mulheres jovens no período estudado. A esterilização foi a causa de internação mais notificada para mulheres na faixa entre 25 e 29 anos, sendo a quarta causa de internação entre todas as mulheres jovens (de 15 a 29 anos).

Essa informação ainda não é bem compreendida pelos cientistas. Os autores do estudo alertam que é preciso olhar com cuidado os dados relacionados a esterilizações para identificar as demandas sociais que explicam essa estatística.

Faltam informações sobre ocupação dos pacientes

Um dos achados do dossiê foi a grande incompletude de informações de ocupação de pessoas internadas no SUS. O preenchimento do campo “ocupação” nas autorizações de internação foi de apenas 20,1% em toda a base de dados do SIH-SUS. Na população jovem, o não preenchimento desse campo foi de praticamente 100%, com apenas 266 registros, do total de mais de 8 milhões de internações. 

Os dados sobre violência também apresentam esse problema. A notificação de violências é obrigatória desde 2011, graças à Portaria nº 104/2011, que estabelece a Lista Nacional das Doenças e Agravos de Notificação Compulsória. Mesmo assim, nem sempre os dados são devidamente coletados. Apenas 12% das fichas de notificação tinham o campo “profissão da vítima” preenchido. Esse problema também aparece nos dados sobre mortalidade. 

Dessa forma, não foi possível realizar um perfil profissional dos jovens internados na rede pública, o que também dificulta identificar as profissões e atividades com mais riscos de morbidade, mortalidade e violências.
 

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