Serviços 
O conteúdo desse portal pode ser acessível em Libras usando o VLibras
Início do conteúdo

Encontro Trajetórias Negras na Fiocruz chega à sua quinta edição


23/11/2020

Roberta Costa (estagiária/CCS/Fiocruz)

Compartilhar:

Reunir trabalhadores negros da Fiocruz para compartilharem vivências pessoais e refletirem sobre as desigualdades raciais e o racismo estrutural. Esse foi o objetivo do encontro Trajetórias negras na Fiocruz, que chegou a sua quinta edição em 26 de novembro. O evento, promovido pela Fundação, por meio do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, foi realizado pela primeira vez de forma on-line, em função das recomendações de distanciamento social diante da pandemia de Covid-19, com transmissão pelo canal da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz no Youtube.

O encontro marcou o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, e assim fortaleceu uma agenda institucional pelo reconhecimento da diversidade étnico-racial e pela consolidação de práticas antirracistas na Fiocruz. Nesta edição, foram convidados o diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), Hermano Castro, e a nutricionista do Centro de Saúde do Trabalhador da Coordenação Geral de Pessoas (CST/Cogepe), Wanessa Natividade. O encontro foi mediado pela pesquisadora do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc), Mychelle Alves.

Abertura

A abertura contou com a apresentação da história do livro Alafiá, a princesa guerreira, da escritora Sinara Rúbia, feita pela integrante do Comitê Pró-Equidade representando Farmanguinhos, Fátima Loroza. Além disso, abriram a atividade as integrantes da coordenação colegiada do Comitê: a assistente social do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), Roseli Rocha; a coordenadora-geral de Gestão de Pessoas da Fiocruz (Cogepe), Andrea da Luz; a jornalista do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), Marina Maria; e a educadora do Serviço de Educação do Museu da Vida, da Casa de Oswaldo Cruz (COC), Hilda Gomes. Também participou dessa etapa a assessora de comunicação da Fiocruz Pernambuco, Rita Vasconcelos, integrante do Comitê e uma das idealizadoras da série de encontros Trajetórias negras na Fiocruz.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,) apresentados por Roseli Rocha no evento, dos 209,2 milhões de habitantes do Brasil, 19,2 milhões se assumem como pretos e 89,7 milhões pardos. Os negros (pretos e pardos) representam 56,10%, ou seja, maioria da população. “Embora sejamos maioria, nós não aparecemos nas esferas sociais de maior visibilidade política e de maior poder econômico. A população negra ocupa os piores índices de desigualdades e sofre múltiplas violências por sua condição étnico-racial”, declarou Roseli.

Andrea da Luz falou sobre o compromisso da Fiocruz em reconhecer e enfrentar todas as formas de discriminação, exclusão e violência que a população negra sofre, citando a Tese 11, aprovada no VIII Congresso Interno da instituição, de dezembro de 2017. “A Fiocruz se posiciona na luta por uma sociedade mais justa e equânime, seja nas políticas voltadas para seus trabalhadores, seja nas ações para usuários em suas escolas, institutos e serviços de saúde, assim como nos estudos e pesquisas desenvolvidos para combater o racismo estrutural”, afirmou a coordenadora. 

Em seguida, Marina Maria destacou a importância do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz e apresentou um histórico das ações desenvolvidas. Segundo ela, o Comitê é um coletivo potente que busca formas de fortalecer a agenda institucional pelo reconhecimento da diversidade étnico-racial e pela consolidação de práticas antirracistas na Fiocruz. “As ações do Comitê são importantes para que a gente tenha uma instituição efetivamente potente na sua diversidade e que seja realmente inclusiva”, pontuou Marina. Já a coordenadora Hilda Gomes apontou as diferentes iniciativas do Comitê em 2020, apresentando um panorama dos encontros virtuais de formação realizados. Para ela, é muito necessária essa organização de ações educativo-políticas feita pelo Comitê: “Nós temos um olhar muito cuidadoso nessas ações para que consigamos nos aprofundar teoricamente nas questões que envolvem gênero e raça”, comentou a educadora. 

Rita Vasconcelos falou sobre a roda de conversa Trajetórias negras na Fiocruz, que começou em 2018 como uma ação da campanha 21 dias de ativismo contra o racismo. Para ela, o evento busca contribuir, com escuta e acolhimento, na construção de caminhos para o enfretamento e eliminação de formas de racismo. “O objetivo do evento é proporcionar um espaço de diálogo sobre racismo institucional e representatividade das pessoas negras na Fiocruz. A ideia é que trabalhadores negros da Fundação possam compartilhar suas histórias de vida na instituição e desafios associados à discriminação racial”, declarou a assessora.

