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22/06/2017

Entrevista com Nísia Trindade: Ano Oswaldo Cruz, celebração e compromisso


Entrevista publicada na edição de maio de 2017 da Revista de Manguinhos

Instituído em março de 2017, o Ano Oswaldo Cruz - 100 anos do legado de Oswaldo Cruz - O papel da ciência e da saúde no projeto nacional, vai mobilizar toda a Fundação em atividades que ocorrerão nos próximos meses. O projeto, que tem oito eixos temáticos, também será responsável por uma exposição na Câmara dos Deputados. Em entrevista, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, aborda o significado do Ano Oswaldo Cruz e comenta a importância do cientista para o país. Segundo ela, o Ano Oswaldo Cruz é, ao mesmo tempo, a celebração de um legado e a assunção de um compromisso com o futuro, tendo o bem-estar da população como objetivo estratégico.

O que significa o Ano Oswaldo Cruz?

Nísia Trindade Lima: O Ano Oswaldo Cruz busca ressaltar toda contribuição deste sanitarista e grande cientista brasileiro que teve como seu maior legado o início do processo de constituição da Fundação Oswaldo Cruz. Devemos sim celebrar os grandes cientistas da história brasileira que se comprometeram com a nação e com o bem-estar de nosso povo, o que se torna ainda mais importante neste momento pelo qual passa o país. Estamos um momento de profundas transformações econômicas, sociais, tecnológicas e nas formas de organização do Estado, o que traz um enorme desafio para pensar o futuro. Como este é incerto, não passível de redução a cálculos de probabilidade, o estudo e o conhecimento de nossa história, de nosso país, de nossa instituição e do contexto internacional tornam-se os elementos essenciais que fornecem as pistas para um projeto de futuro.

O futuro não se constrói apenas a partir dos desejos abstratos. Não conseguimos pensar o Brasil sem considerar que fomos um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão e que somente recentemente foi criada uma institucionalidade na qual o bem-estar passou a fazer parte de um projeto de desenvolvimento. No interior da Fiocruz, este legado, que aliou ciência, educação, tecnologia e saúde, foi uma conquista iniciada com Oswaldo Cruz e que passou por muitos de nossos grandes cientistas, a exemplo de Carlos Chagas. Mais recentemente, Sergio Arouca forneceu novos pilares para este projeto institucional, incorporando o legado de nossos “fundadores” e avançando para o contexto de um Estado e uma instituição democrática e comprometida com a sociedade, o SUS e a ciência, tecnologia e inovação.

Deste modo, o Ano Oswaldo Cruz é ao mesmo tempo a celebração de um legado e a assunção de um compromisso com o futuro, tendo o bem-estar de nossa população como objetivo estratégico e as atividades de alta qualidade em ciência, tecnológica e inovação como um meio único para alcançarmos o desenvolvimento social, econômico e ambiental na sociedade do conhecimento.

Quais serão os eixos temáticos do evento?

Nísia: São oito: promoção da ciência, tecnologia e inovação em benefício da sociedade e a serviço da vida; a importância do papel de uma instituição pública na produção e inovação em saúde; Fiocruz na articulação do sistema de ciência, tecnologia e inovação, nas dimensões regional, nacional e global; desafios dos objetivos de desenvolvimento sustentável; políticas e estratégias de saúde: passado, presente e futuro com perspectivas ao fortalecimento do SUS; preparação da Fiocruz para a 4ª revolução tecnológica; a Fiocruz e a educação permanente; e democracia e perspectiva nacional na prospecção institucional.

O que será apresentado na exposição a ser montada na Câmara dos Deputados?

Nísia: A exposição, além de levar para nossa esfera de representação política, o maior conhecimento de nossa história e de nossas grandes conquistas para a humanidade e para o país, terá o desafio de mostrar como o sistema Fiocruz, que alia conhecimento, educação, inovação e produção de bens e serviços, constitui um patrimônio nacional único que deve ser orgulho dos brasileiros. Na primeira parte da mostra serão apresentadas a trajetória e contribuições de Oswaldo Cruz e, na segunda parte, ressaltada a contribuição da Fiocruz, como instituição de Estado comprometida com o SUS. Como decorrência, a exposição se insere numa perspectiva ambiciosa de evidenciar o valor que possuímos como instituição pública de C&T&I e como podemos contribuir para a sociedade brasileira e para o avanço social, econômico e democrático de um projeto nacional que seja sustentável em suas múltiplas vertentes.

Qual o legado de Oswaldo Cruz?

Nísia: Como já mencionei, o legado de Oswaldo Cruz é a Fiocruz para a população brasileira, ou seja, a criação de uma instituição que alia ciência, tecnologia (na fabricação de produtos biológicos, como vacinas e fármacos), educação, saúde e projetos nacionais. Uma marca histórica da Fiocruz, e por isso muito forte, tem origem nessa matriz institucional desenhada pela primeira geração de cientistas que Oswaldo Cruz reuniu em Manguinhos, ou seja, o nosso compromisso com a apropriação dos conhecimentos aqui gerados para a formulação de políticas públicas de saúde.

Devemos lembrar que o Instituto Soroterápico Federal, fundado em 1900, e transformado em 1908 em Instituto Oswaldo Cruz, foi criado como resposta a uma grande emergência sanitária: a necessidade de produzir soro contra a peste bubônica que havia chegado a Santos e ameaçava a então capital federal, o Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz, como diretor do Instituto Oswaldo Cruz e diretor-geral de Saúde Pública, ampliou a agenda de pesquisa institucional e induziu produção de conhecimento em áreas diversas, como a microbiologia e a medicina tropical, tornando a instituição capaz de atuar também no controle à epidemia de febre amarela que assolava o Rio de Janeiro no início do século 20. A Fiocruz, como sabemos, continua empenhada e capacitada a dar respostas à sociedade brasileira, na forma de conhecimento científico, insumos e atenção primária à saúde, nas situações de emergência sanitária, tal como vimos no quadro recente e gravíssimo da tríplice epidemia de dengue, zika e chicungunya, mas também na reemergência da febre amarela.

