25/02/2025
Cristina Azevedo (Agência Fiocruz de Notícias)
A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou, nesta segunda-feira (24/2) o Consórcio Aberto e Colaborativo de Pesquisa em Flavivírus (CORC, na sigla em inglês), em parceria com a Fiocruz em um evento online. Os CORCs constituem uma nova estratégia da organização, por meio do seu Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para Epidemias. Ao focar nas famílias virais em vez de patógenos individuais, os CORCs visam criar uma abordagem mais abrangente para enfrentar futuras emergências de saúde.
Para cada família escolhida, foi constituído um CORC, que reúne diferentes especialistas, como instituições de pesquisa, desenvolvedores de contramedidas médicas, agências governamentais e reguladoras. A Fiocruz foi convidada no primeiro semestre do ano passado para integrar a iniciativa global, que busca redefinir perspectivas e estruturar a pesquisa e desenvolvimento em torno de famílias virais e bacterianas, coordenando o CORC de Flavivírus, que abrange os patógenos ligados à dengue, zika, febre amarela e febre do Oeste do Nilo.
Mudança de paradigma
No lançamento, o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, agradeceu à OMS pela confiança depositada e destacou que para a ciência ser verdadeira e representativa, deve garantir que todas as vozes sejam ouvidas, com acesso justo e equitativo à saúde. Ele destacou ainda a importância da iniciativa, diante de cerca de 300 pessoas de diversos países que assistiam online. “O CORC representa uma mudança de paradigma ao adotar uma abordagem interdisciplinar sistemática e transversal. Temos a oportunidade de otimizar o processo de pesquisa, acelerar a descoberta científica e melhorar a coordenação entre os esforços globais de P&D”, afirmou.
Moreira lembrou que a mudança na epidemiologia das infecções por Flavivírus mostra que essas doenças não estão mais restritas a regiões geográficas específicas, mas que determinantes socioeconômicos e desigualdades sistêmicas continuam a causar impacto de forma desproporcional às populações vulneráveis. “Abordar essas disparidades exige uma resposta global coordenada que combine inovação científica, ação política e intervenções de saúde equitativas”, disse. “Através do CORC, esperamos estabelecer um roteiro bem definido e representativo que identifique claramente as lacunas de conhecimento existentes, as necessidades de investimento e as áreas prioritárias de ação. Essa jornada é um esforço coletivo, e devemos continuar avançando juntos, aproveitando a ciência, a colaboração e a inovação para construir um mundo mais saudável e justo para todos”.
O presidente da Fiocruz lembrou ainda que o surgimento da Fundação, 125 anos atrás, está ligada à epidemia de febre amarela, uma doença que uma vez mais faz vítimas no Brasil.
No lançamento, vice-diretor-geral da OMS e diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Michael Ryan destacou dois caminhos de pesquisa. Segundo ele, a pesquisa em patógenos específicos continua sendo necessária, mas fez ressalvas. “Aprendemos a lição de que, se cavarmos muito fundo em uma área determinada, podemos perder o principal objetivo”, disse. “E quando algo acontece e um patógeno emerge de outro lugar daquela família, podemos ter que voltar e reverter nosso trabalho para seguir outro caminho. Portanto, é muito importante que mantenhamos uma abordagem baseada em famílias, que nossas plataformas, inovações e colaborações sejam o mais genéricas possíveis, para que possamos responder a muitas questões sobre vários elementos, mas ao mesmo tempo, que não sejam tão genéricas a ponto de não focarmos em patógenos específicos”, explicou.
Ryan destacou ainda “a crescente influência da ciência brasileira e sua visita à Fiocruz no ano passado, durante a reunião do G20. “ Vendo o que vocês têm feito e o seu trabalho pela região e pelo mundo, não consigo pensar em ninguém melhor para coordenar esse esforço em particular. E essa é a essência do CORC. É ter essa facilitação e criação de uma plataforma para que todos os outros possam ter sucesso”, acrescentou.
A secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente, Ethel Maciel, congratulou a OMS e a Fiocruz pela iniciativa. Ela descreveu um cenário complexo, com epidemias recentes e desafios agravados pelas mudanças climáticas. A secretária destacou que o Ministério da Saúde está trabalhando com a Fiocruz para aumentar a produção de vacina para a febre amarela e com o Instituto Butantã para desenvolver um imunizante contra a dengue.
Patógenos prioritários e protótipos
Para explicar os patógenos prioritários, Ana Maria Henao Restrepo, que lidera o Projeto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da OMS para Epidemias, usou uma metáfora do próprio Ryan. “ Há milhares de vírus e bactérias que podem infectar humanos. E 1.600 que podem causar um surto e talvez a próxima pandemia. Então, como nos preparar? Ryan diz que, se um bêbado perde as chaves numa rua escura, ele começa a procurar embaixo de um poste de luz. Estes são os patógenos prioritários, os que sabemos que podem causar surtos e emergências sanitárias de preocupação internacional, e temos que continuar a trabalhar nisso”, explicou. “Mas, se quisermos expandir a área iluminada, então trazemos esse novo conceito dos patógenos protótipos”.
Segundo Restrepo, patógenos representativos são selecionados para servir como guias, como modelos. Eles não são escolhidos por seu potencial pandêmico, mas porque especialistas acreditam que aprender sobre o desenvolvimento de modelos animais para eles pode nos ajudar a avançar com o desenvolvimento de vacinas e de contramedidas médicas, ou ainda expandir nossa compreensão sobre como esses vírus infectam as células humanas.
“Sabemos que temos um objetivo ambicioso, que é estar melhor preparados para a próxima pandemia e ter melhores contramedidas médicas como parte dessa preparação. E faremos isso usando um roteiro que será o nosso caminho para chegar lá”, disse Restrepo.
A vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz), Maria de Lourdes Oliveira, que trabalha na estruturação do CORC de pesquisa sobre Flavivírus, destacou que, embora a Fundação esteja à frente, esta é uma iniciativa global. “A Fiocruz não vai definir a agenda. Seremos nós todos juntos, uma iniciativa relevante por introduzir P&D como parte fundamental na prevenção, preparação e resposta a epidemias e pandemias”, disse ela, apresentando a pesquisa que vai ajudar a moldar a iniciativa e pedindo que os participantes a compartilhassem em suas instituições.
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