Início do conteúdo

26/06/2017

Oswaldo Cruz, heroi da pátria


Por: Fábio Iglesias e Haendel Gomes / Matéria publicada na edição de maio de 2017 da Revista de Manguinhos

Fé eterna na ciência”, disse a historiadora Nara Azevedo ao lembrar a frase racionalista eternizada por Oswaldo Cruz para defini-lo. Em entrevista, a ex-diretora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) – autora do livro Oswaldo Cruz, a construção de um mito na ciência brasileira – comentou ainda o projeto de lei que tramita no Senado Federal para incluir o nome do patrono da Fiocruz no Livro dos Heróis da Pátria da Nação, o mesmo que homenageia Tiradentes e outros símbolos nacionais. Uma “homenagem devida”, afirmou.

A pesquisadora discorreu ainda sobre a importância de Belisário Pena para a construção da imagem mítica em torno de Oswaldo Cruz. Um ano após a morte do sanitarista, em 1918, ele criou a Liga Pró-Saneamento do Brasil, que tinha como objetivo promover uma mudança na saúde. “A reforma que eles pretendiam era assumida pelo Governo Federal porque, nesse movimento de natureza política, a ideia era criar um Ministério da Saúde que tivesse abrangência nacional”, explicou. Nara abordou a trajetória do cientista, a importância que teve para as políticas públicas e seu trabalho à frente da Diretoria-Geral de Saúde Pública (DGSP), bem como sua representação política, científica e cultural para o país.

Em seu livro Oswaldo Cruz, a construção de um mito na ciência brasileira a senhora afirma que a intenção dos cientistas de Manguinhos, ao levar adiante o processo de mitificação do sanitarista, era a de mobilizar a sociedade, principalmente a classe política, em torno dos ideais sanitaristas. De que maneira isso ajudou a consolidar avanços na saúde pública brasileira naquele início de século 20?

Nara Azevedo: Ajudou muito, mas não foi o único elemento. Depois da morte de Oswaldo Cruz, o papel que havia desempenhado para tentar minimizar os problemas de epidemias na capital federal contribuiu para a sensibilização da classe política e intelectual, como Monteiro Lobato. Até então, sua obra [Urupês, com o personagem] do Jeca, falava sobre os homens pobres brasileiros; tinha um conteúdo racista enorme. Jeca estava condenado à miséria, à doença. Acho que esse personagem representa muito bem o que se pensava da população brasileira. E não se pode desvincular a imagem da população dessa maneira porque tínhamos acabado de sair do regime escravocrata.

Belisário Pena, médico que acompanha Oswaldo Cruz desde a campanha da febre amarela em 1904, é o organizador do movimento de mitificação de sua figura e cria, um ano depois da morte do cientista, a Liga Pró-Saneamento do Brasil. Oswaldo Cruz é o patrono da Liga, cujo objetivo é promover uma mudança, uma reforma na saúde brasileira. A reforma que eles pretendiam era assumida pelo Governo Federal porque, nesse movimento de natureza política, a ideia era criar um Ministério da Saúde, que tivesse abrangência nacional. Era quase como se o Jeca fosse o alvo central desse movimento, representando a vítima das endemias rurais, as principais doenças da nação. Não era verdade, mas achavam que era. Doença de Chagas, ancilostomose, malária, por exemplo, deveriam ser combatidas pela Liga e o futuro Ministério.

Não podemos esquecer que esse é o contexto do pós-guerra, da Primeira Guerra Mundial, e existe um grande movimento nacionalista capitaneado por uma camada intelectual e política, à qual sanitaristas e médicos vão se articular. Então, o discurso sobre Oswaldo Cruz, o “saneador do Rio de Janeiro”, o “fundador da medicina experimental”, que são as imagens que consegui identificar no meu trabalho, são as mais usadas para defini-lo nesse discurso mitológico e simbólico sobre o que ele representou para o Brasil. O Instituto Oswaldo Cruz se tornou a primeira grande instituição de pesquisa no Brasil e é o fundador da medicina experimental.

O problema do Jeca não é que ele é ignorante; ele não tem saúde. Esse discurso é recorrente até hoje, chamamos de determinantes sociais. O movimento sanitarista do Belisário Pena mudou a opinião de Monteiro Lobato. Ele escreve sobre isso na Revista do Brasil, publicação então muito importante, que tinha se enganado e que, de fato, o Jeca não era culpado pela sua miséria. O culpado é o Estado, a sociedade que tinha que dar um jeito naquilo. Então, foi muito importante para o movimento, para o debate público sobre a saúde. Resolveu? Não. Estamos com a febre amarela de novo.

Você leu apenas a primeira parte da entrevista com a pesquisadora Nara Azevedo. Confira a íntegra da entrevista.

 

 

Voltar ao topoVoltar