Fiocruz

Fundação Oswaldo Cruz uma instituição a serviço da vida

Início do conteúdo

Moradores de Manguinhos são capacitados pela Fiocruz e realizam pesquisas sobre saúde

Foto de entrevistadores do projeto

15/08/2014

Por Claudio Oliveira/ Portal Fiocruz

Compartilhar:

Composta em sua maioria por mulheres, o Complexo de Manguinhos conta, segundo o Censo 2010, com mais de 20 mil moradores. Destes, 36% apresentam problemas relacionados a pressão alta, 44% foram internados devido a motivos clínicos como infarto e derrame e 45% são atendidos nos serviços públicos da região. Esses e outros números foram obtidos após um trabalho de pesquisa realizado em conjunto com moradores do próprio complexo, que foram capacitados pelo Projeto Inquérito e condições de vida e acesso a saúde no Território de Manguinhos, coordenado pela equipe da pesquisadora Marilia Sá Carvalho e apoiado pelo Programa de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde Pública (PDTSP/Fiocruz), programa de fomento da Vice Presidência de Pesquisa e Laboratório de Referencia (VPPLR/Fiocruz).

No total, os participantes realizaram 955 entrevistas domiciliares, incluindo 2.918 famílias e 883 entrevistas individuais. Todos eles aprenderam técnicas específicas para pesquisa de campo e, atualmente, esse conhecimento está sendo aproveitado em outras iniciativas da Fiocruz. Para integrarem a equipe de entrevistadores, os inscritos passaram por um processo seletivo e, posteriormente, 20 aprovados foram encaminhados para a capacitação. Destes, 10 ficaram em um cadastro de reserva, que acabou sendo aproveitado, e o restante foi contratado pelo projeto, como explica Cintia Ramos, uma das aprovadas para a pesquisa: “O processo seletivo durou todo o mês de janeiro. Nesse tempo, nos passaram informações sobre o projeto, termos de consentimento, formas de abordagem, noções de epidemiologia, entre outras coisas. Como teste, fazíamos uma dinâmica onde entrevistávamos um ao outro”.

Segundo Débora Theodoro, outra entrevistadora do projeto, a capacitação ia desde o conhecimento do software utilizado, até saber como proceder em casos de abordagens de policiais ou traficantes. “Antes de irmos a campo, nos ensinaram como abordar as pessoas, a parte teórica, princípios do SUS, uso do notebook para a inclusão dos dados da pesquisa, entre outras coisas. Além disso, tivemos orientação sobre como proceder em uma comunidade com tráfico de drogas”.

Para os entrevistadores, a receptividade dos moradores de Manguinhos foi grande. O maior desafio para sua conclusão não estava na dificuldade para a realização de entrevistas, mas no mapeamento das casas e na violência gerada pelo enfrentamento entre policiais e traficantes. De acordo com o entrevistador Mariano Varjão Alves Junior, a intensidade com que as operações ocorriam fizeram com que o trabalho se tornasse um desafio. “Não achava que seria um desafio tão grande. Havia dificuldades com o tráfico, as operações policiais e alguma desconfiança por parte dos moradores. Lembro que, em abril, chegamos a ficar 15 dias sem trabalhar porque as operações da polícia eram muito constantes antes da chegada da UPP [Unidade de Polícia Pacificadora]”.

Experiência é aproveitada em outras ações

Apesar das dificuldades encontradas, boa parte da equipe seguiu na Fiocruz e foi aproveitada como bolsista em outros projetos da instituição. Uma delas é Ana Paula Josefa da Silva, que desde o encerramento da pesquisa já trabalhou no Centro de Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e em uma outra pesquisa sobre idosos e nutrição. “Eu sempre tive vontade de trabalhar na Fiocruz e só posso agradecer as minhas coordenadoras e supervisoras. Elas formaram uma equipe que virou uma família. Atualmente, continuo fazendo pesquisa de campo em Manguinhos, só que o foco agora é o saneamento básico”.

Assim como Ana Paula, Débora também seguiu exercendo outras atividades na Fundação e aponta a sua participação no projeto como estímulo para a realização de um curso de graduação. “Eu fiquei muito animada depois que soube como uma pesquisa é feita. Via o resultado de pesquisas da Fiocruz em matérias na tevê... Agora sei como tudo acontece. Quando a pesquisa acabou, fui trabalhar no Elsa [Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto], onde estou até hoje. Estar aqui me deu ânimo para fazer uma faculdade. Estou no segundo período do curso de Serviço Social”. 

Além da possibilidade de continuar trabalhando em projetos da Fiocruz, os profissionais também destacaram o aumento do interesse por temas ligados à saúde. Segundo Cintia Ramos, conhecer a Fiocruz por dentro foi fundamental para essa atração pelo tema. “Conheci mais sobre as doenças, prevenção e me interessei pelo assunto durante o curso. Comecei a ver que aquele mundo era meu. Depois do Teias, acabei fazendo outros cursos aqui na Fiocruz, como o de análises clínicas, e agora penso em estudar biologia."

O Epidengue 006 é outro projeto da Fiocruz que aproveitou a experiência acumulada pela equipe de entrevistadores do Teias. Logo após o término do projeto, Mariano foi convidado para ser bolsista no projeto Coorte Dengue, onde era responsável por trazer gestantes para consultas e identificar o motivo que fazia com essas mães eventualmente não fossem se consultar. De lá, passou a integrar a equipe do Epidengue006 como supervisor, onde está até hoje. “Hoje trabalho na supervisão de área. Dou auxílio à equipe de pesquisadores, uma vez que as casas visitadas para a pesquisa são as mesmas que percorremos no Projeto Teias”.

Sobre a pesquisa

A pesquisa integrou a Rede PDTSP-Teias, que teve como objetivo fomentar pesquisas no território de Manguinhos. O diferencial desta rede de pesquisa foi o trabalho colaborativo na construção das questões deste inquérito, onde a maioria dos projetos foram contemplados com suas questões de interesse neste instrumento. Assim, a pesquisa foi elaborada em conjunto entre os pesquisadores da rede e especialistas no assunto, tais como Francisco Viacava (ICICT), Cristovam Barcellos (ICICT) e Marilia Sá Carvalho, que aceitaram este desafio posto pela VPPLR.

Os principais ganhos obtidos por esta rede foram: a forma colaborativa de trabalho entre os pesquisadores de diferentes unidades da Fiocruz, capacitação de moradores da comunidade para atividades de pesquisa, e a criação de novas formas de se integrar pesquisa e serviço no âmbito da gestão de Redes integradas de atenção à saúde. Logo esta rede de pesquisa, que foi uma parceria entre VPPLR, Teias Escola Manguinhos e SMS, só tendem a contribuir para um aprimoramento do modelo de rede integradas de saúde, buscando sempre a melhoria da qualidade de vida e atendimento de saúde da população.

Os resultados da pesquisa, que contou com a coordenação de pesquisadores do Programa de Computação Científica (PROCC/Fiocruz), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e da parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), podem ser acessados na cartilha Como vai a sua saúde: resultados da pesquisa sobre a situação de saúde dos moradores da região de Manguinhos, publicada pela Ensp/Fiocruz. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail pesquisa-teias@fiocruz.br ou diretamente no site do projeto.

Voltar ao topoVoltar