A matriz institucional criada por Oswaldo Cruz, no entanto, não se revela apenas nas diversas atribuições institucionais em pesquisa, produção e ensino, ou nos episódios de epidemias, na capacidade de responder a uma emergência sanitária. Outro traço histórico muito relevante é a presença nacional da Fiocruz. Existem unidades da Fundação em todas as regiões do Brasil. A presença da instituição no território brasileiro começou com expedições científicas, também nas primeiras décadas do século 20, que acompanharam a expansão do Estado nacional brasileiro em obras para a modernização de sua infraestrutura, ou seja, construção de ferrovias, projetos de desenvolvimento regional na Amazônia, obras contra as secas no Nordeste etc. A base institucional, então existente, permitiu, mais uma vez, a conjugação entre pesquisa de laboratório, trabalho clínico e expertise para trabalho de campo feito nos canteiros de obras. O papel da instituição nessas expedições foi fundamental para consolidar a medicina tropical como disciplina científica, mas também para fortalecer o seu protagonismo nos debates referentes à saúde pública, como no movimento sanitarista dos anos 1920, que buscava a implementação de políticas federais de saúde, como a criação de um Ministério da Saúde, e na formulação de projetos nacionais de desenvolvimento. Em suma, essa é a matriz que nos orgulha, inspira e desafia a aprimorar a instituição e suas diferentes áreas de atuação, para a promoção da saúde da população, o fortalecimento do SUS e de políticas de C&T&I e do desenvolvimento autônomo do país.

Como analisa a saúde e a ciência brasileira cem anos após a morte do patrono da Fiocruz?

Nísia: O nosso país passou por profundas transformações. Tornou-se urbano e industrializado, constituiu um sistema de C&T robusto e nacional e, mais importante, avançamos na compreensão da saúde como um dever do Estado, tendo o SUS o papel de garantir princípios da Constituição de 1988, vinculados à universalidade, à integralidade e à equidade. No presente, com a crise nacional e também global, há o grande desafio de, frente a pensamentos mais restritos de ajuste, ajudarmos a atualizar o papel da Fiocruz num novo projeto nacional que seja ao mesmo tempo dinâmico, inclusivo e sustentável.

A saúde, a ciência e a tecnologia devem ser pilares essenciais desta nova estratégia. Não se enfrenta a crise olhando para trás e numa perspectiva de passividade e de medo. A lição maior de Oswaldo Cruz e de nossos grandes fundadores é o olhar para frente como base para nossa ação no presente. É tratar esta diversidade do país como riqueza. É resgatar o projeto da mais vibrante democracia do mundo. É aproveitar a pulsão inovadora de nosso povo excluído, mas a quem não falta luta e criatividade, quando as amarras de nossa história são enfrentadas para nos deixar avançar.

Desacorrentar a criatividade, a ciência, a saúde, a educação libertadora e a inovação, em bases participativas e democráticas, faz parte de nosso horizonte estratégico. A saída da crise nos impõe o desafio de pensar e fazer o futuro a partir de nossa história e, ao mesmo tempo, nos chama para a ousadia de não nos amesquinharmos nos grilhões do passado. A Fiocruz foi o maior legado de Oswaldo Cruz. A ousadia para o novo, a sua principal lição.

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Marcha em Defesa do SUS, da Catedral de Brasília até o Congresso Nacional. Manifestações populares e cartazes em prol do Sistema Único de Saúde. Este mosaico traz imagens de atividades espontâneas da 15ª Conferência Nacional de Saúde (15ª CNS), assim como da programação oficial, em diálogos temáticos, grupos de trabalho e plenárias. Confira alguns momentos da 15ª CNS, realizada de 1º a 4 de dezembro, em Brasília (DF), com o tema "Saúde pública de qualidade para cuidar bem das pessoas: direito do povo brasileiro".


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  • Parte do público, em evento da 15ª CNS
  • Parte de faixa na 15ª CNS
  • Mesa de diálogo temático, na 15ª CNS
  • Auditório em mesa da 15ª Conferência Nacional de Saúde,  com cartaz escrito "Ocupação educadora"
  • Pequena índia, em close da exposição da Fiocruz, na 15ª CNS: Pelos caminhos do SUS
  • Imagem de cartaz, escrito Movimento Popular da Saúde
  • Parte da imagem da exposição sobre o SUS, escrito Caminhos
  • Fotografia dos delegados da 15ª CNS em sala de diálogo temático
  • Detalhe de banner na tenda Paulo Freire, na 15ª CNS
  • Cruz no gramado à entrada da 15ª CNS
  • Parte de cartaz, escrito "visão holística"
  • Close do rosto da presidente, em discurso na 15ª CNS
  • Parte de cartaz, escrito SUS
  • Trecho de poética para Marcha das Margaridas, sobre mulheres do campo
  • Mosaico de palavras como saúde, participação social e universal
  • Imagem de materiais diferentes, incluindo garrafa e guarda-chuva colorido
  • Ministro da Saúde em mesa da 15ª CNS
  • Faixa com dizeres Marcha da Saúde em Defesa do SUS
  • Parte do cartaz, escrito educaçao popular em saúde
  • Foto da delegação do Amapá na 15ª CNS
  • Apresentação de música na 15ª Conferência Nacional de Saúde
  • Vista superior do auditório na Conferência Nacional de Saúde
  • Pessoa segurando cartaz, aparecendo escrito "em defesa do SUS"
  • SUS 100% público