Trajetórias 

A nutricionista Wanessa Natividade iniciou o momento dos depoimentos para esta edição do Trajetórias negras na Fiocruz e contou que foi a primeira de sua família a ter o ensino superior completo. Após ingressar no projeto social Educafro, ela passou a compreender as diversas limitações educacionais que tinha e isso possibilitou a transformação de sua vida. “Esse movimento social me ajudou a compreender um pouco mais sobre o que é ser negra dentro da sociedade. A partir disso, eu tive a oportunidade de mergulhar nessa temática e modificar minha vida”, declarou. 

Depois de um período de estágio na Fiocruz, ao concluir a graduação em Nutrição, Wanessa se tornou nutricionista terceirizada no Centro de Saúde do Trabalhador da Cogepe. “A partir da Fiocruz, eu tive a possibilidade de ingressar na área da ciência em si e participar de diversos congressos. Você ser protagonista de algo é sempre muito difícil e ao longo do tempo eu consegui compreender a importância desse lugar, a importância desse local de fala”, destacou.

Em 2015, Wanessa tomou posse após aprovação no concurso público da Fiocruz de 2014 e se tornou servidora da instituição. “Para mim, ser servidora pública dentro dessa nossa sociedade tão excludente é fundamental. Verbalizar a todo momento o nosso papel de Estado é muito importante”, afirmou. 

Olhar diferente

Já o médico Hermano Castro passou a infância em Bangu, município do subúrbio do Rio de janeiro, e aos 12 anos começou a trabalhar para ajudar a família a complementar a renda. Por isso, arrumou um emprego na zona sul e começou a estudar nos colégios da região. Foi nessa ocasião que percebeu as diferenças étnico-raciais. “No subúrbio eu não tinha essa noção das diferenças entre as pessoas e nesses colégios eu comecei a sentir isso. É aí que você percebe que tem a pele morena, tem o cabelo crespo, a boca é diferente, o teu nariz é diferente, as pessoas te olham diferente”, comentou. 

Castro também foi o primeiro da família a ingressar no ensino superior para cursar Medicina, curso majoritariamente branco, conforme analisou. “A medicina é um lugar de brancos, é um curso para brancos. Eu lembro que na minha turma tinham poucos pretos e pardos, era muito difícil encontrar os que saíam graduados”, declarou. Hermano se formou em 1980 e iniciou um projeto na Fiocruz, na área de saúde do trabalhador. Para ele, a própria Fiocruz é uma instituição de maioria branca e que ainda tem um certo racismo silencioso. “Logo assim que eu ganhei a eleição para ser diretor da Ensp, comentaram que quem ia ser o diretor era ‘aquele mulatinho’. ‘Mulatinho’ vem de mula. Essa é uma instituição branca que ainda tem essas coisas. A gente precisa o tempo todo estar combatendo isso”, reiterou.

Hermano finalizou sua apresentação falando sobre a pandemia de Covid-19 e como a população negra está sendo mais afetada por ela no mundo todo. “Na mortalidade, os negros representam praticamente 60%. Sofrem muito mais negros, morrem muito mais negros do que brancos. Os negros têm muito menos chances de se recuperar ao contrair Covid-19 por terem menos acesso aos serviços de saúde e aos equipamentos”, comentou. O encontro virtual do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz teve tradução para a Língua brasileira de sinais (Libras), em acordo com a política institucional para implementação de medidas de acessibilidade comunicacional, e está disponível na íntegra no canal da distribuidora VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz no YouTube

O Comitê

O Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz foi criado em 2009, para consolidar uma agenda institucional pelo fortalecimento dos temas étnico-raciais e de gênero na Fundação, colaborando para uma constante atualização e reorientação de suas políticas, bem como de suas ações, seja nas relações de trabalho, seja no atendimento ao público e na produção e popularização do conhecimento. Em 2018, passou a ser gerido por uma coordenação colegiada, sendo a promoção da equidade de gênero (incluindo as questões que abrangem a temática da diversidade sexual) e das relações étnico-raciais na Fiocruz prioridade do Comitê, em alinhamento com o posicionamento da instituição em defesa dos direitos humanos e do reconhecimento da diversidade da população. 

Voltar ao topoVoltar